Treze de Maio, distante 1958, a pacata vila de Magude, com mais gado do que bem-estar, testemunhou a chegada de uma pequena estrela que viria a marcar a música moçambicana. Artista cuja música se enraizava no contexto sociocultural que o viu nascer e o acompanhou ao longo dos anos, Chico valorizou e promoveu a música moçambicana, assegurando que as novas gerações tivessem uma fonte de inspiração para o novo cancioneiro nacional.
Chico foi um desses raros criadores que preferiam o silêncio da obra ao ruído da fama. Nem o sucesso de Baila Maria, Antlissa Maria, Wodza e Mercandonga abalou os seus fundamentos. Para ele, nenhuma grandeza se anuncia, pelo contrário, revela-se. A sua voz tinha essa alma incrível. Transmitia emoção e transportava-nos a sentir a história da música na sua essência.
Na nossa, ainda, humilde universidade, a UP-Maputo, a sua presença não era protocolar, muito pelo contrário, era quase litúrgica. Bastava uma chamada, um convite simples, e ele chegava, viola a tiracolo e boa disposição para desfrutar do momento. Não como estrela distante, mas como um dos nossos. Cantava, conversava, escutava. Aquele espaço era, para si, um território de partilha, um lugar quase sagrado e de eleição. Ali, entre estudantes e professores, desfiava o país em forma de música e pensamento. Afinava o instrumento, ajustava-se na cadeira, diante de um microfone sem som apurado, e exibia um sorriso longo. Era o Chico que abraçava Moçambique como memória, como promessa e como melodia inacabada. Aquela voz, e o seu charme misterioso e envolvente, ficaram registados nas paredes da nossa biblioteca.
Mas, para compreender a dimensão deste homem, é preciso regressar ao princípio. No distrito de Magude, ele pastoreava suínos, cabritos e ovelhas, animais de médio porte, que não exigiam muitos cuidados, mas reclamavam uma presença constante e um tédio interminável. Quem sabe a sua voz tenha ganho ali habilidade, no timbre e no controlo, pois falar para os animais também exige técnica. Não era apenas trabalho, como ele sempre argumentou, era sobrevivência e a garantia de que teria cumprido com zelo a sua missão de pastor de rebanhos e, de certo modo, de comunicador.
Como tantas infâncias interrompidas, a sua também parecia destinada ao anonimato. Até que, num gesto de ruptura, fugiu para a então Lourenço Marques, onde se tornou menino de rua e poderia facilmente ter-se perdido, porque a rua nunca foi boa conselheira. Porém, não se perdeu. Pelo caminho, conheceu ainda a dureza da detenção e a passagem por um orfanato, até ser acolhido por uma família e integrado na Missão de São João de Lhanguene, bem próxima dos edifícios que, anos mais tarde, se converteriam no campus da UP-Maputo. Foi aí que a música o encontrou, ou talvez tenha sido ele a encontrar a música e, com ela, a sua alma em plenitude. Aos nove anos, já era solista de um coro. Aprendeu trompete, solfejo, disciplina. E começou a desenhar o seu destino. As melodias de um país inteiro ganhariam um novo ímpeto.
Inspirado por nomes como Wazimbo, nome consagrado, e pelo Osibisa, banda afro-rock de origem ganesa formada em Londres, que fazia furor pelo mundo com o seu estilo musical, entre outros, mergulhou na música profissional no final dos anos 70. A aurora da independência e da liberdade abraçava os novos músicos que uniam o país pelo canto e pela dança. Passou por formações decisivas, como o Grupo RM e a Orquestra Star de Moçambique, onde conviveu com gigantes da nossa praça musical, nomes que ajudaram a moldar uma geração inteira. Antes e paralelamente a esses marcos, o seu percurso passou ainda por outras formações, como a ABC-78 e o Grupo Instrumental n.º 1 de música ligeira, sinais de uma aprendizagem feita em vários palcos e linguagens antes do reconhecimento maior.
