Epílogo: Isaura na Consciência
Havia uma menina no conto. O conto era sobre rapazes e um cão, o cão tinhoso, magro, doente, excluído. Mas havia também uma menina. Chamada Isaura. Ela não disse nada. Apenas apareceu, discreta, de tranças e vestido limpo, no exacto momento em que os rapazes se preparavam para matar o cão. A sua presença perturbou. Não porque ameaçasse. Mas porque mostrava que havia outra forma de estar. Uma forma que não precisava de gritar, de bater, de dominar. Isaura não pertencia à lógica da violência. E foi precisamente isso que a tornou insuportável.
Quando os rapazes mataram o cão tinhoso, mataram também a possibilidade de outro mundo.
O mundo onde Isaura poderia ser levada a sério. O mundo onde a diferença não causava medo. O mundo onde se podia ser criança sem precisar provar virilidade. Onde se podia ser africano sem precisar negar a ternura, a dúvida, a escuta. Isaura foi deixada de lado. A história seguiu sem ela.
Moçambique também teve a sua Isaura. Era o sonho de um país aberto, plural, humilde na sua força e generoso na sua dor. Um país onde a tradição e a modernidade conversavam, sem se esmagar. Onde a independência não significava apenas soberania, mas também imaginação política.
Esse sonho apareceu em muitos lugares: Na lucidez de Eduardo Mondlane, que queria uma pátria construída com ideias e respeito. Na dignidade de Joana Simeão, que acreditava num Moçambique capaz de abrigar vozes diferentes. E apareceu também em pequenos gestos, em aldeias e cidades, nos corpos anónimos que recusaram o ódio como destino.
Mas esse sonho foi descartado. Escolheu-se a força. Escolheu-se a certeza. Escolheu-se uma história única, com heróis perfeitos e inimigos absolutos. Como os rapazes do conto, matámos o que era incerto. Matámos a dúvida, a ambiguidade, a delicadeza, tudo o que a Isaura representava.
Hoje vivemos num país onde a liberdade existe… mas desconfia de si mesma. Onde a cidadania ainda é temida. Onde o poder teme a crítica como se fosse traição. Onde a política raramente se pensa como criação de condições para governar com os outros e não sobre os outros.
Mas Isaura continua entre nós. Na consciência dos que sabem que criticar é assumir. Nos jovens que já não aceitam a linguagem da arrogância. Nos que percebem que construir Moçambique é também recuperar o que deixámos para trás.
Isaura não morreu. Ela ficou. Esperando que os filhos do país, um dia, a convidem a falar. Porque talvez, só talvez, seja na voz dela que o futuro de Moçambique encontre finalmente a coragem de ser mais do que passado.





