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6 de November, 2026

SANGARE OKAPI: Devolver o prémio ao gueto!

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A conversa começa sem a rigidez de uma entrevista convencional. Há perguntas, evidentemente, mas depressa percebemos que não será o questionário a determinar o caminho. Sangare Okapi responde, interrompe-se, retoma uma ideia, abre outra porta. Uma palavra chama uma memória; a memória convoca o pai, a literatura, os amigos, o país. O assunto inicial perde a exclusividade e a conversa ganha vida própria.

 Escrito por: Reinaldo Luís

São dez horas de domingo. Nas Mahotas, a vida do bairro segue o seu curso: há futebol, preces, cânticos religiosos, música, álcool e petiscos. Diferentes sons e rotinas disputam o espaço, compondo a paisagem habitual da periferia de Maputo.

Sangare Okapi está em casa, no lugar a que chama “gueto”. Está sem o gorro habitual, um dos elementos mais reconhecíveis da sua imagem pública. Bebe cerveja, fuma um cigarro e, por vezes, interrompe a conversa para cumprimentar um vizinho ou alguém que passa pela rua.

A conversa começa sem a rigidez de uma entrevista convencional. Há perguntas, evidentemente, mas depressa percebemos que não será o questionário a determinar o caminho. Sangare Okapi responde, interrompe-se, retoma uma ideia, abre outra porta. Uma palavra chama uma memória; a memória convoca o pai, a literatura, os amigos, o país. O assunto inicial perde a exclusividade e a conversa ganha vida própria.

O gueto não é apenas uma localização no mapa de Maputo. É o lugar das relações, das vozes que lhe chegam sem convite, das histórias que se acumulam e das contradições que alimentam a escrita. De um lado, o mundo que nem sempre compreende as suas loucuras; do outro, o território de onde vêm muitas das suas referências, dos seus afectos e das suas inquietações. Sangare está ali, entre os dois, sem dar sinais de que pretenda escolher um deles.

O que muda quando um poeta, habituado a escrever e a insistir no seu trabalho, passa a ser também o homem dos 400 mil meticais? O que é que os outros passam a esperar dele? E o que espera ele próprio de uma distinção que chega depois de duas décadas de escrita?

Uma resposta parece ter chegado ao fim, mas ainda lhe falta qualquer coisa. O poeta volta atrás. Acrescenta. Corrige o caminho. Não se trata necessariamente de fugir à pergunta; talvez seja antes a maneira de chegar ao que realmente lhe interessa. O pensamento não avança em linha recta. Vai pelas ruas que conhece.

“Eu já não fico zangado”, diz, animado, como quem tenta uma penitência. Acende mais um cigarro, tentando disfarçar a ironia que se derrama pelas palavras. Tomo nota do gesto, da força que imprime na fala, da indignação que dispensa explicações.

Ninguém o recebe com uma ovação, mas ele acaba de receber o Prémio Literário Mia Couto, pela obra “Utse”, uma distinção acompanhada de 400 mil meticais. É também por isso que lhe interrompemos o domingo: para conversar sobre o prémio, mas, sobretudo, sobre o que pretende fazer com ele.

O prémio já fez o seu caminho, circulou nos anúncios e chegou aos ouvidos de quem acompanha a literatura moçambicana. Aqui, nas Mahotas, interessa saber o que acontece depois dos aplausos. O que muda quando um poeta, habituado a escrever e a insistir no seu trabalho, passa a ser também o homem dos 400 mil meticais? O que é que os outros passam a esperar dele? E o que espera ele próprio de uma distinção que chega depois de duas décadas de escrita?

Seria natural começar pela surpresa, pela satisfação de ver reconhecido um trabalho desenvolvido ao longo de 20 anos. Sangare não recusa a importância da distinção, mas também não parece disposto a permanecer muito tempo no lugar confortável do laureado. Há outras contas a fazer. A literatura, a responsabilidade de quem escreve, o destino dos livros, a escassez de leitores, a condição dos artistas e a comunidade onde escolheu viver entram na conversa sem pedir licença. O prémio está sobre a mesa; o gueto, porém, não fica à porta.

A primeira questão acaba por ser a dos prémios. Quem decide o valor de uma obra? Que critérios sustentam o reconhecimento? E até que ponto uma distinção permite dizer que este poeta é melhor do que aquele, ou que determinado livro merece mais atenção do que os outros?

