Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

3 de September, 2025

O Talho Suor do Trabalho

Escrito por

Há nomes de estabelecimentos comerciais que são verdadeiros poemas da vida quotidiana. Passamos diante deles apressados, mas se pararmos para pensar, descobrimos um retrato da alma popular, com as suas esperanças e ironias. Se calhar até com as suas contradições. Tenho sempre prestado uma atenção especial a alguns detalhes do nosso quotidiano. Um deles é o nome que as pessoas dão aos seus empreendimentos comerciais. A minha impressão é que esses nomes são mais do que isso. São uma porta de entrada para uma sociologia do quotidiano da nossa terra. Um desses nomes que recentemente me chamou a atenção é o “Talho Suor do Trabalho”. Não vou dizer onde está para não fazer publicidade não paga.

À primeira vista, é um nome que inspira respeito. Num país onde o discurso do “trabalho árduo” continua a ser moeda corrente, o dono do talho faz questão de inscrever a sua actividade no registo da dignidade. A carne que ele vende não caiu do céu, não veio de nenhum privilégio escondido, nem veio da luta armada de libertação nacional, hoje um dos principais recursos para viver à custa de nós, mas sim do suor, do esforço e do trabalho honesto onde reina a “nhonga”. Cada bife e cada costeleta carrega consigo a legitimidade de quem lutou para pôr comida na mesa dos outros, ou pelo menos para proporcionar a quem tem dinheiro a oportunidade de ter comida na sua mesa.

Os nomes estão cheios de humor e ele, portanto, o humor, entra justamente aqui. Porque se o “suor do trabalho” é símbolo de dignidade, ele também é, literalmente, suor. E suor, convenhamos, não é o que queremos imaginar quando pensamos em carne fresca. A escolha do nome cria, involuntariamente, um curto-circuito de sentidos. Por um lado, a exaltação moral do esforço humano, mas, por outro, a imagem higienicamente comprometedora de um talho onde o suor escorre para o balcão e, se calhar, banha a própria carne. Entre a ética e a higiene, parece que o dono do estabelecimento ficou com a primeira e mandou passear a segunda. É corajoso.

Há uma ternura nessa contradição. O comerciante sabe que, numa economia difícil, o cliente talvez desconfie da origem da mercadoria. Pode haver aí a sugestão de algo parecido com “Xibutxana” e aquele rumor de carne de cão que tem circulado por aí. Então o comerciante antecipa a crítica e responde com uma afirmação. Ele diz que ali se vende o produto do trabalho honesto. A transparência não é no vidro da montra, mas no nome pregado à porta. E se o cliente sorrir com a ironia, tanto melhor. Aí fica estabelecida uma relação de proximidade, como se o talho fosse não apenas um lugar de compra, mas também de cumplicidade social. Esta cumplicidade é a cola que faz a coesão duma sociedade. Ela é o adesivo que os moçambicanos, no meio do “progresso” ausente festejado pela Frelimo na passagem dos seis meses da nova presidência, aplicam para terem credulidade suficiente.

O “Talho Suor do Trabalho” revela, no fundo, uma sabedoria do quotidiano. É a sabedoria que diz que os pequenos negócios não se limitam a vender produtos, tipo cartões de recarga, rebuçados, etc. Eles vendem também uma narrativa e, talvez, até uma identidade. Eles produzem um mundo social, neste caso, o do mundo do trabalhador que ergue a cabeça e proclama que, entre suor e carne, há honestidade suficiente para alimentar uma família inteira. Esta narrativa derrota, pelo menos em mim, qualquer ideia de desespero na capacidade que existe entre nós de darmos a volta às coisas e mostrarmos as “nádegas da cobra” à adversidade.

No riso que o nome provoca, percebemos que o humor é uma forma de resistência. Num texto escrito por um cientista social, sempre que possível é importante incluir o termo “resistência”. É com humor que se afirma a dignidade em contextos de precariedade. É com humor que se responde à desconfiança dos clientes. E é com humor que se reconcilia a vida dura com a criatividade popular. No fim, quem entra no “Talho Suor do Trabalho” não compra apenas carne. Compra também uma fatia do imaginário moçambicano, onde a seriedade e a ironia se dão as mãos.

Anima ser moçambicano.

 

Visited 18 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 78 vezes