Em xangana, “kurhula” significa “descansar”. Ao dar esse nome ao seu estabelecimento, o comerciante talvez quisesse transmitir tranquilidade. Aqui encontra-se carne em paz, vinda de um negócio sério, sem confusão. Mas não deixa de ser cómico imaginar um talho chamado justamente pelo verbo que descreve o que acontece ao animal depois do abate. Ele descansa… definitivamente. Isso até nem é verdade. O animal deu a sua alma ao Criador, mas a sua carne continua viva e só encontra o seu descanso final lá onde se despejam os detritos.
O humor salta à vista. Um talho é, por definição, o oposto do descanso. É lugar de facas, de movimento, de cortes. Chamar-lhe “Kurhula” é, ao mesmo tempo, um gesto de poesia e de ironia. Se o animal está morto, ao menos que descanse em paz. O letreiro transforma o balcão de carne em epitáfio. Lembra um pouco o hipocondríaco que deixou escrito o epitáfio “não disse que estava doente?” para ser erigido na sua campa. Mas há também uma dimensão cultural importante. A palavra não evoca apenas o descanso físico, mas um estado de paz e de sossego. Num contexto em que a vida é dura e o trabalho incessante, “Kurhula” é um valor. Quem entra no talho pode, por um instante, imaginar-se a levar para casa não só carne, mas também a promessa de serenidade, uma refeição calma, uma mesa sem sobressaltos. Na verdade, “kurhula” tem também esse significado. Não é só descansar. É estar em paz, na boa, na harmonia com a natureza, sem “mhakas”.
Esse nome joga, portanto, com dois mundos sociais diferentes. No primeiro, é quase uma piada involuntária sobre o animal que “descansa” depois de virar bife. No segundo, é um desejo sincero de paz para o cliente, para a família, para a comunidade. Entre a ironia e a esperança, o “Talho Kurhula” traduz bem a maneira moçambicana de nomear. Ela é simples, próxima e carregada de sentidos que se sobrepõem. Num mundo exterior de barulho, de chapas, de polícia de trânsito que quer ver a carta de condução e o documento de inspecção ou mesmo de marchas de saudação que acontecem em hora normal de expediente, entrar num sítio que anuncia a paz transforma o lugar num santuário. Mesmo que não seja.
E talvez haja ainda uma terceira camada. Ao usar a língua xangana, o comerciante reafirma pertença cultural. Em vez de adoptar um nome em português ou em inglês, como tantos outros fazem para evocar modernidade ou mostrar que são “chic”, ele inscreve o seu negócio no tecido local. É uma espécie de afirmação de identidade que diz que esta carne vem daqui, deste povo, desta língua, tipo a publicidade daquele banco ali, ou daquela cerveja ali. O nome usa a versatilidade do campo semântico desta língua bantu para evocar tudo o que a nossa imaginação nos permite convocar. E em certa medida, viver em comunidade é um pouco isso. Todos temos consciência de que a língua só recupera um bocadinho da complexidade do mundo. Mas quem aplica a língua com perspicácia, sempre vai conseguir obrigar o mundo a revelar um pouco mais de si.
No fundo, o “Talho Kurhula” é ao mesmo tempo epitáfio, promessa e manifesto cultural. O cliente ri, mas também entende que, mesmo na dureza do abate, há espaço para desejar paz. Não é o que temos estado a fazer uns aos outros desde que nos declaramos independentes? Os milhares de moçambicanos que pereceram no terror revolucionário de 75, na guerra dos 16 anos, nas constantes escaramuças que fazem a nossa política, na violência armada de Cabo Delgado e, claro, nas manifestações que poderiam ter tornado desnecessária a criação dum partido para nos fazer livres e autónomos, foram vítimas de quem? De nós mesmo e de mais ninguém. Não sei se alguém já apurou as estatísticas, mas algo me diz que moçambicanos mataram mais moçambicanos do que todos os estrangeiros juntos.
Algo me diz, digo bem. Posso estar equivocado.
Moçambicano é o pior inimigo de si próprio.




