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12 de January, 2026

ALBERTO SITHOLE: Memória, Pensamento Político e Compromisso Nacional

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Passam 25 anos desde a morte de Alberto Sithole, militante de primeira hora da UDENAMO e posteriormente membro e dirigente da FRELIMO e quadro do Estado moçambicano no pós-independência. O tempo decorrido não apagou a relevância do seu percurso, muito pelo contrário, torna mais urgente o exercício da memória histórica.

Num país cuja narrativa tende a concentrar-se em figuras mais visíveis, Alberto Sithole representa aquela geração de combatentes e dirigentes discretos, mas decisivos, que sustentou o projecto nacional nos momentos mais exigentes.

Alberto Sithole nasceu na Beira, filho de Pumuiane Sithole e Mathonassi Sithole, a 18 de Maio de 1940. Nascido poucos anos antes do fim do outrora território majestático da Companhia de Moçambique, que em 1942 passou à administração directa de Portugal, Sithole socializa-se sob uma colonização, profundamente marcada por processos históricos de longa duração, incluindo as migrações e o trabalho migratório, as repressões laborais e o racismo coloniais. De outra parte, sujeito às ligações emergentes das igrejas protestantes da região de Manica e Sofala, Sithole vivenciou as novas dinâmicas sociais, econômicas, políticas e culturais que enformaram seu intelecto e consciência histórica da época.

Alberto Sithole, como seus companheiros, inicialmente da UDENAMO e depois da FRELIMO, pertence a uma geração política crucial de meados do século XX, fundadora dos movimentos nacionalistas na África Austral, nas Rhodesia, do sul e do norte, Niassalândia, Moçambique e Tanganhica.

Cresceu no contexto colonial adverso e de crispação, onde a exclusão racial, a exploração económica e a negação de direitos moldavam de forma intensa o quotidiano das populações africanas. Na cidade da Beira, teve o fundamental abrigo de seu irmão, enfermeiro José Marcos, que se casou com a senhora Arminda Rensamo Dhlakama, para fazer o ensino primário e secundário. Daqui partiria para Bulawayo – urbe pioneira de itinerância dos futuros nacionalistas moçambicanos -, depois para  Dar-es-Salaam e Lusaka.

Do ponto de vista intelectual, o percurso de Alberto Sithole é indissociável à linhagem do pensamento político cuja genealogia deriva de Columbus Kamba Simango (1890-1966). Kamba Simango foi um etnógrafo, missionário, músico, artista e activista da etnia Vandau e um líder político que desempenhou papel crucial que se desembocou no movimento nacionalista de Moçambique. A Beira colonial, cidade protonacional, legou à geração de Sithole experiências e memórias de protesto literário e associativo nativista, de que o Núcleo Negrófilo de Manica e Sofala, fundado por Kamba Simango, foi seminal.

Intitulado protonacionalista por Mário Pinto de Andrade, literato e nacionalista angolano, a memória de Kamba Simango, provavelmente o primeiro nativo da região de Manica e Sofala a receber título de doutor nos EUA, onde estudou nas universidades de Hampton e Columbia, Nova Yorque, delineou a imaginação da viragem histórica, que se tornaria gênese da revolução moçambicana.

As actividades de Kamba Simango e do Núcleo Negrófilo  de Manica e Sofala, bem como a afeição aos movimentos nacionalistas na Rhodesia do Sul, actual Zimbabwe, foram acompanhadas por vários jovens da região centro e influenciaram sua consciência política. Alberto Sithole e jovens como Filipe Samuel Magaia, Feliciano Gundana, Adelino Guambe, Urias Simango, Arão Nguenha e depois Lopes Tembe e tantos outros vivenciaram este fértil momentum intelectual e político entre Beira e Bulawayo, ganhando fôlego numa caminhada que os conduziria ao futuro de que foram actores chaves.

Chegado a Dar-es-Salaam (Tanzânia), a primeira sede da FRELIMO, Sithole frequenta o curso de relações internacionais que em termos profissionais se desencadeia em Lusaka, em 1964, junto de Jaime Rivaz Sigaúque e Mariano Matsinhe. E inicia a sua carreira nas relações exteriores, como representante da FRELIMO na Zâmbia. Recaia sobre si e aqueles seus camaradas uma árdua missão estratégica, a Zâmbia deveria servir às frentes de Niassa, (onde chegou a ser comissário político junto de Osvaldo Tazama, Óscar Kida, Odallah, Mandlichi, Katawala, Kachamila e outros combatentes)  e Tete; potenciar a FRELIMO com novos membros e ser a ponte extensa, para regionalizar a luta de libertação para a Zimbabwe e Angola.

A sua formação política e ideológica desenvolve-se no seio do movimento nacionalista, pan-africano e regional, num ambiente marcado pela consolidação do debate sobre os caminhos da libertação, a unidade nacional e o modelo de sociedade a construir após a independência.