Observo. Ele fala de memória, de dor, de ausência. O bairro, quente, parece uma maquete frágil, respirando devagar. Sangare não aceita respostas demasiado simples. “Um concurso tem regras, um júri, critérios de avaliação e um resultado”, diz ele, mas, entre o livro que se escreve e aquele que acaba por ser distinguido, há sempre uma margem que o veredicto não consegue eliminar.

A conversa passa pelos prémios internacionais, pelas campanhas nas redes sociais, pelas afinidades e pelas relações que também interferem na maneira como as pessoas se avaliam. Mas ele continua a falar sem a preocupação de construir uma declaração diplomática. Não parece querer transformar a conversa num ajuste de contas, nem fazer da sua experiência uma queixa prolongada. A certa altura, resume a posição numa frase curta: “Eu disse, já não fico zangado”.

Mas, justifica, não supõe que tenha deixado de reparar no que se passa à sua volta. Significa, antes, que tenha aprendido a não entregar aos prémios o poder de determinar a sua relação com a escrita. O reconhecimento tem os seus mecanismos, os seus contextos e as suas circunstâncias. As afinidades contam, sugere o poeta, e nem sempre a avaliação de uma obra se esgota nos seus méritos literários.

Ou seja, “um prémio pode abrir portas, trazer leitores e colocar um nome em circulação. Não pode, por si só, encerrar a discussão sobre o valor de quem escreve”, afirma. 

“Eu sonho em ser o maior poeta”, diz. A frase chega com a dimensão de uma provocação. Não é uma declaração que se possa deixar passar sem perguntar o que significa. Maior perante quem? Segundo que medida? E o que faz um poeta para chegar a esse lugar?

É uma distinção importante, sobretudo agora que o próprio Sangare acaba de receber um dos prémios literários mais conhecidos do país. Não há contradição necessária entre aceitar o reconhecimento e desconfiar da capacidade dos concursos para medir a literatura. Ganhar não significa passar a acreditar em tudo aquilo de que antes se duvidava. E perder, do mesmo modo, não torna uma obra menor.

Mas o assunto não permanece muito tempo nesse terreno. Há qualquer coisa na maneira como Sangare fala que nos leva a outra questão: a necessidade de encontrar uma voz própria. O objecto deixa de ser apenas quem recebe os prémios e passa a ser o que cada escritor faz para merecer, perante si mesmo, o lugar que procura ocupar.

E para ele é simples: “Eu sonho em ser o maior poeta”, diz. A frase chega com a dimensão de uma provocação. Não é uma declaração que se possa deixar passar sem perguntar o que significa. Maior perante quem? Segundo que medida? E o que faz um poeta para chegar a esse lugar?

Há humor na maneira como apresenta a ambição, mas não se trata apenas de brincar com a ideia de grandeza. Por detrás da frase está a exigência de não se contentar com o que já fez, de procurar outras soluções e de não escrever indefinidamente dentro de uma forma que deixou de o desafiar. A ambição, assim entendida, não dispensa o trabalho. Obriga-o.

Para o poeta, encontrar uma voz própria implica experimentar, observar a construção do poema e perceber de que maneira a forma pode alterar aquilo que se quer dizer. Não basta ter alguma coisa para comunicar; importa descobrir como fazê-lo sem repetir, por comodidade, os caminhos já abertos por outros.

Foi nessa procura, confessa, que desenvolveu aquilo a que chama poesia triangular. A expressão não surge como uma fórmula que resolva os problemas da escrita, mas como uma tentativa de encontrar uma organização própria para o poema. Sangare queria afastar-se dos padrões que conhecia, explorar outras possibilidades e perceber até onde poderia levar a construção do verso. A questão era formal, mas não apenas…: tratava-se de descobrir uma maneira de pensar a poesia que também lhe pertencesse.

Quando a conversa entra na métrica, na imagem e na organização dos versos, percebemos que a liberdade de que fala não corresponde a uma recusa indiscriminada das regras. O poeta reconhece a influência da poesia ideogrâmica e a importância da imagem na construção do sentido. Fala da estrutura como alguém que a observa por dentro, que conhece o peso de uma escolha e sabe que a disposição das palavras também interfere na leitura.

