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22 de September, 2026

De Moçambique, com amor*

Escrito por
Carta aberta a João Cotrim de Figueiredo*, escreve Rui Pinto Martins
Senhor Eurodeputado João Cotrim de Figueiredo,
Receba um abraço fraterno deste povo irmão. Um abraço dado de pé, por um moçambicano que pode finalmente olhar um português nos olhos sem baixar a cabeça e sem precisar de a levantar acima da sua.
A relação entre os nossos povos carrega quase cinco séculos de uma história que não começou nos gabinetes de Bruxelas nem nas salas civilizadas de Estrasburgo. Começou numa terra ocupada, quando homens vindos do mar decidiram que os povos que encontraram podiam ser privados do nome, da cultura, da terra e da própria condição humana. Começou nos corpos marcados para o trabalho, nos braços arrancados às famílias, nas mães que viram os filhos levados sem saberem para onde, nos homens obrigados a produzir uma riqueza que nunca regressaria às suas casas. A Europa engordava do outro lado do oceano enquanto deste lado ficavam a fome, o chicote e o silêncio imposto pelo medo.
Durante gerações, nascer negro nesta terra significou crescer dentro de uma sentença já escrita. A cidade tinha ruas onde o africano entrava para servir e bairros para onde devia regressar quando o branco deixava de precisar dele. A escola ensinava-lhe a admirar a história de quem o dominava e a envergonhar-se da história dos seus antepassados. A sua língua era tratada como ruído, os seus costumes como atraso e a sua humanidade como uma concessão dependente da obediência.
Passou pelas prisões e pelos interrogatórios da PIDE. Passou pelos homens que regressaram a casa com o corpo destruído e nunca conseguiram contar aos filhos o que lhes tinham feito. Passou pelos que não regressaram. Filhos cresceram à espera de pais que jaziam em lugares sem nome. Mulheres envelheceram sem uma sepultura onde pudessem depositar uma flor.
Passou por Wiriyamu, onde famílias inteiras foram assassinadas. Entraram soldados numa aldeia onde existiam casas, crianças, panelas ao lume e gente ocupada com a vida. Quando saíram, ficou a morte. A violência colonial entrou nas palhotas, separou mães dos filhos, interrompeu infâncias e deixou sobre a terra corpos que nunca tinham pegado numa arma. Nenhuma delicadeza diplomática encerra uma ferida desta natureza. O tempo passou, mas a memória não aceitou obedecer.
Não lhe recordo esta história para lhe atribuir uma culpa pessoal. Recordo-a para situar esta conversa. Quando um político português se levanta para nos indicar os dirigentes de que África precisa, não fala a partir de um lugar historicamente neutro. As palavras chegam acompanhadas pela memória de uma Europa que durante demasiado tempo decidiu quem éramos, como devíamos viver e quem estava autorizado a governar-nos.
Reconheço-lhe plena liberdade para falar sobre Moçambique. Pode criticar o nosso Governo, denunciar violações dos direitos humanos, exigir esclarecimentos sobre as mortes e questionar a integridade das nossas instituições. Nenhuma soberania digna desse nome pode servir para esconder crimes, corrupção ou abuso de poder.
Não lhe reconheço, porém, autoridade para escolher, em nosso nome, os dirigentes de que África necessita.
A frase pode parecer generosa. Não é. Conserva o velho paternalismo europeu, apenas mudou o vocabulário. A Europa já não nomeia administradores coloniais. Identifica os africanos certos, concede-lhes certificados de coragem e democracia e devolve-os ao continente investidos de uma legitimidade que só os africanos lhes podem conferir.
África não lhe pediu essa escolha. Moçambique também não.
Venâncio Mondlane apresentou-lhe uma interpretação da crise moçambicana. Estava no seu direito. Um político procura aliados, internacionaliza a sua causa, organiza os factos segundo a leitura que pretende fazer prevalecer e tenta convencer quem o escuta.
O seu trabalho, enquanto político europeu disposto a pronunciar-se sobre outro país, não terminava quando Venâncio acabou de falar. Começava nesse momento.
Era necessário ouvi-lo e depois interrogar o que ouviu. Procurar outras vozes. Distinguir denúncia de demonstração, solidariedade de adesão e popularidade de representação. Perceber que um político pode denunciar abusos reais e, ao mesmo tempo, construir uma narrativa conveniente sobre si próprio.
