Mudei-me para a Ka-Tembe há pouco mais de um ano. Nesse curto espaço de tempo, partilhei as dores, a lama e os buracos que moldam o quotidiano do nosso distrito municipal. No entanto, o desenvolvimento de uma comunidade não se mede apenas pela espessura do asfalto que falta, mas pela qualidade humana e pela capacidade de organização de quem nela habita. E, neste quesito, os residentes da Ka-Tembe dão uma lição de cidadania e maturidade digital que merece ser celebrada.
Falo, concretamente, de uma experiência extraordinária de proactividade comunitária: a criação de grupos de WhatsAppdedicados exclusivamente a alerta e monitoria, em tempo real, da localização do transporte público. A procura por estes grupos foi tão concorrida que o primeiro esgotou rapidamente o limite máximo de participantes permitidos pela plataforma.
E, para que ninguém ficasse no escuro, os residentes organizaram-se e criaram um segundo grupo, no qual estou inserido. É um ecossistema digital em expansão, movido puramente pela solidariedade entre todos nós, os residentes. O que torna esta iniciativa verdadeiramente salutar e exemplar é a sua disciplina férrea.
Em ambos os grupos, não há espaço para conversas fiadas, publicidade, correntes ou qualquer outro tipo de informação alheia ao quotidiano logístico do bairro. O foco é absoluto e cirúrgico: partilhar alertas sobre a localização do transporte. Num contexto em que as redes sociais são muitas vezes inundadas por desinformação e ruído, os moradores da Marinha e Chamissava transformaram o WhatsApp num canal de pura utilidade pública.
Sejamos realistas: a mobilidade na periferia é uma grande dor de cabeça. Mas, o mistério sobre a hora em que o autocarro passa,permanece, durante estes anos todos, como o grande elemento desestabilizador da rotina das famílias. A verdade nua e crua é que, em pleno século XXI, a Ka-Tembe ainda é empurrada para uma espécie de idade da pedra no que a mobilidade diz respeito. E não sejamos ingénuos ou desonestos: isto não é um problema exclusivo do nosso distrito.
Em nenhuma parte deste país se usa o transporte público baseado em horários pontuais. De Maputo a Pemba, a nossa mobilidade urbana vive inteiramente refém do improviso, da sorte e da incerteza diária.
Enquanto noutras geografias os residentes planeiam as suas vidas com base em tabelas precisas – porque saíram do abandono de infra-estruturas, com estradas dignas, iluminação pública e rede de transportes funcional —, nós aqui ainda lutamos pelo elementar: ter transporte regular e vias transitáveis. Por isso, quando exigimos estas melhorias ao município, não estamos a pedir a invenção da roda, mas sim, o fim de uma precariedade crónica. O conhecimento em tempo real da localização dos transportes públicos não deveria depender da “carolice” de um grupo de WhatsApp; é uma funcionalidade básica. O que os residentes da Marinha e Chamissava fazem hoje, por puro instinto de sobrevivência face ao improviso nacional, é o que o poder público devia entregar por obrigação.
É aqui que entra a engenharia social dos munícipes. Ao se criar esta rede de sentinelas digitais, os residentes resgatam a previsibilidade das suas rotinas. “O machibombo já saiu da paragem X”, “está agora a passar pela zona Y”, “o Chapito já vem a caminho”. Estas mensagens curtas salvam trabalhadores de atrasos penalizadores e protegem estudantes de esperas intermináveis ao relento.
Nisto, é impossível ficar indiferente à beleza e à eficácia deste mecanismo. Trata-se de uma prova inequívoca de que, enquanto o município tarda em aumentar e modernizar a gestão de frotas, os cidadãos autogovernam-se. Recusam-se a assumir o papel passivo de vítimas do sistema e assumem-se como agentes activos de facilitação da sua própria existência.
Esta solidariedade em rede mostra que a Ka-Tembe já deu o salto mental rumo à modernidade, mesmo que as estradas continuem presas ao passado. Celebrar esta proatividade não é esquecer as carências que persistem; é reconhecer que o maior património deste distrito, e de forma particular destes bairros, é a capacidade de organização da sua própria gente. Se o poder público demonstrasse metade da eficiência, do foco e do civismo que estes dois grupos de WhatsApp partilham todos os dias, a nossa outra margem seria, sem dúvida, o melhor lugar para se viver em Maputo.



