Há nomes de estabelecimentos comerciais que são verdadeiros poemas da vida quotidiana. Passamos diante deles apressados, mas se pararmos para pensar, descobrimos um retrato da alma popular, com as suas esperanças e ironias. Se calhar até com as suas contradições. Tenho sempre prestado uma atenção especial a alguns detalhes do nosso quotidiano. Um deles é o nome que as pessoas dão aos seus empreendimentos comerciais. A minha impressão é que esses nomes são mais do que isso. São uma porta de entrada para uma sociologia do quotidiano da nossa terra. Um desses nomes que recentemente me chamou a atenção é o “Talho Suor do Trabalho”. Não vou dizer onde está para não fazer publicidade não paga.
À primeira vista, é um nome que inspira respeito. Num país onde o discurso do “trabalho árduo” continua a ser moeda corrente, o dono do talho faz questão de inscrever a sua actividade no registo da dignidade. A carne que ele vende não caiu do céu, não veio de nenhum privilégio escondido, nem veio da luta armada de libertação nacional, hoje um dos principais recursos para viver à custa de nós, mas sim do suor, do esforço e do trabalho honesto onde reina a “nhonga”. Cada bife e cada costeleta carrega consigo a legitimidade de quem lutou para pôr comida na mesa dos outros, ou pelo menos para proporcionar a quem tem dinheiro a oportunidade de ter comida na sua mesa.
Os nomes estão cheios de humor e ele, portanto, o humor, entra justamente aqui. Porque se o “suor do trabalho” é símbolo de dignidade, ele também é, literalmente, suor. E suor, convenhamos, não é o que queremos imaginar quando pensamos em carne fresca. A escolha do nome cria, involuntariamente, um curto-circuito de sentidos. Por um lado, a exaltação moral do esforço humano, mas, por outro, a imagem higienicamente comprometedora de um talho onde o suor escorre para o balcão e, se calhar, banha a própria carne. Entre a ética e a higiene, parece que o dono do estabelecimento ficou com a primeira e mandou passear a segunda. É corajoso.
Há uma ternura nessa contradição. O comerciante sabe que, numa economia difícil, o cliente talvez desconfie da origem da mercadoria. Pode haver aí a sugestão de algo parecido com “Xibutxana” e aquele rumor de carne de cão que tem circulado por aí. Então o comerciante antecipa a crítica e responde com uma afirmação. Ele diz que ali se vende o produto do trabalho honesto. A transparência não é no vidro da montra, mas no nome pregado à porta. E se o cliente sorrir com a ironia, tanto melhor. Aí fica estabelecida uma relação de proximidade, como se o talho fosse não apenas um lugar de compra, mas também de cumplicidade social. Esta cumplicidade é a cola que faz a coesão duma sociedade. Ela é o adesivo que os moçambicanos, no meio do “progresso” ausente festejado pela Frelimo na passagem dos seis meses da nova presidência, aplicam para terem credulidade suficiente.
O “Talho Suor do Trabalho” revela, no fundo, uma sabedoria do quotidiano. É a sabedoria que diz que os pequenos negócios não se limitam a vender produtos, tipo cartões de recarga, rebuçados, etc. Eles vendem também uma narrativa e, talvez, até uma identidade. Eles produzem um mundo social, neste caso, o do mundo do trabalhador que ergue a cabeça e proclama que, entre suor e carne, há honestidade suficiente para alimentar uma família inteira. Esta narrativa derrota, pelo menos em mim, qualquer ideia de desespero na capacidade que existe entre nós de darmos a volta às coisas e mostrarmos as “nádegas da cobra” à adversidade.
No riso que o nome provoca, percebemos que o humor é uma forma de resistência. Num texto escrito por um cientista social, sempre que possível é importante incluir o termo “resistência”. É com humor que se afirma a dignidade em contextos de precariedade. É com humor que se responde à desconfiança dos clientes. E é com humor que se reconcilia a vida dura com a criatividade popular. No fim, quem entra no “Talho Suor do Trabalho” não compra apenas carne. Compra também uma fatia do imaginário moçambicano, onde a seriedade e a ironia se dão as mãos.
Anima ser moçambicano.





