Continuo aqui a reflexão iniciada sobre a sociologia do nosso quotidiano por via dos nomes de estabelecimentos comerciais. Se há nomes que nos fazem sorrir pela ironia involuntária, “Talho Carne Fresca” merece um lugar de honra. E se a ideia me tivesse ocorrido há mais tempo, teria sugerido que fosse incluído na lista de condecorações pelos 50 anos da independência nacional. O comerciante anuncia com firmeza aquilo que, em princípio, deveria ser garantido, isto é, que a carne seja fresca. Mas se precisa de dizer isso, é porque paira no ar a suspeita contrária, o que não surpreende, pois gato por lebre faz parte daquilo com que é preciso contar em Moçambique.
De certo modo, todo o nome de loja é uma promessa. Uma pastelaria chamada “Doce sabor” promete doçura. Uma farmácia chamada “Esperança” promete saúde. E um talho chamado “Carne Fresca” promete, bom… que a carne não esteja a cheirar mal. A simplicidade da escolha pode parecer ridícula, mas ela carrega uma sabedoria prática, nomeadamente que, no mercado popular, o que é básico precisa de ser reafirmado. Suponho que na política também seja assim. Há quem anuncie o que a independência promete, nomeadamente um país livre e autónomo, o que me leva a perguntar se no dia em que achar que o país é de facto isso tudo vai deixar de ter razão de existência.
Mas é isso mesmo. O humor nasce da redundância. É como se um banco se chamasse “Dinheiro seguro” ou uma escola “Ensino com professores”. Claro que a carne deve ser fresca! Mas ao dizê-lo no letreiro, o comerciante joga com a ansiedade do consumidor. Se todos vendem carne, por que escolher este talho? Porque aqui, garante-se, a carne é fresca. Se todos querem o bem de Moçambique, porque escolher este partido? Porque este torna o país livre e autónomo, porque este torna-o democrático, porque este resiste e porque este é uma frente, de quê, ninguém sabe mais.
Por detrás do riso, há um retrato das condições de vida. O nome mostra que o comerciante conhece bem o contexto. No calor, sem refrigeração adequada, carne fresca é, sim, um bem escasso. O letreiro, portanto, é mais do que um golpe de marketing. É um compromisso público. Não é o selo do Ministério da Saúde – “o nosso maior valor é a vida”, mas você entra no hospital ou no centro de saúde por risco próprio – que atesta a qualidade, é a palavra pintada em letras grandes. Não é diferente de como na política usamos palavras sem nenhum compromisso com o seu significado. Democracia, transparência, boa governação, povo no poder, etc., tudo – ou uma grande parte, fala sem consequência de espertinhos que descobriram um filão de ouro no subterfúgio de que trabalham para o bem público.
Há ainda uma astúcia sociológica nesta escolha. O comerciante não reivindica “glamour”, nem se refugia em promessas vagas de felicidade. Ele vai directo ao assunto. Carne e frescura, só mais nada. A sua clientela não procura símbolos de “status”, mas confiança no essencial. Enquanto escrevia o texto, pensava na redundância da promessa. Mas depois veio-me à cabeça a ideia de que tudo, no fundo, é redundante. O que não é redundante na nossa vida? Aliás, mesmo nós próprios somos redundantes num país que parece ter desistido de nós. Num país onde milhões acordam e vão à cama sem nenhuma certeza de que vão comer o suficiente, mas dirigidos por gente que tem acesso ao que há de melhor na vida noutros países onde aquela máxima da Frelimo gloriosa encontra aplicação visível: o dirigente é o primeiro no sacrifício e último no benefício.
No fim, o “Talho Carne Fresca” não vende apenas carne. Ele vende a tranquilidade de quem acredita ter encontrado uma ilha de confiança no meio da precariedade. E isso, convenhamos, é frescura no melhor sentido da palavra.
Este país não é para fracos.





