Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

29 de July, 2025

A História d’A História da Independência para os mais novos

Escrito por

Capítulo 3: Quando o Sofrimento Une

Desta vez, não houve vela. Maria Tondhosa levantou-se devagar, sentou-se numa esteira redonda no chão e fechou os olhos. Um vento fino entrou pela janela, embora lá fora não houvesse brisa. Os três jovens aproximaram-se em silêncio. E então, como se o ar se tornasse mais denso, Mpoyombo falou.

— O que mantém um povo unido? A língua? O sangue? O território? Não. Às vezes, é o sofrimento partilhado.

Judite franziu a testa.

— Sofrimento? Como é que o sofrimento pode unir?

— Porque quando a dor é a mesma, os gritos deixam de ter cor. Quando os chicotes batem igual, não se pergunta de que etnia és.

Celso apertou os punhos.

— Está a falar da guerra?

— Ainda não. Estou a falar do tempo em que os africanos eram tratados como sombras dentro das suas próprias casas. Quando um homem negro podia ser preso por andar na calçada. Quando uma mulher negra precisava de autorização para vender mandioca no mercado. Estou a falar do colonialismo.

— E como é que começou a resistência? — perguntou Samira, sem desviar o olhar.

— Começou onde sempre começa: no coração de quem não se conforma. E no pensamento de quem vê mais longe. Um desses foi Eduardo Mondlane. O nome ficou suspenso no ar, como um sino que ainda ecoa.

— Mondlane? O da FRELIMO? — perguntou Celso.

— Sim. Filho de chefes, estudante em terras estrangeiras, professor de sonhos. Ele viu que Moçambique não era um povo, era muitos povos que sofriam a mesma humilhação. E soube que só se tornariam nação se tivessem uma luta comum.

Judite coçou a cabeça, desconfiada:

— Mas isso não é perigoso? Juntar pessoas tão diferentes só porque estão a sofrer?

— É perigoso. Mas às vezes o perigo é a única saída. Mondlane dizia: “Moçambique não é uma essência, é um projecto. Um sonho construído no fogo da injustiça.”

— Mas os portugueses não aceitavam isso, pois não? — Samira queria saber.

— Não. Tinham outra ideia: diziam que Moçambique era parte de Portugal. Chamavam-lhe província ultramarina. E diziam que os africanos podiam “ser como os brancos”… mas só se deixassem de ser quem eram.

— Isso era o quê? — perguntou Celso.

Assimilação. Um processo cruel. O africano, para ser aceite como “cidadão”, tinha de aprender português, mudar o nome, abandonar os ritos, vestir-se como europeu, rezar como europeu… e renunciar à sua africanidade.

Judite exclamou:

— Então era como escolher entre ser livre… e deixar de ser tu?

— Sim. Um preço alto. Que muitos recusaram pagar.

Samira falava mais baixo:

— E quem aceitava? Eram traidores?

— Não. Era gente ferida. Gente que queria sobreviver. Muitos tornaram-se funcionários, professores, militares. Alguns até ajudaram depois na luta. Mas todos pagaram um preço. A alma deles ficou dividida.

O silêncio que se seguiu foi denso como lama depois da chuva.

— Por isso é que a luta foi feita com tanta força. Não era só por terra. Era por dignidade.

Celso assentiu com firmeza.

— O meu avô dizia que, quando se começou a luta armada, já não havia volta.

— E não havia mesmo. Mas a luta não foi só feita com armas. Foi feita com palavras, com escolas secretas, com cartas escondidas nos sapatos. E foi também feita com amor, amor ao povo, amor ao futuro.

— E amor à ideia de Moçambique? — perguntou Samira.

— Justamente. Porque Moçambique ainda não existia como país. Era uma esperança, alimentada pela certeza de que ninguém nasce para ser mandado a vida toda.

Maria Tondhosa abriu os olhos. Estavam húmidos. Pela primeira vez, pareceu… cansada.

— A luta uniu. Mas toda a união feita no sofrimento traz feridas que o tempo não cura facilmente. E, às vezes, o pior começa quando o inimigo de fora desaparece… e os fantasmas ficam dentro.

Mpoyombo fez uma pausa. A sala parecia respirar com ele.

— Mas nem tudo na luta foi sofrimento. Houve também luzes que mostraram o caminho. E uma dessas luzes chamava-se Eduardo Mondlane.

— Já falou dele — disse Celso. — Um dos principais fundadores da FRELIMO.

— Sim. Mas não contei ainda tudo o que ele foi.

A voz do espírito tornou-se mais firme, quase orgulhosa:

— Mondlane foi o que o colonialismo dizia que não podia existir: um negro instruído, viajado, culto, mas profundamente africano. Ele estudou nas melhores universidades, da África do Sul aos Estados Unidos, e podia ter escolhido uma vida cómoda. Mas escolheu voltar. Escolheu lutar. E o mais importante: escolheu pensar.

Judite franziu o sobrolho:

— Como assim “pensar”?

— Pensar que o africano era capaz de mais. Que não tinha nascido para obedecer, nem para imitar. Que podia governar, criar universidades, escrever livros, definir o seu destino. Mondlane provou que uma pessoa negra podia não só pegar em armas, mas pegar em ideias.
E foi isso que o tornou tão perigoso para o regime colonial.

— Foi por isso que o mataram? — perguntou Samira, baixinho.

— Sim. Com uma carta armadilhada, enviada para o seu escritório. A mão que a enviou ainda é mistério. Mas o medo que ela denunciava era claro: medo de uma pessoa negra que não pedia desculpa por pensar alto.

Celso olhou para o chão, depois levantou a cabeça.

— O meu avô disse que o Mondlane era calmo, mas não era fraco. Que ele tratava toda a gente com respeito, até quem discordava dele.

— E é por isso que, ainda hoje, o nome dele é ponte, não muralha.

Mpoyombo falou mais devagar:

— Se quiserem lembrar-se dele, não o façam como mártir. Façam-no como exemplo. De que o pensamento também é arma. De que o saber não é trair a origem. De que se pode sonhar com um país. E não ter vergonha disso.

A luz da tarde caía pelas janelas. Maria Tondhosa abriu os olhos, muito devagar.

Samira fechou o caderno e escreveu na última linha:

Eduardo Mondlane, o negro que provou que éramos capazes de mais.

 

Visited 32 times, 1 visit(s) today

Sir Motors

Ler 126 vezes