Moçambique despediu-se esta quarta-feira de John William Kachamila, antigo Ministro dos Recursos Minerais e Energia e da Coordenação Ambiental, falecido na passada quinta-feira, 3 de Julho, no Hospital Central de Maputo (HCM), vítima de doença. A despedida teve lugar no Paços do Município de Maputo e contou com a presença do Presidente da República e de todos os antigos Chefes de Estado.
Coube ao antigo Ministro dos Recursos Minerais e Energia, Castigo Langa, prestar a primeira homenagem ao veterano da luta de libertação nacional, com quem trabalhou no Ministério dos Recursos Minerais e Energia, quando desempenhava as funções de vice-Ministro.
Segundo Castigo Langa, John William Kachamila, nascido a 30 de Janeiro de 1946, no distrito de Lago, província do Niassa, foi um homem respeitoso, que tratava os seus colaboradores de igual maneira, independentemente da sua posição. Para Langa, John Kachamila foi “um moçambicano na plenitude, que nunca se deixou encaixotar na mesquinhez da etnia ou da região”.
“Impressionou-nos a habilidade para juntar talentos e conciliar carácteres para construir uma equipe de sucesso. Aprendemos que, quando o dirigente sabe escutar, tem ideias claras e propósitos honestos e construtivos, tanto a arquitectura institucional do Ministério como a fluência na língua tornam-se detalhes secundários”, disse Langa.
Já a Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (ACLLN), um dos órgãos sociais da Frelimo, diz estar “inconformada com a partida célere de John Kachamila”, mas entende que “partiu feliz porque cumpriu a missão nobre de fazer parte do grupo de jovens que sacrificaram as suas vidas pela causa da liberdade e da independência”.
Citando mensagem de uma veterana da luta de libertação nacional não identificada, Carlos Siliya, Secretário-Geral da ACLLN, defendeu que John Kachamila “será recordado pelo seu carácter ímpar” e que sua vida se confunde com a história da luta pela independência do país. Sublinhou, aliás, que a ACLLN tem sido abalada, nos últimos anos, pela morte dos seus membros, “deixando fissuras nos contingentes da marcha pela liberdade do povo moçambicano”.
Por sua vez, a Frelimo entende que partiu “um homem de uma humildade incomparável” e “de uma nobreza edificante, cuja visão de bem-estar nunca se subscreveu à satisfação das suas necessidades”.
Na voz de Celmira Pena Da Silva, Secretária do Comité Central para Formação e Quadros, a Frelimo descreve Kachamila como “um dirigente visionário, competente e convicto das suas contribuições incomensuráveis em toda a sua trajectória.
Os filhos recordam Kachamila como “comandante” e seu “guia”, descrevendo-o como “um homem de uma paz interior profunda”, “verdadeiramente tranquilo” e “protagonista de uma grande narrativa”. Afirmam que o seu pai acreditava na bondade que a confrontação e que amava o país e a sua história fundadora.
“Nestes últimos sete meses, aprendi a dar sem esperar retorno, a perdoar sem motivo, a enfrentar a dor com dignidade, a pedir ajuda quando é preciso e até a chorar, quando não se aguenta mais. A imagem que levo do papá não é de um homem derrotado, mas a de um homem que se manteve firme perante o inevitável, que manteve a cabeça erguida e o sorriso caloroso e que nos deixou preparados para o mundo sem ele”, disse o filho mais novo da família.
Para o Governo, o percurso profissional de John William Kachamila “é marcado por uma entrega incondicional ao país”, tendo sido “um pilar de visão estratégica, liderança firme e compromisso inabalável com o desenvolvimento sustentável” dos sectores que dirigiu, nomeadamente, recursos minerais, energia e meio ambiente”.
Segundo o Ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estevão Pale, Kachamila lançou bases para uma governação responsável dos recursos naturais, fortalecimento institucional e para formação de quadros nacionais. “Dedicou grande parte da sua vida ao serviço da nação, com elevado sentido de dever, competência técnica e integridade moral”, defende Pale, acrescentando que o seu contributo lhe valeu a atribuição da Ordem Eduardo Mondlane do Segundo Grau (em Moçambique) e da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (no Brasil).
Para o Governo, a morte de John Kachamila representa uma perda irreparável não apenas para a sua família, mas para o país inteiro. “O seu desaparecimento ocorre num momento desafiador, em que o equilíbrio entre a exploração dos recursos minerais, a sua valorização local e a preservação ambiental exige soluções urgentes, arrojadas e sustentáveis”, destaca.
Para os antigos Presidentes da República, Kachamila foi um patriota, um homem humilde, discreto e com “grandes e fortes convicções”. Segundo Joaquim Chissano, John Kachamila foi um dos três primeiros geólogos moçambicanos que tiveram a tarefa de recrutar a mão-de-obra estrangeira que se encarregou de desenhar os primeiros projectos de exploração mineira e de produção de energia.
Para Filipe Nyusi, Kachamila era um homem humilde e respeitoso, facto que lhe permitiu granjear muita simpatia. Disse ainda que foi um “governante produtivo”, por isso “ficou em frente da governação por muito tempo”, para além de ter sido um “político inteligente e silencioso”.
“Passou por muitas dificuldades, mas sempre soube vencer devido às suas grandes e fortes convicções”, acrescentou Armando Guebuza.
Lembre-se que John Kachamila desempenhou, na estrutura do Estado, as funções de Chefe dos Serviços Geológicos Nacionais, de Director Nacional de Geologia e Minas, de Presidente da Comissão Nacional do Meio Ambiental, Ministro dos Recursos Minerais (1986-1994), Ministro dos Recursos Minerais e Energia (1994-2000) e Ministro para Coordenação da Acção Ambiental (2000-2004). (Carta)





