Alguns estabelecimentos anunciam grandiosidade, outros apelam à fé, outros ainda fazem rir pela redundância. A “Alfaiataria Kamaheka” segue ´por um outro caminho. Ela segue o caminho da modéstia pragmática. Em xangana, “kamaheka” significa algo como “pode-se fazer”, “é exequível”. É uma promessa curta, mas carregada de sabedoria popular. É o que a antropologia chama de “bricolage”, a arte de desenrascar. É a nossa sina. Nós damos um jeito nas coisas porque fazer da forma normal é para fracos e perdedores. Dar jeito é o que está a dar. Deve vir daí a apetência pela “nyonga” porque não é normal que não seja possível fazer as coisas pela via normal.
Mas neste nome, a piada é imediata. Em vez de proclamar “a melhor costura da cidade” ou “moda internacional”, ou mesmo “moda da melhor marca de Moçambique”, proclamada recentemente, quae que por decreto paralelo, o alfaiate limita-se a garantir que a sua tarefa é possível. Se trouxer o pano, ele dá um jeito. É como se dissesse o seguinte: “não espere milagres, mas espere solução”. A sua propaganda não é exuberância, é viabilidade. Lembra algo que de vez em quando menciono. Dizem que nos tempos do “Far West”, lá nos “cowboys”, os saloons tinham um aviso onde o pianista tocava que dizia “não disparem contra o pianista, ele está a dar o seu melhor”. Essa imagem vem-me amiúde à mente quando observo os nossos sucessivos governos. No fundo, estão a dar o seu melhor. À sua maneira.
E, no entanto, há uma confiança implícita nessa modéstia. Quem já lidou com alfaiates sabe que muitas vezes a conversa começa com hesitação: “será que dá para apertar aqui?”, “será que consigo usar no casamento?”, “será que ainda se salva esta bainha?”. A resposta curta e seca, “kamaheka”, funciona como alívio. O cliente sai tranquilo porque confia que a obra será feita. Do ponto de vista social, o nome traduz a filosofia do improviso criativo que sustenta tantas práticas urbanas no nosso país. Onde faltam meios, sobra o engenho. O que parecia impossível, com tempo e jeito, “faz-se”. A alfaiataria assume, assim, o papel de oficina da esperança que entre linhas e tecidos torna o impossível, possível.
O humor também está no contraste com as grandes casas de moda que vendem sonhos importados. Enquanto elas exibem manequins em pose glamourosa, a “Kamaheka” ergue um letreiro que diz apenas, “calma, dá-se um jeito”. E é precisamente aí que mora a sua força, na honestidade pragmática que fala a língua do cliente. Há um condomínio em Xai-Xai. Quando passo por lá, cresce-me água na boca ao ver o amendoim, a mandioca e o milho que brotam dum terrenizinho que separa o muro do condomínio da estrada. O guarda decidiu fazer a sua machambazinha. Deu um jeito naquela situação. Guarda e produz. Recebe e colhe.
Há um certo sentido em que a “Alfaiataria Kamaheka” não vende só costura. Ela vende uma filosofia de vida. É isso mesmo. É aquele espírito moçambicano de enfrentar dificuldades com um sorriso resignado e uma confiança serena. Pode não ficar perfeito, mas “kamaheka”. A grande pena é que quem nos governa não pareça ter bebido da mesma fonte para também ter este espírito. Ou se o tem, usa-o de forma perversa. Quem está no poleiro, esquece que alguma vez esteve em baixo e começa a sentir a necessidade de explicar a todos nós o que não entendemos, mas também porque as coisas não podem estar melhor do que estão. Uma toda a sua energia na racionalização. Se fosse aquele guarda, mas sem o seu espírito, encontraria mil e uma razões para não semear nada ali.
Eu por vezes pergunto-me porque insistimos.