Quadro respeitado, de perfil reservado, conhecido pela disciplina, lealdade e capacidade de reflexão estratégica. Manteve uma relação de proximidade com vários líderes, não sendo por acaso que fora afilhado do casal Eduardo e Janet Mondlane no seu casamento com Barbara Massikela, irmã do Hugo Massikela, sul-africano. Um dado que, para além do simbolismo pessoal, revela o grau de confiança política que lhe era reconhecido ao mais alto da direcção da FRELIMO.

Assim, Sithole foi consolidando sua visão de libertação nacional que articulava a centralidade na dignidade humana, a necessidade da unidade nacional acima de clivagens regionais ou étnicas, um Estado orientado para a justiça social, e não apenas para a conquista formal do poder.

Neste contexto, ele integra, sucessivamente, a primeira geração de 1964, da luta de libertação nacional, e fundadora do Estado Moçambicano em 1975, com jovens com quem partilhou o mesmo sentido da liberdade e da independência.

Na FRELIMO se consolidou o grupo que privilegiou o serviço ao projecto coletivo em detrimento da afirmação pessoal. Não eram políticos de palco, mas quadros de estrutura, ideologicamente conformados e fundamentais para a coesão do movimento e, mais tarde, do Estado.

Com a independência de Moçambique, Alberto Sithole assumiu responsabilidades como quadro sénior do primeiro Ministério dos Negócios Estrangeiros, consolidando sua carreira forjada na luta pan-africanista. Participando na construção da política externa moçambicana durante anos de grande complexidade, atravessados pela Guerra Fria e pela guerra civil interna.

Sob a direcção de Joaquim Chissano e junto de Lopes Tembe Ndelana, Shafurdine Khan, Rui Amaral, Carimo Varzina e outros camaradas do MNE, exerceu funções de Director da Divisão de África e Médio Oriente e Director do Núcleo de Apoio aos Refugiados. Seguiu depois nas funções de Governador da Província de Inhambane, num período particularmente sensível, em que era necessário simultaneamente governar, mobilizar as populações e transformar profundamente as estruturas herdadas do colonialismo.

Mais tarde, desempenhou funções diplomáticas como Embaixador de Moçambique na Etiópia, junto da então Organização da Unidade Africana (OUA), num contexto continental marcado pela luta contra o Apartheid, pelos processos de descolonização ainda em curso e pela afirmação de uma diplomacia africana solidária.

Foi neste processo que retornaria a Bulawayo onde privou com figuras como Dumiso Dabengwa e Phelekezela Mphoko, amigos pessoais que se tornaram dirigentes de alto escalão no governo de Robert Mugabe, tendo sido seu assessor nas negociações de Lancaster House, que determinaram a independência do Zimbabwe.

Importa referenciar seu momento âncora, quando em 1977 casou-se com Ana Rita Jeremias Sithole, professora e deputada no parlamento independente no país, com quem teve três filhos, a Lídia Salgethe Sithole, Alberto Tongane Sithole e Siganguene Pomulana Sithole. Antes, nos anos da luta de libertação, Alberto Sithole teve duas filhas, Charlotte Mundava Sithole e Ana Matongasse Sithole, com Maira Khumalo, cidadã zimbabweana.

Depois do casamento, Alberto Sithole seguiu para a Bulgária, onde realizou a sua formação em Ciência Política, ao nível de licenciatura, aprofundando os fundamentos teóricos que viriam a sustentar o seu pensamento político e a sua actuação no aparelho do Estado.

Alberto Sithole pertenceu à fina flor dos futuros diplomatas moçambicanos como seus camaradas Lopes Tembe, Isaac Murargy, Mussagy Jeichande e outros, que foram a espinha dorsal da diplomacia moçambicana.

Suas relações de amizade profunda com figuras como Mariano Matsinha, Feliciano Gundana, Joaquim Dai e importantes dirigentes do país teceram laços que, cinzelados na luta e aprofundados na governação, constituíam uma verdadeira rede de compaixão, diálogo político e reflexão estratégica, muitas vezes fora dos holofotes, mas decisiva para a estabilidade do jovem Estado.

Sua história, um legado pátrio, simboliza o percurso de um filho da terra que soube projectar uma origem simples num imaginário comum e destino maior no plano nacional, sem jamais romper com as raízes de nascença, gravadas na sua subjectividade intelectual e política. Para Moçambique, Sithole representa uma geração que acreditou profundamente na possibilidade de construir um país soberano, justo e solidário, rompendo com as condições adversas, onde a fala e o pensamento de liberdade eram violentamente cerceados.

Evocar Alberto Sithole, 25 anos após a sua morte, é um exercício de justa memória histórica. Um apelo à juventude de hoje, lhe recordando da história pátria e seus homens, para que compreenda que a independência e o Estado foram obras de homens e mulheres concretos, cujos nomes parecem menos ilustrados, mas decisivos pela seriedade, ética coletiva e espírito de sacrifício.

Diz o provérbio: “Enquanto os leões não tiverem os seus próprios historiadores, as histórias da caça continuarão a glorificar o caçador.” Recontar a história de Moçambique passa, inevitavelmente, por integrar figuras como Alberto Sithole, combatente, dirigente e pensador político na historiografia nacional.

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