A banda RM foi fundada como uma orquestra oficial da emissora nacional e tinha como missão pesquisar ritmos tradicionais, acompanhar artistas em gravações e produzir música moçambicana. O governo de Machel apoiava esta banda e, com o advento da unidade nacional no pós-revolução, ela promovia a diversidade cultural. Ao longo dos anos, a banda da RM realizou digressões internacionais, divulgando a marrabenta e outros géneros. O apoio do governo era meritório e inquestionável.
Foi nesse percurso que nasceu Baila Maria, interpretada com Mingas, outra voz de muito sucesso no país, igualmente descoberta na banda RM, uma canção que atravessou fronteiras e conquistou, em 1990, o grande prémio do concurso da Rádio França Internacional. Esse momento levou-o a Paris, onde estudou sob a orientação do lendário Manu Dibango e de tantos outros. Era um outro nível de conhecimento, de equipamentos, de diversidade e de constelação de vozes e culturas que só a cidade-luz pode oferecer. Paris sempre foi capital da música e do melhor que o mundo pode escutar.
Na realidade, após as independências, a música africana moderna surgia sob o lema da “autenticidade”, afastando-se da influência colonial, o que interessava à Rádio França, em busca de novos conteúdos. A RFI, por meio de concursos e de difusão, ajudou a revelar talentos e orquestras de países como Mali, Guiné-Conacri e Burkina Faso. Moçambique, igualmente, se beneficiou. Também a francofonia e os vizinhos da própria França, através das ilhas do Índico e das diferentes ilhas Mascarenhas, conheceram esse movimento. Essa estratégia ajudou a consolidar o cenário musical africano moderno e a integrar essas produções no mercado internacional. Manu Dibango era um dos idealizadores dos concursos e quase presença certa no júri.
Na cidade-luz, esse lugar de sonhos chamado França, Chico António foi galardoado com o famoso e prestigioso prémio “Descobertas” (RFI), com a música Baila Maria. Aproveitou a estadia para estruturar os seus fundamentos, aprofundar a aprendizagem de uma vida inteira e, sobretudo, adquirir técnicas de gravação sob a tutela de alguns dos maiores conhecedores da world music. Foi também nesse contexto que o Grupo RM passou a designar-se Amoya, aprofundando uma identidade própria que viria a afirmar-se com a gravação, em Paris, do disco Cineta, já no início da década de 1990. A sorte abraçou-o por dois anos de formação intensiva, e até a aulas de piano teve acesso. Conviveu, partilhou e dividiu palcos com outros artistas, incluindo Salif Keita, uma das maiores estrelas que o continente gerou. Esse período foi fundamental para a sua carreira, levando-o a aprofundar a fusão da música tradicional moçambicana com estilos mais modernos e clássicos. Depois do pastoreio, esta foi a melhor escola da vida de Chico.
E é aqui que se revela uma das dimensões menos conhecidas e, talvez, mais profundas de Chico António. Poderia ter ficado na Europa para seguir tocando e cantando. Poderia ter capitalizado o sucesso para integrar as melhores bandas africanas e antilhanas. Mas regressou. Nenhuma promessa o convenceu a ficar. O seu sentido de cidadania cantou mais alto. Era o compromisso com o país e com a própria revolução. Esse compromisso não se ficou pelo discurso, manifestou-se também em iniciativas como o Circo da Paz, oficina multidisciplinar que percorreu províncias e distritos do país com uma mensagem de unidade nacional e cidadania. Regressou para pesquisar, para escutar as raízes, para reconstruir a música moçambicana a partir do seu chão. Foi esse impulso que deu origem à Amoya Studio and Art Gallery, um espaço de criação, experimentação e resistência cultural. Chico não queria apenas tocar, compor e cantar. Queria compreender a música moçambicana, elevá-la e devolvê-la ao povo. Curiosamente, este homem de talento imenso evitou, durante décadas, o protagonismo. Preferia trabalhar nos bastidores, produzir, apoiar, ajudar a construir outros artistas.
Só em 2014, quase por ‘pressão social’, lançou o seu primeiro álbum, Memórias, como se a formalização discográfica em nome próprio tivesse esperado o tempo longo da sua própria maturação. E, mesmo aí, a sua maior alegria não foi o retorno financeiro, mas ter conseguido pagar aos músicos, dar trabalho, cumprir com dignidade. Essa ética rara talvez seja uma das suas maiores lições.
