Por: João Vaz de Almada
A Guiné, se não fosse uma tragédia, era uma comédia. Pensando bem, desde que foram inventadas pelos mestres do teatro grego, que ambas se tocam, revelando, muitas vezes, o absurdo da condição humana.
Na Guiné, as condições de vida das populações são, desde há muito, desumanas. A violência grassa praticamente sem cessar desde 1963, quando o libertador PAIGC deu o tiro de partida com o ataque ao posto Tite, no sul do país, iniciando a guerra colonial no território.
Dos três cenários de conflito que os portugueses enfrentaram durante grande parte da década de 60 e primeira metade da de 70, a Guiné foi claramente o mais violento. Tanto assim que chegou a haver uma corrente que defendia que se devia deixar cair a Guiné, uma vez que o sacrifício versus benefício não compensava. Mas, para a linha dura do regime, a África Portuguesa funcionava como um todo indivisível e indissolúvel. Para precedente já bastava a queda de Goa, em Dezembro de 1961, mas esta havia-se dado num contexto e numa geografia totalmente distintos.
Os guerrilheiros do PAIGC, com uma rectaguarda fortíssima em termos logísticos proporcionada pela vizinha de Conacri, movendo-se em reduzidas unidades, muitas delas constituídas por não mais de uma dúzia de homens, com grande conhecimento do terreno – o território é um labirinto de cursos de água – emboscavam o inimigo com uma simplicidade de processos que a todos espantava.
Neste Vietname português a taxa de baixas em combate, em termos proporcionais, foi muito superior à de Angola ou Moçambique. “Aqui [na Guiné] morreu-se e bem”, disse-me um dos Combatentes da Liberdade da Pátria que entrevistei em Bissau em Maio de 1999, quando o país vivia outro conflito armado que acabaria por derrubar Nino Vieira pela primeira vez.
Ao contrário da Frelimo em Moçambique ou dos três movimentos de libertação em Angola, o PAIGC, como resultado de uma correlação de forças que lhe era altamente favorável no terreno, empertigou-se e não teve pejo em declarar unilateralmente a independência do país desde as colinas de Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973, ainda a revolução de Abril em Portugal não era sequer uma miragem.
A reconhecida independência, sonhada por Amílcar Cabral, chega finalmente no mesmo dia do ano seguinte, 1974. Mas o sonho de Cabral – que havia sido assassinado a 20 de Janeiro de 1973, numa conspiração interna em Conacri – de unir Cabo Verde e a Guiné sob uma única bandeira – ele próprio era um produto dessa ligação, uma vez que era filho de cabo-verdianos nascido em Bafatá – revela-se torpedeado.
Os dois países seguiram, desde então, percursos muito díspares e, consequentemente, encontram-se em estádios de desenvolvimento diametralmente opostos. Enquanto Cabo Verde, após uma experiência de 15 anos de partido único, avançou rumo a uma democracia plena com eleições livres, alternância democrática, liberdade de imprensa e um dos maiores Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente – recentemente foi decretado pelo OMS como “país livre da malária”, sendo dos pouquíssimos em África – a Guiné estagnou, recuando mesmo em praticamente todos os índices.
Nos seus 36 mil quilómetros quadrados cabe uma violência monumental que lhe sai por todos os poros com golpes e contragolpes, um presidente – Nino Vieira – catanado às postas, três chefes-estado maior assassinados, bem como procuradores, juízes e outros opositores. Órgãos de soberania dissolvidos a bel-prazer por presidentes dementes, jornalistas perseguidos, imprensa estrangeira expulsa. Este é dia-a-dia da Guiné, um país minúsculo – falando em termos africanos –, com uma população com pouco mais de dois milhões de habitantes, que parecia, e poderia, ser facilmente governável. Mas não é.
Com fronteiras porosas e instituições cada vez mais frágeis, a Guiné tornou-se, a partir de 2000, uma placa giratória do tráfico de droga, sendo classificada pelo escritório da ONU de Drogas e Crime como um narco-estado. Uma das teses com maior credibilidade que tenta justificar a instabilidade político-militar e os constantes golpes, prende-se exactamente com as guerras pelo controlo do tráfico de droga entre as diferentes facções militares. Os actores e os interesses são tantos e tão obscuros que faz com que nem os especialistas consigam interpretar certas acções levadas a cabo por esta ou aquela facção, do que o exemplo mais recente foi o “golpe” do passado dia 26, quando a Comissão Nacional de Eleições se preparava para divulgar os resultados da votação das presidenciais e legislativas.
O ex-presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, um dos observadores internacionais do escrutínio, mostrou-se incrédulo, afirmando que a Guiné-Bissau havia inaugurado um novo género de golpe, ao qual deu o nome de “golpe cerimonial”, por ter sido o próprio presidente, Sissoco Embaló, a quem a contagem dos votos não corria de feição, a anunciá-lo, apressando-se, pasme-se, a telefonar para a publicação “Jeune Afrique” contando o que se estava a passar numa clara tentativa de vitimização. Uma comédia em quatro actos: anúncio do golpe, golpe, detenção e exílio.
Em Maio de 1999, quando estive na Guiné a cobrir da guerra – o conflito tinha tido origem em intrigas, traições, com acusações de tráfico de armas pelo meio – estranhei a quantidade de guineenses que sonhavam emigrar para Portugal. Pensei que tal desejo se devesse à guerra que tinha destruído grande parte do, já muito frágil, tecido social e de infraestruturas.
Infelizmente, hoje compreendo melhor a vontade dos martirizados guineenses. Quem quer viver num país sujeito aos humores de políticos e militares que fazem golpes por dá cá aquela palha? Quem quer viver num país onde a esperança num bem-estar mínimo há muito morreu? Quem quer viver num Estado falhado, sem cuidados de saúde mínimos, sem educação, sem justiça, sem instituições que defendam o cidadão? Quem quer viver num país que regride anualmente em todos os índices de desenvolvimento humano? Ninguém, claro.
*O título é uma alusão à obra “Crónica dos feitos da Guiné” escrita pelo cronista português Gomes Eanes de Zurara no século XV.