Há, portanto, uma tensão na sua procura: experimentar sem abdicar da estrutura, escapar ao padrão sem confundir a diferença com a ausência de trabalho. Porque, para ele, “o poema não se torna livre apenas porque o escritor decide ignorar as regras. É preciso encontrar outra maneira de o organizar, de fazer com que cada palavra ocupe um lugar necessário e de perceber o que se perde ou se ganha quando se altera esse lugar”.

A poesia triangular interessa, neste contexto, menos como uma etiqueta do que como sinal de uma inquietação, antes como a vontade de construir uma linguagem que não seja apenas a continuação das linguagens que recebeu. Mas uma linguagem, por mais trabalhada que seja, precisa de encontrar quem a leia, quem a escute, quem lhe dê espaço. E é aqui que a conversa volta a sair do poema para entrar no mundo que o recebe.

“Nunca vi uma exposição de poesia”

Como se apresenta a poesia para lá das páginas de um livro? Onde estão os espaços de experimentação, os lugares onde um poema pode ser mostrado, discutido e confrontado com o público?

Sangare levanta a questão a partir de uma observação pessoal. Ele diz nunca ter visto uma exposição de poesia. A afirmação abre um campo de perguntas sobre a maneira como as instituições culturais acolhem – ou deixam de acolher – formas de criação que não cabem facilmente nos formatos habituais.

“Publicar um livro é apenas uma parte do percurso. Depois, há que fazê-lo circular, encontrar leitores e criar ocasiões de encontro. A literatura não se aproxima das pessoas por simples vontade de existir. Precisa de editores, de divulgação, de espaços de apresentação e de iniciativas que não deixem o livro entregue à sorte de quem passa por uma livraria ou encontra uma referência nas redes sociais”, argumenta.

“Este prémio aqui não é para Sangare, é para Moçambique. É para a comunidade. O Bhuka Bhuka Centro Cultural das Mahotas é o meu Prémio Nobel”.

A questão ganha outro peso quando regressamos ao lugar onde estamos. Para Sangare, falar de acesso à cultura não é uma discussão abstracta sobre políticas ou programação. Começa nas Mahotas, nas pessoas com quem convive e na possibilidade de levar a criação para mais perto de quem raramente encontra lugar nos circuitos culturais da cidade.

O gueto é alimentado boca a boca

O bairro não surge na conversa como um cenário de passagem. É parte do pensamento do poeta, da sua maneira de compreender a literatura e da própria ideia de responsabilidade artística. Sangare insiste que não escolheu o gueto por falta de alternativas. Escolheu-o porque acredita que a criação deve manter uma relação efectiva com o lugar de onde nasce.

A conversa chega à ideia de construir o Bhuka Bhuka Centro Cultural das Mahotas, um projecto que partilha com o amigo, também escritor, Aurélio Furdela. A iniciativa pretende levar actividades culturais para fora dos circuitos habituais da cidade e criar, na própria comunidade, um espaço de encontro, formação e apresentação artística.

Sangare conta que a ideia nasceu da necessidade de sair da zona urbana enquanto centro quase exclusivo da actividade cultural. “Nós temos que sair da zona urbana. Nós temos que criar um centro cultural. No subúrbio, no gueto, onde vivemos”, diz.

A frase contém mais do que uma proposta de localização. Sangare quer que o bairro conheça outras experiências, que os moradores tenham acesso a actividades que, muitas vezes, ficam concentradas nos espaços mais centrais e que os jovens encontrem um lugar onde possam aprender, experimentar e apresentar o seu trabalho.

O projecto é alimentado, como diz, “boca a boca”. A ideia é que a comunidade conheça o espaço, reconheça-se nele e participe na sua construção. Não se trata simplesmente de transportar para as Mahotas uma programação concebida noutro lugar, mas de permitir que a actividade cultural se desenvolva a partir das pessoas que ali vivem.

A referência ao Bhuka Bhuka ajuda a compreender que não estamos apenas perante uma ideia futura. Há uma vontade de fazer, reunir pessoas e produzir trabalho artístico. A comunidade não é somente o destinatário de uma iniciativa. É também o lugar onde ela começa a ganhar forma.

É por isso que o prémio, quando regressa à conversa, já não pode ser visto apenas como uma conquista pessoal. Sangare tem contas a pagar, responsabilidades familiares e necessidades concretas. Não esconde essas dificuldades. Mas insiste que o dinheiro pode ter um destino para além da sua vida individual. “Este prémio aqui não é para Sangare, é para Moçambique. É para a comunidade. O Bhuka Bhuka Centro Cultural das Mahotas é o meu Prémio Nobel”, afirma.