O senhor ouviu um protagonista e regressou com um retrato do país.
Moçambique não cabe nesse retrato.
Também não cabe nos comunicados da FRELIMO, nas declarações defensivas do Governo ou na propaganda da nossa diplomacia. O país encontra-se naquilo que essas versões dizem, no que escondem e, sobretudo, na vida dos moçambicanos que nenhuma delas representa por inteiro.
Escrevo-lhe de uma nação imperfeita. Uma nação que mal começava a reconhecer o rosto da independência quando voltou a encontrar a guerra à porta.
A guerra entrou nas aldeias de madrugada. Incendiou casas, escolas, hospitais, machambas e machimbombos cheios de gente. Arrancou crianças às famílias, colocou-lhes armas nas mãos e obrigou algumas a matar diante daqueles que lhes tinham ensinado a viver. Homens foram forçados a assistir à violação das suas mulheres. Mães enterraram filhos e continuaram a caminhar, porque até o direito de permanecer junto dos mortos lhes tinha sido retirado.
Durante anos, milhares de moçambicanos aprenderam a distinguir o som de uma arma antes de aprenderem a ler. Dormiram no mato, fugiram de aldeia em aldeia, acordaram sem saber se chegariam vivos ao fim do dia. Os caminhos ficaram cobertos de minas. Os machimbombos queimados permaneceram nas estradas como esqueletos de ferro. Uma viagem para visitar a família podia terminar com corpos carbonizados e nomes que nunca chegariam a constar de lista alguma.
Aos interesses estrangeiros que alimentaram a guerra juntaram-se as nossas próprias fracturas, ambições e brutalidades. As armas podiam vir de fora, mas eram corpos moçambicanos que tombavam. A bala não perguntava pela ideologia antes de entrar no peito. Em cada lado se falava do povo; no meio ficava o povo a morrer.
A guerra terminou nos documentos, nas fotografias oficiais e nos apertos de mão. Não terminou inteiramente dentro de nós. Ficou nas mães que ainda esperam pelos filhos desaparecidos, nos antigos soldados que acordam durante a noite, nos mutilados sentados à porta das casas, nas famílias que nunca souberam onde chorar os seus mortos e nos adultos que continuam a carregar dentro do corpo a criança aterrorizada que foram.
Escrevo-lhe, portanto, de um país que conhece o preço das palavras pronunciadas por homens que garantem falar em nome do povo. Um país que continua a combater a fome, o desemprego, a desigualdade, a corrupção, a captura do Estado e a brutalidade das suas instituições. Conheço demasiado bem os fracassos do poder moçambicano para precisar que alguém os esconda em nome da pátria.
Não aceito a fraude eleitoral. Não aceito a perseguição política. Não aceito que cidadãos sejam mortos pela polícia, que os recursos públicos alimentem fortunas privadas ou que o Estado seja tratado como propriedade de um partido. Quem disparou, quem ordenou, quem encobriu e quem transformou a lei em arma política deve responder.
Nada disso me obriga a aceitar Venâncio Mondlane como encarnação democrática de Moçambique.
Venâncio representa muitos moçambicanos. Não representa todos. Mobiliza uma parcela importante da juventude. Não adquiriu por isso o direito de transformar a sua própria voz na voz do povo.
Foi protagonista de uma contestação legítima a um processo eleitoral profundamente desacreditado. Foi também responsável por uma estratégia política marcada pela personalização extrema, pela mobilização emocional, pelo uso político da religião e por uma convivência difícil com a crítica. As referências elogiosas a Bolsonaro e Nikolas Ferreira, assim como a aproximação a André Ventura, não são acidentes sem significado. Revelam o universo político onde procura alianças e reconhecimento.
O senhor pode admirá-lo. Pode apoiá-lo. Pode acreditar na sua versão dos acontecimentos. Não pode converter essa escolha pessoal numa verdade sobre aquilo de que África precisa.
Se deseja conhecer Moçambique, venha.
