O drama dos pacientes que dependem da hemodiálise do Hospital Central de Maputo (HCM) vai além da longa lista de espera. Para aqueles que já conseguiram iniciar o tratamento, os altos custos, a cobrança extra por consumíveis e o tratamento desigual entre pacientes tornam o processo ainda mais penoso.
Em conversa com a nossa reportagem, uma paciente que realiza sessões de hemodiálise, há mais de seis meses, relatou as dificuldades financeiras enfrentadas semanalmente. Segundo ela, são necessários cerca de 12 mil meticais por semana para realizar duas sessões, um valor inacessível para muitas famílias.
“Não tem sido fácil conseguir os 12 mil meticais por semana. Pagamos 6 mil por sessão, mas, além disso, a cada duas semanas, somos cobrados outro valor por causa dos consumíveis usados nas máquinas de diálise”, explicou.
A paciente, que preferiu não se identificar, denuncia também a falta de transparência nos custos. Ela afirma que os pacientes não recebem qualquer comprovativo ou receita que justifique a compra dos materiais adicionais.
“Se esses consumíveis são mesmo comprados para nós, por que não nos dão uma receita para irmos comprar fora? Aqui, apenas nos dizem o valor e temos de pagar. Às vezes, pagamos 6 mil Mts por cada sessão, mas na terceira somos cobrados 10 mil. Se não pagarmos, o tratamento é suspenso, sob alegação de falta de consumíveis”.
Tratamento desigual pelo mesmo serviço
Outro problema levantado pelos pacientes é a percepção de tratamento diferenciado entre utentes. Uma paciente denunciou que há doentes que recebem um atendimento preferencial por supostamente serem figuras influentes ou com melhores condições financeiras.
“Existem pacientes VIP que são colocados numa sala especial. Lá recebem mais atenção e cuidados durante a sessão. Não é justo, porque todos nós estamos doentes e merecemos o mesmo tipo de tratamento”, desabafou.
Esses relatos aumentam a pressão sobre as autoridades de saúde para que o acesso ao tratamento seja mais transparente, equitativo e humanizado. A desigualdade no atendimento e os custos ocultos tornam a luta contra a insuficiência renal ainda mais difícil para os que dependem do serviço público.
Consequências para os pacientes
Para muitos dos doentes na lista de espera, a hemodiálise não é apenas um tratamento, mas uma questão de sobrevivência. A falta de acesso imediato pode resultar em agravamento do estado clínico e até em óbitos evitáveis.
“A cada semana que passa sem tratamento, o risco de complicações aumenta. Alguns dos pacientes na lista de espera já estão em estado crítico e não podem esperar mais”, alertou uma fonte ligada ao sector da nefrologia.
Enquanto isso, familiares e pacientes apelam por uma resposta urgente. “Eu não desejo esta doença nem para os meus piores inimigos. Este é um mal silencioso, eu diria que é doença de rico e não daquele que recebe apenas entre 20 a 30 Mil Mts. Estamos num país onde temos dificuldade de ter pão na mesa, imagine ter 12 Mil Mts para fazer diálise duas vezes por semana. Estamos a falar de vidas humanas. A demora no tratamento pode ser fatal”, disse um familiar de um dos pacientes em espera desde 2023.
HCM tem 72 pacientes na lista de espera
O HCM, a maior unidade sanitária do país, conta com 72 na sua lista de espera, que aguardam actualmente por uma vaga para iniciar o tratamento, essencial para doentes com insuficiência renal crónica.
A hemodiálise é um procedimento vital que substitui temporariamente a função dos rins, removendo resíduos e excesso de líquidos do sangue. No entanto, a capacidade limitada do HCM impede que novos pacientes comecem as sessões de forma imediata.
“Temos uma capacidade instalada que não consegue responder à demanda actual. Neste momento, só temos dois equipamentos de hemodiálise em funcionamento, mas, dependendo das condições do paciente, este pode passar para frente”, explicou um profissional de saúde, sob condição de anonimato.
O profissional explicou ainda que, no caso de pacientes que fazem consulta normal e aqueles que são funcionários públicos e seus dependentes, o tempo de espera pode ser mais longo, devido aos trâmites necessários com a Junta Médica.
No entanto, se o paciente tiver condições financeiras para realizar uma consulta especial, no valor de 900 meticais, ou optar pela clínica do HCM, onde a consulta custa 2.000 meticais, o médico responsável pode avaliar a sua situação e encaminhá-lo directamente para iniciar o tratamento de hemodiálise.
Ou seja, com dinheiro no bolso, o paciente pode deixar para trás outros que permanecem meses ou até anos à espera de uma vaga, muitas vezes só disponibilizada quando outro paciente perde a vida.
O serviço atende diversos pacientes diariamente e opera com um número reduzido de máquinas, sendo que cada sessão custa cerca de 6.000 meticais. Cada paciente precisa realizar duas sessões por semana.
A situação evidencia a necessidade de investimentos estruturais no sistema de saúde pública, especialmente em áreas críticas como a nefrologia, que têm registado um aumento significativo de casos nos últimos anos, associado a doenças como a diabetes e a hipertensão.
O serviço público de hemodiálise funciona há bastante tempo com limitações significativas na admissão de novos pacientes. Dados de 2019 indicavam que o serviço de hemodiálise do HCM atendia, em média, 70 pessoas, enquanto outras 35 permaneciam na lista de espera. Já naquela altura, a capacidade da unidade era insuficiente para responder à crescente demanda.
O serviço está em funcionamento desde 2008, quando foram inauguradas 12 máquinas de hemodiálise. Contudo, segundo uma fonte que preferiu manter o anonimato, apenas duas estão operacionais desde 2023, uma situação que contribui directamente para o actual cenário, com 72 pacientes aguardando vaga para iniciar o tratamento. (Carta)