“A poesia é um inutensílio”

Quando lhe pergunto o que considera mais importante num poema, Sangare fala da voz e da dicção. A resposta não surge como uma definição académica, mas como uma convicção construída ao longo de anos de leitura, escrita e escuta.

O poeta diz que começou por ouvir poesia. A leitura em voz alta, os ritmos e a maneira como as palavras se articulam foram decisivos na sua formação. Para ele, um texto não se completa apenas porque as palavras estão no papel. Precisa de encontrar uma voz capaz de lhe dar corpo. “A poesia não é gratuita. A poesia é dicção, a poesia é voz, a poesia é alguma coisa viva”, afirma, enquanto fuma um cigarro.

A afirmação ajuda a compreender o lugar que a oralidade ocupa no seu pensamento. A palavra escrita não está desligada do som, do corpo ou da interpretação. O poema é também uma experiência de escuta. É uma concepção que encontra eco na herança teatral do pai, o proeminente dramaturgo e escritor Lindo Lhongo, para quem o teatro era uma literatura viva.

A conversa passa por Paulo Leminski, autor que aprecia, e pela ideia de poesia como “inutensílio”. A palavra, nesse contexto, não expressa que a poesia seja inútil no sentido de não ter valor. Significa que o seu valor não se mede necessariamente por uma função prática ou por um rendimento material.

Mas, então, para que serve a poesia? Por que razão alguém insiste em escrever durante 20 anos, sabendo que dificilmente encontrará nessa actividade uma fonte segura de rendimento? A resposta de Sangare não é económica. A poesia conforta, liberta e permite dizer aquilo que, de outra maneira, talvez permanecesse sem expressão. Ou seja, “voz das vozes está nesta voz que se chama poesia”, diz.

Há, contudo, uma tensão que percorre a conversa. Se a poesia não precisa de justificar a sua existência pela utilidade imediata, o poeta não pode ignorar as condições materiais em que vive. A liberdade de criação não paga automaticamente a renda, a água, a energia ou a alimentação. A obra pode sobreviver ao seu autor, mas o autor continua a ter de viver enquanto escreve.

E Okapi não tenta esconder essa contradição. Fala da falta de dinheiro, da dificuldade de publicar e da distância entre o trabalho produzido e o reconhecimento que chega ao público. A sua experiência como professor de Português no ensino secundário torna essa contradição ainda mais evidente.

“Durante muito tempo, muitos dos meus colegas nem sequer sabiam que eu escrevia poesia. O prémio mudou essa realidade e tornou o meu trabalho mais visível. É curioso que um escritor possa passar anos a publicar e continuar desconhecido, mesmo num meio ligado à educação. Quando falei aos meus alunos sobre a minha condição de poeta, senti uma mudança na forma como me olhavam. As crianças passaram a reconhecer-me também por essa dimensão. O prémio abriu uma possibilidade de diálogo que antes não existia”, desabafa.

A questão, porém, não se resolve com a notoriedade. O poeta pergunta como é possível que, numa comunidade de centenas de professores, seja tão difícil fazer circular os livros de um colega. O problema não é apenas a venda. É a relação entre leitura, conhecimento e responsabilidade intelectual.

A sua crítica dirige-se a um meio em que a formação académica nem sempre se traduz em hábitos de leitura. A escola pode ensinar a interpretar textos, mas isso não garante que os livros de escritores contemporâneos circulem entre os próprios professores. O prémio tornou-o mais visível, mas não criou, por si só, uma comunidade de leitores.

Vinte anos até ao reconhecimento

O domingo continua nas Mahotas. A conversa, como começou, não obedece inteiramente ao questionário. A rua continua a fazer parte do encontro, com os seus movimentos e interrupções. Sangare fala de poesia, de reconhecimento e das condições de trabalho dos artistas, mas regressa sempre à comunidade onde vive.

A distinção atribuída a “Utse” leva-nos à questão do tempo. Por que razão uma obra precisa, por vezes, de esperar tantos anos até receber uma atenção mais ampla? O que aconteceu durante o intervalo entre a primeira publicação, a republicação e o reconhecimento recente?