Venha para além dos hotéis, das embaixadas e das reuniões cuidadosamente preparadas. Visite escolas onde crianças aprendem sentadas no chão. Entre em hospitais onde um médico tenta fazer o trabalho de vinte. Converse com jovens licenciados sem emprego, camponeses que produzem sem mercado, famílias esmagadas pelo custo de vida e trabalhadores cujo salário termina muito antes do mês.
Converse com os apoiantes de Venâncio. Escute depois os que o contestam sem pertencerem à FRELIMO. Procure os moçambicanos que recusam simultaneamente o autoritarismo do poder e o populismo da oposição. Encontrará um país mais complexo, plural e inteligente do que aquele que lhe foi apresentado.
A referência aos apoios europeus exige também alguma sobriedade.
Os financiamentos públicos devem obedecer a regras, fiscalização e critérios claros, incluindo o respeito pelos direitos humanos. Moçambique não possui um direito incondicional ao dinheiro dos contribuintes europeus.
Mas os apoios europeus também não conferem a nenhum político europeu o direito de falar como credor moral de uma antiga colónia. O financiamento não transforma soberania em obediência, nem permite que a versão levada à Europa por um protagonista político seja convertida em critério suficiente para punir um país inteiro.
Qualquer revisão ou condicionamento dos apoios deve resultar de instituições competentes, provas verificadas, compromissos assumidos e decisões transparentes. Não pode funcionar como prolongamento financeiro de uma audiência concedida a Venâncio Mondlane.
Quando o dinheiro entra numa conversa entre a Europa e África, a memória também entra.
Antes de apresentar os fundos europeus como expressão de generosidade unilateral, convém recordar a riqueza retirada deste continente, o trabalho forçado que sustentou economias coloniais e a dívida histórica que nunca foi seriamente calculada. Não lhe peço que a pague pessoalmente. Peço-lhe que não fale como proprietário dos recursos europeus diante dos descendentes daqueles que pagaram durante séculos pela prosperidade da Europa.
A defesa dos direitos humanos exige a mesma coerência.
A Europa que interroga Moçambique deve conservar essa coragem diante dos corpos no Mediterrâneo, da perseguição aos imigrantes, do racismo convertido em programa eleitoral e das negociações que entregam seres humanos a regimes brutais para os manter afastados das fronteiras europeias.
Os direitos humanos não podem ser universais quando disciplinam África e negociáveis quando incomodam a Europa.
O senhor não fala em nome dos moçambicanos. Venâncio Mondlane também não. A FRELIMO muito menos. Eu próprio não reivindico esse lugar.
Cada um de nós ocupa apenas uma parte do país. A democracia começa no reconhecimento desse limite. Quem transforma uma parte no todo deixa de representar e começa a apropriar-se. Moçambique sofreu demasiado com partidos, presidentes e dirigentes convencidos de que a sua vontade coincidia naturalmente com a vontade do povo.
Não precisamos de um novo proprietário da palavra “povo”.
Receberemos com respeito quem vier conversar connosco. Aceitaremos perguntas incómodas, críticas severas e solidariedade sincera. Recusaremos a voz europeia que escuta um africano, o certifica como representante autêntico e trata todos os restantes como população politicamente incompleta.
Os portugueses também enfrentam desigualdade, salários baixos, precariedade, crise da habitação e o crescimento de uma extrema-direita que transforma a frustração social em hostilidade contra estrangeiros. Dedique a esses combates a mesma energia que demonstrou ao explicar de que dirigentes África necessita.
Nós trataremos da nossa democracia. Com os nossos conflitos, os nossos erros, a nossa inteligência e as nossas próprias mãos.
Não lhe peço silêncio. Peço-lhe rigor.
Não lhe peço indiferença. Peço-lhe respeito.
Quando voltar a falar sobre Moçambique, recorde-se de que escutou um político moçambicano, não Moçambique. Entre uma coisa e outra existe um país inteiro.
Despeço-me através do laço cultural que nem a violência da história conseguiu destruir. A língua changana deixou-nos uma expressão apropriada para ocasiões em que a paciência termina antes da hospitalidade:
U fenyisa futsu.
O senhor encontrará a tradução.
Com estima e consideração,
Rui Pinto Martins,
Moçambicano de verdade
*Nota da Redacção: O texto que se segue, da autoria de Rui Pinto Martins, foi originalmente publicado no seu perfil pessoal no Facebook e é aqui reproduzido na íntegra.
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