Há, no entanto, um outro marco que merece ser celebrado e que, como tantas coisas importantes em Moçambique, passou quase em silêncio, o lançamento póstumo, em 2025, do seu songbook. Num país onde a oralidade sempre foi rainha, fixar a música em partitura é um acto de resistência e de futuro. Reunindo 20 canções de sua autoria, com letras, cifras e partituras, o songbook de Chico António não pode ser visto apenas como mais um livro de canções. É uma ponte entre gerações. É tecnologia ao serviço da memória.
Chico foi o segundo músico moçambicano a merecer tamanha honraria. Antes dele, apenas Fany Mpfumo havia alcançado esse reconhecimento. Figurar ao lado de Fany não é apenas uma honra; é, seguramente, uma inscrição na própria história da música moçambicana.
Num universo ainda escasso de recursos, iniciativas como esta, apoiadas por programas como o Pró-Cultura e viabilizadas por editoras comprometidas, são pequenas sementes destinadas a germinar em grandes frutos. Permitem que jovens músicos aprendam, reinterpretem, reinventem. Permitem que a música deixe de depender apenas da transmissão oral e ganhe permanência.
Chico António foi mais do que músico. Foi embaixador cultural de Moçambique, levando os nossos ritmos a palcos de África, da Europa e de além. Fê-lo em palcos de países como Cabo Verde, Guiné-Conacri, Zimbabwe, Dinamarca, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Portugal, Suécia e Noruega, expandindo a presença da música moçambicana muito para além das suas fronteiras imediatas. Mas fê-lo sem estridência, como quem sabe que a verdadeira grandeza não precisa de proclamação. Chico era dotado desse vocabulário luxuriante, entrelaçando palavras como fios preciosos, criando uma linguagem resplandecente em cada nota das suas músicas. No cinema, por exemplo, colaborou com Licínio Azevedo, um dos mais premiados realizadores nacionais, contribuindo para a trilha sonora e até para a representação no filme O Grande Bazar.
A sinopse era simples, num mercado popular da capital, dois meninos transitavam entre barracas, mercadorias, pessoas e situações, com objectivos opostos. Um deles procurava uma solução para recuperar o que lhe havia sido extraviado. O outro não olhava a meios e chegava mesmo a roubar para não ter de viver com a família. Apesar dessas diferenças, tornam-se amigos e, juntos, reinventam o mundo. Chico deixou-se tocar por aquela narrativa. Nela reconheceu um mundo que poderia ter sido o seu. Aceitou o convite, compôs a música e mergulhou fundo no seu universo. O realizador quase alterou a sinopse por causa do resultado da mistura do som com as imagens. Mais uma vez, sem alarde, apenas com entrega. O filme ganhou prémios, e Chico António orgulhou-se de ter colaborado.
Na despedida, naquele momento que ninguém esperava, todos foram unânimes nos seus elogios. Deus decidirá, por fim, a peregrinação de uma voz que é património nacional. Podem existir vozes daquela dimensão que se calam. Mas essas vozes não desaparecem nunca, apenas se transformam. Chico levou a sua voz para outros palcos, e nós continuamos a escutá-lo, vezes sem conta, ao longo do dia, pelos muitos meios que a tecnologia proporciona.
A voz de Chico António moldou-se em arquivos, em partituras, em memórias e nos estudantes que um dia o ouviram numa sala da universidade. Ficou também em projectos inacabados, como a escola de música que sonhava erguer na Manhiça, e em canções por gravar, suspensas no tempo à espera de quem as resgate. E, sobretudo, converteu-se em responsabilidade. Porque, como ele próprio disse, nos seus últimos dias, a vitória não virá de fora. Virá da amizade, da colaboração, do compromisso de cada um.
Talvez seja essa a maior herança de Chico António, a de lembrar-nos de que a cultura não é um luxo, mas um dever. E que cada nota, cada verso, cada gesto de criação é também um acto de construção nacional. Por isso, mais do que perguntar quem foi Chico António, importa perguntar, o que faremos nós com aquilo que ele nos deixou? Nesta celebração dos seus 66 anos, deve existir muito mais para celebrar.





