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24 de June, 2025

A História d’A História da Independência para os mais novos

Escrito por

Prólogo: Onde Começa a História

Havia uma casa perto do fim da rua. Não era bem uma casa. Era um resto de casa. Tinha paredes tortas e uma varanda que mais parecia suspensa pela força da vontade. Mas nela vivia uma mulher que todos chamavam de Maria Tondhosa, embora ninguém soubesse se esse era mesmo o seu nome.

Dizia-se que tinha vindo do centro do país, montada num machimbombo que se avariou três vezes antes de chegar. Trazia duas esteiras, uma mala de madeira fechada com cadeado e um cesto de milho seco. Algumas mulheres juravam que ela falava sozinha quando regava as plantas. Outras diziam que ela sabia coisas que ninguém lhe contava.

Na escola, os colegas da Samira, da Judite e do Celso falavam dela como quem fala de assombrações, com medo e com fascínio. Mas os três não acreditavam em histórias de terror. Ou, pelo menos, não admitiam acreditar.

Foi numa tarde sem pressa, durante as férias, que a curiosidade venceu o medo.
— Vamos só ver — disse Judite. — Se ela for mesmo perigosa, fugimos.

A porta estava aberta. O cheiro era de folhas secas, fumo e algo mais difícil de nomear. Na parede, uma fotografia antiga de um homem com lança e capulana os observava.

— Entrem — disse uma voz sem levantar o tom.
Ela estava sentada ao fundo, junto de uma vela acesa.
— Já estavam atrasados. Ele já esperava.

— Ele quem? — perguntou Celso, tentando parecer mais valente do que se sentia.
— O que sabe antes da memória. O que fala quando o silêncio não basta.
— Como é que se chama? — quis saber Samira.
Mpoyombo, o espírito do tempo que já passou, mas que nunca acabou.

A vela estremeceu. Maria Tondhosa inclinou-se para trás, fechou os olhos e, pela primeira vez, a história começou a falar. Mas quem é esta Maria Tondhosa?

Nem tudo o que parece estranho é novo. E nem tudo o que é velho é passado. Maria Tondhosa não era uma mulher comum. Não no sentido de ser poderosa, mas no sentido de ser um canal,  uma passagem entre o que já foi e o que ainda pode ser. Ela não dizia isso. Apenas varria o quintal, fervia folhas e escutava as árvores. Mas havia noites em que o seu corpo tremia, e uma voz surgia que não era dela. Nessa voz, falava Mpoyombo.

Mpoyombo não era um fantasma qualquer. Era o espírito de um guerreiro tombado durante os últimos dias do Império de Gaza, quando Gungunhana se preparava para resistir, ou render-se. Mpoyombo pertencia ao clã Nhlavi, um grupo antigo e orgulhoso de guerreiros que habitava zonas áridas, onde o chão rachava sob os pés e a chuva só vinha quando chamada com cânticos certos.

Os Nhlavi eram formados por quatro linhagens: Zitha, Mabunda, Makamu e Masvanganyi. Eram conhecidos por três coisas: Ficarem dias sem beber água, como se o próprio corpo soubesse poupar-se. Saberem onde os embondeiros escondiam água no tronco, e como extrair dela só o necessário. Lutarem sem medo, mesmo quando o medo era tudo o que havia.

Diziam que Mpoyombo caiu com os olhos abertos, como quem ainda procurava o futuro.
O seu corpo nunca foi enterrado; foi ocultado pelo tempo. Mas o seu espírito, teimoso como era, recusou-se a partir. Vagou pelas dunas, pelos rios, pelas bocas que não podiam contar a história. Até encontrar uma mulher do centro do país, com sangue misto e olhos escuros como a terra molhada. E foi nela que entrou.

Desde então, Maria Tondhosa carrega o peso e a dádiva de uma memória que não é sua.
Ela fala com a voz de quem viu os reinos crescerem e caírem, de quem cheirou a pólvora e o sal, de quem sabia que Moçambique não nasceu pronto, nasceu partido, e depois foi sendo costurado com linhas invisíveis.

É por isso que, quando Maria Tondhosa fala, a própria história se cala para escutar.

Capítulo 1: Antes de Haver Moçambique

A voz não vinha da boca de Maria Tondhosa. Vinha de outro lugar. Era como se a sala toda tivesse falado, as paredes, o chão, o vento que entrava pela fresta.

— Antes de Moçambique ser Moçambique, já havia gente a viver, a sonhar, a lutar por terra, por água, por poder e por sentido.

Samira apertou o caderno. Judite ficou imóvel. Celso deu um passo à frente.

— Havia reis? — perguntou.

— Havia chefes, senhores de terra e homens de guerra. Havia alianças e traições. Havia vizinhos, e havia estrangeiros que vinham de longe, navegando as marés e o medo.

— Como se chamava este lugar? — quis saber Judite.

— Chamava-se como o vento do momento o batizava. Não havia um só nome. Havia muitos nomes – Ndwandwe, Chopi, Tsonga, Sena, Manyika – nomes de gente, de rios, de alianças. Moçambique ainda era futuro.

— Então Moçambique é como um nome que veio depois? — perguntou Samira, já com uma frase a formar-se na cabeça.

— Como um nome colado sobre outros nomes, sem apagá-los por completo.

O espírito fez silêncio. Foi Celso quem quebrou:

— E o Império de Gaza? O meu avô dizia que era o verdadeiro início.

— O Império de Gaza foi uma tentativa. Uma linha traçada com espada e palavras, vinda do interior para o sul. Foi um grito de poder africano num tempo em que o mundo já sussurrava em línguas estrangeiras.

Judite levantou a sobrancelha:

— Foi uma resistência? Ou foi mais uma conquista?

Maria Tondhosa suspirou. Era como se o espírito, por um instante, lhe devolvesse o corpo.

— Foi as duas coisas. Foi conquista de uns sobre outros — e depois resistência contra os que vinham do mar com cruzes e canhões.

— Mas então… Moçambique não nasceu com Gungunhana? — insistiu Celso.

— Gungunhana foi o fim de um sonho e o início de uma pergunta. Quando ele caiu, a ideia de que se podia construir uma ordem africana própria também caiu. E o que veio depois… não era ainda Moçambique. Era colónia. Era província ultramarina. Era um nome estrangeiro colado na boca de gente que falava outras línguas.

Samira rabiscava no caderno:

— Então Moçambique foi sendo inventado?

— Sim. Como um pano cosido com fios de guerras, migrações, pactos e perdas. A terra estava aqui. Mas o nome… o nome ainda era uma promessa.

E a vela apagou-se por si só.

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