O Presidente do Conselho de Administração (PCA) da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, E.P. (ENH), Rudêncio Morais, defendeu que os projectos de gás natural em curso em Moçambique só terão sucesso efectivo se gerarem empregos, receitas para o Estado e oportunidades reais para as empresas moçambicanas.
A posição foi apresentada na sessão “Invest in Mozambique”, realizada na passada quinta-feira, 15 de Outubro, na Cidade do Cabo, África do Sul, no âmbito da African Energy Week (AEW) 2026, que contou com a presença de representantes de alto nível das empresas ExxonMobil, ENI, TotalEnergies, Africa Global Logistics, Technip Energies e Schlumberger.
Com o Coral Sul em produção, o Coral Norte em desenvolvimento, o Mozambique LNG em plena execução e o Rovuma LNG a aproximar-se da Decisão Final de Investimento, Moçambique caminha para uma capacidade de produção de cerca de 38 milhões de toneladas de Gás Natural Liquefeito (GNL) por ano nos próximos anos.
Para a ENH, contudo, os números não são, por si só, a medida do sucesso. “O valor desses números não é a medida do sucesso, caso não resultem em empregos, receitas para o Estado e oportunidades reais para empresas moçambicanas por meio de conteúdo local”, afirmou o responsável da ENH.
A utilização do gás natural em Moçambique constitui uma prioridade estratégica da ENH, com enfoque na expansão do acesso à energia, no desenvolvimento industrial e na melhoria das condições de vida das populações.
Neste âmbito, a empresa pretende replicar em Cabo Delgado a experiência de distribuição de gás canalizado às residências, já implementada em Inhassoro, Govuro e Vilankulo, na província de Inhambane. Paralelamente, a ENH aposta no desenvolvimento de infra-estruturas que permitam ampliar o aproveitamento do gás no mercado nacional, incluindo o projecto de uma Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação (FSRU), em Inhassoro, que permitirá disponibilizar gás proveniente do GNL a partir de 2028, com a entrada em produção do Coral Norte. “Hoje, com a evolução dos projectos, temos mais conhecimento, melhor qualidade de informação e de parcerias para tomarmos melhores decisões. Estamos comprometidos em fazer acontecer”, sublinhou o PCA.
Segundo o PCA, a conversão de gás em electricidade cria a escala necessária para justificar novas infra-estruturas, apoia a industrialização e reforça a rede eléctrica nacional, apontando o projecto de Pande e Temane como demonstração do que se pode alcançar. Recordou igualmente a parceria com a empresa sul-coreana Kogas, que permitiu levar o gás natural a Maputo e Marracuene, destacando que estas localidades dispõem actualmente de uma rede de distribuição por gasoduto, construída de raiz, que já serve centenas de utilizadores.
“Estamos a dar prioridade ao uso do gás doméstico para a produção de energia e para o desenvolvimento industrial, incluindo, numa fase subsequente, os fertilizantes e outros produtos de valor acrescentado”, afirmou o PCA, acrescentando: “O nosso trabalho na distribuição de gás em Inhambane e em novas infra-estruturas de importação e distribuição faz parte da construção de um mercado doméstico de gás que chegue às famílias moçambicanas, às empresas e às indústrias.”
Ao abordar a utilização do gás natural para impulsionar a economia nacional, o responsável da ENH destacou a necessidade de assegurar preços competitivos que viabilizem o desenvolvimento industrial e a expansão do mercado interno. “Projectos de Gas-to-Power e de fertilizantes exigem cooperação e compromisso dos nossos parceiros. É, portanto, um exercício que carece do alinhamento de todos. A ENH, sozinha, não consegue”, afirmou.
Quanto ao impacto económico do gás natural no país, Rudêncio Morais destacou o efeito multiplicador das indústrias baseadas neste recurso, particularmente a produção de fertilizantes. “Os fertilizantes são uma ligação directa entre o gás e o seu impacto transformador nas comunidades moçambicanas”, explicou, sublinhando o contributo destes produtos para a segurança alimentar.
No domínio do conteúdo local, a ENH tem apoiado as pequenas e médias empresas moçambicanas, através do Programa LINKAR, no cumprimento dos padrões exigidos pela indústria em matéria de certificação, financiamento, segurança e gestão. O objectivo é permitir que estas empresas beneficiem das oportunidades geradas pelos projectos, continuem a crescer após a fase de construção e desenvolvam capacidade para prestar serviços além-fronteiras.
O PCA defendeu, igualmente, que o conteúdo local deve ser transversal a toda a cadeia de valor do gás. “Não é responsabilidade apenas das companhias internacionais de petróleo. Os prestadores de serviços internacionais também devem assegurar que a percentagem definida na lei é alocada ao conteúdo local.” Neste sentido, defendeu a criação de um instrumento de controlo que permita medir, de forma rigorosa, a participação das empresas nacionais na indústria.
Em síntese, o PCA destacou que a estratégia da ENH assenta, prioritariamente, no aproveitamento do gás natural em Moçambique, através da expansão do acesso à energia pelas famílias, do abastecimento às empresas e da promoção da industrialização nacional. Esta visão inclui a extensão das redes de distribuição de gás canalizado a novas regiões, com destaque para Cabo Delgado, tomando como referência a experiência de Inhassoro, Govuro e Vilankulo. A exportação de GNL para os mercados internacionais e o fornecimento de gás e energia à região constituem vertentes complementares desta estratégia, contribuindo para a criação de escala, a viabilização de novas infra-estruturas e o desenvolvimento de uma base industrial sólida e sustentável no país.
Criada em 2021, com o objectivo de contribuir para a erradicação da pobreza energética em África até 2030, a AEW constitui uma plataforma de diálogo político, promoção de negócios e atracção de investimento para o sector energético africano. O evento promove uma visão integrada do futuro energético do continente e reforça o papel de África no debate energético global, privilegiando o diálogo e a tomada de decisões liderados por africanos. A AEW abrange os segmentos upstream, midstream e downstream, bem como as energias renováveis e os serviços associados, reunindo os diferentes intervenientes da cadeia de valor do sector energético africano.





