Capítulo 2: A Queda do Último Grito
Por Elísio Macamo
Quando a vela se reacendeu sozinha, como se o próprio espírito soprasse de volta a luz, os três jovens entreolharam-se, inquietos. Mpoyombo voltou a falar:
— Houve um tempo em que o sul tremia ao som dos tambores do Império de Gaza. Não era apenas medo. Era também ordem. Era lei, era aliança, era domínio.
Celso esticou o pescoço, curioso.
— Mas o meu avô dizia que Gungunhana era um rei justo.
— Justo com quem? — devolveu o espírito, sem pressa. — Com os seus? Com os que obedeciam? Com os que resistiam?
Judite interveio, rápida:
— Ele combatia os portugueses, não combatia?
— No início, sim. Mas fez pactos também. Recebeu embaixadas. Vestiu roupas vindas da Europa.
Mandou construir palácios com janelas de vidro. Quis modernizar-se, mas sem perder o controlo.
— Então era esperto — comentou Samira.
— Era esperto… e orgulhoso. Mas o mundo estava a mudar depressa demais. Quando os portugueses decidiram acabar com o império, ele já não tinha para onde fugir.
— Mas ele foi preso, não foi? — insistiu Celso.
— Foi traído. Em Chaimite. Levaram-no num comboio, depois num navio. Morreria longe da sua terra, de olhos postos num mar que nunca o devolveu.
Samira anotava no seu caderno:
— Chaimite. Gungunhana. Levaram o rei e ficaram com a terra.
— Ficaram com a terra e apagaram os nomes. Fundaram cidades novas com nomes seus. Dividiram as terras com régua e esquadro, como se o mundo fosse um papel. E passaram a chamar a tudo isso… Moçambique.
Judite, sempre desconfiada, estreitou os olhos:
— Mas isso quer dizer que Moçambique é uma invenção dos colonos?
O espírito não respondeu logo. A sala parecia esperar com ele.
— Moçambique foi uma resposta africana a uma pergunta colonial. Um nome estrangeiro, sim, mas que se tornou nosso pela dor, pela recusa, pela adaptação.
— E antes? — perguntou Samira. — O que havia antes?
— Havia povos. Havia terras. Havia reinos. Mas não havia Moçambique. A unidade viria depois. Como uma memória que ainda estava por acontecer.
A vela vacilou.
— A história não começa num ponto. Ela começa onde nos dispomos a escutar.
E com isso, Maria Tondhosa inclinou a cabeça. O espírito adormecera.





