Moçambique aproxima-se de cinco meses consecutivos sem registo de novos raptos, um desenvolvimento que começa a ganhar significado político e institucional num país onde este tipo de crime marcou profundamente o ambiente de segurança durante mais de uma década.
Segundo dados da Polícia da República de Moçambique, o último caso registado ocorreu a 10 de Outubro de 2025. Desde então, não foram reportadas novas ocorrências.
O facto surge numa área que o actual Presidente da República, Daniel Chapo, colocou no centro do discurso político durante o processo eleitoral: o combate às redes de rapto que durante anos atingiram sobretudo empresários e comerciantes na região metropolitana de Maputo.
Entre 2011 e meados da década seguinte, dezenas de empresários e membros das suas famílias foram sequestrados por grupos organizados, num fenómeno que passou a ser apontado como um dos principais factores de risco para o ambiente de negócios no país.
Nos últimos meses, porém, começaram a surgir sinais de uma nova abordagem institucional.
Uma das mudanças mais relevantes foi a alteração da tutela do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), que passou do Ministério do Interior para a Procuradoria-Geral da República. A medida foi apresentada como uma forma de reforçar a articulação entre investigação criminal e acção penal no combate ao crime organizado.
A mudança institucional foi acompanhada por alterações na direcção do próprio SERNIC e por uma postura mais visível nas operações contra redes criminosas.
Entre os episódios que marcaram esta fase estão o esclarecimento do caso ocorrido no Hotel Polana e operações policiais em locais como a zona conhecida por “Estrela” e a área da “Praça de Touro”, frequentemente apontadas pelas autoridades como pontos associados a actividades criminais.
Para analistas de segurança, este conjunto de medidas sugere uma estratégia mais directa de combate às redes envolvidas neste tipo de crime.
Embora as estatísticas policiais indiquem cerca de uma dezena de ocorrências classificadas como rapto em 2025, a leitura dos casos conhecidos publicamente mostra que nem todos apresentaram o mesmo padrão altamente organizado dos sequestros empresariais que dominaram os anos mais críticos do fenómeno.
Ainda assim, alguns episódios mantiveram o perfil tradicional, incluindo o rapto de um comerciante no centro de Maputo em Junho e o sequestro de um empresário luso-moçambicano na baixa da capital em Outubro.
Desde então, porém, não voltaram a surgir novos registos. Para o sector empresarial, a ausência prolongada de casos começa a ser vista como um sinal encorajador. Durante anos, os raptos foram considerados um dos problemas mais sensíveis para o ambiente de investimento em Moçambique.
Se a tendência se confirmar ao longo dos próximos meses, o país poderá estar perante uma mudança significativa na evolução de um dos fenómenos criminais mais marcantes da última década.