Sangare não aceita que o prémio seja tratado como a revelação tardia de um talento que só agora teria surgido. O livro tem uma história anterior à distinção, e o trabalho do autor não começou com o anúncio do resultado. Para o poeta, o tempo pode funcionar como um árbitro. Mas esse juiz não é necessariamente justo, nem decide tudo de uma vez. A história literária é feita de leituras, esquecimentos, reedições e mudanças de contexto. O que passa despercebido numa determinada época pode voltar a ser lido noutro momento.

Por isso, diz ele, o prémio não deve servir apenas para consagrar um autor. Pode também abrir espaço para outros, chamar a atenção para livros menos conhecidos e estimular uma discussão mais ampla sobre a literatura moçambicana.

(…) a crítica moçambicana tem dificuldades em discutir as obras de maneira abrangente. (…) há uma tendência para celebrar escritores consagrados sem examinar com a mesma atenção os seus fracassos, as contradições e as escolhas estéticas menos conseguidas.

Sangare Okapi anuncia que prepara um novo livro, cuja publicação pretende concretizar ainda este ano. Na conversa, identifica a poeta Ana Mafalda Leite como destinatária da dedicatória e fala da vontade de mudar de ciclo. O erotismo, tema presente no seu percurso, já não lhe parece suficiente para dar conta de tudo o que pretende escrever. Não se trata necessariamente de o abandonar, mas de abrir a obra a outras preocupações, sobretudo às questões sociais e à relação entre o indivíduo e o país.

“A mudança tem a ver com a própria ideia de maturidade. A experiência acumulada ao longo dos anos não deve conduzir à repetição automática dos temas ou das soluções estéticas. É preciso continuar a procurar”, afirma.

O poeta fala da memória como uma força que, à medida que envelhecemos, nos devolve aos lugares de origem. O passado não desaparece; muda de significado. É por isso que está a escrever “A Casa Grande da Minha Avó”, um projecto em que a memória familiar e os lugares de infância ocupam um espaço importante. A escrita, explica, é intensa.

“A poesia não é só amor”

A conversa entra, então, na relação entre literatura e política. Sangare considera que a poesia não pode ficar confinada ao amor romântico ou à expressão individual dos sentimentos. A criação artística também pode denunciar, contestar e reivindicar condições mais dignas de existência. O novo ciclo que pretende iniciar na sua escrita está ligado a essa preocupação. A independência nacional não encerrou as questões sociais que a literatura pode e deve interrogar. 50 depois, continuam a existir desigualdades, dificuldades e formas de sofrimento que exigem atenção.

Sangare fala da poesia de urgência e recorda a tradição de escritores que fizeram da palavra um instrumento de intervenção. José Craveirinha surge como uma referência importante. A poesia, nessa perspectiva, não substitui a política nem oferece soluções administrativas. Mas pode revelar contradições, denunciar injustiças e defender a humanidade.

“A poesia denuncia, reivindica, luta para a humanidade”, afirma. A formulação não elimina a dimensão estética da escrita. Pelo contrário, o percurso do poeta mostra que a preocupação social convive com a procura da forma, da dicção e de uma linguagem própria. O compromisso não dispensa o trabalho literário.

A conversa torna-se mais incisiva quando o tema passa para a crítica literária. Sangare considera que a crítica moçambicana tem dificuldades em discutir as obras de maneira abrangente. Segundo a sua leitura, há uma tendência para celebrar escritores consagrados sem examinar com a mesma atenção os seus fracassos, as contradições e as escolhas estéticas menos conseguidas.

O problema, para ele, é que a crítica corre o risco de se transformar numa cerimónia de reconhecimento. Em vez de contribuir para a compreensão das obras, limita-se a confirmar reputações.

Pergunto-lhe se isso acontece por amizade, medo ou falta de sensibilidade. O poeta associa o problema a uma tradição que considera elitista. A literatura é tratada como um território reservado a determinados nomes e círculos, quando deveria circular na sociedade, chegar às ruas e dialogar com diferentes experiências.

A referência a Leminski regressa neste momento. A poesia, para o autor brasileiro, não deve ficar encerrada no espaço restrito dos livros ou das instituições. A crítica, por sua vez, deve acompanhar esse movimento. Não basta falar dos autores mais conhecidos. É preciso ler, comparar, questionar e reconhecer que até os escritores consagrados produzem obras com diferentes níveis de realização.

A discussão não conduz a uma lista de nomes nem a um julgamento sumário da literatura moçambicana. Bem que seria interessante, nesta perspectiva.

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