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23 de September, 2025

O Amor nos tempos dos transportes “Oliveiras”

Escrito por

(Em jeito de homenagem a Xitonhana/Transportes Oliveiras)

04 De Outubro de 1992. A paz acabava de ser chancelada em Roma. As assinaturas de Chissano e Dhlakama também simbolizavam uma oportunidade para o progresso do amor de Valdemar e Râmula, selado, num dia de Janeiro de 1982, na terminal da cidade de Inhambane, quando Valdemar partia de machimbombo dos “Oliveiras” rumo a Maputo, a capital do país, onde passaria a viver e a prosseguir os seus estudos pré-universitário e depois a faculdade. A família também estava de mudança.

Durante uma década, em tempos de guerra, Valdemar e Râmula não se viram e do pouco que sabiam um do outro era de ouvir falar ou via postal. Nos últimos anos, antes da paz, e já com os sinais da sua aproximação, Valdemar deixara de receber notícias do seu amor. Neste período, Valdemar concluiu com sucesso os seus estudos e já se encontrava a trabalhar como economista numa instituição bancária. Nos seus cálculos já era tempo para constituir família e a paz de Roma dera a ele essa oportunidade.

Na manhã do dia seguinte ao acordo de Roma Valdemar foi a terminal dos “Oliveiras” que se situava nas proximidades do Matadouro Municipal, no bairro da Malanga, e apanhou o primeiro machimbombo com destino a cidade de Inhambane. Valdemar, literalmente sem notícias da Râmula, partiu cego ao encontro do seu amor.

No nostálgico trajecto da viagem, Valdemar revive que foi num machimbombo dos “Oliveiras” que o seu pai conheceu o amor que se tornou sua mulher numa viagem que o levava a Inhambane, a “Terra da boa gente”, em meados dos anos 60, depois de quatro semanas no Paquete Moçambique, vindo da Metrópole e com destino a então capital, Lourenço Marques.

Para Valdemar era um bom sinal o facto de seus pais terem também selado o amor de ambos nos “Oliveiras”, o que era mais uma prova evidente de que ele era mesmo igualzinho ao pai. Se com o pai deu certo, terei a mesma sorte? Pensava Valdemar, enquanto escorria o seu olhar pelo verde da natureza das margens da N1, a principal estrada nacional.

Na paragem de Quissico, Zavala, Valdemar desceu do machimbombo e ficou o tempo previsto a contemplar, do miradouro, a bela paisagem das Lagoas de Zavala. Na intensidade da troca de olhares com a natureza, a determinação de que logo que chegasse a cidade de Inhambane pediria a Râmula que se casasse com ele. Na despedida das lagoas, Valdemar acenou um “até breve”, imaginando que por lá passaria a lua-de-mel com a Râmula, o seu eterno amor.

A viagem de Valdemar a Inhambane corria normalmente. No rosto dos passageiros a alegria de retomarem as viagens interprovinciais em ambiente de paz depois de tenebrosos 16 anos de guerra. Foi interessante o momento em que o machimbombo dos “Oliveiras” cortou a fronteira entre as províncias de Gaza e Inhambane e os passageiros, que mal ou pouco se conheciam, envolveram-se em excitados e íntimos abraços como se fosse o primeiro dia da independência do país.

Nas proximidades da cidade de Inhambane, toda a cidade estava a caminho da terminal. Era o primeiro “Oliveiras” dos novos tempos de paz e todos estavam na cega expectativa que um familiar ou alguém conhecido chegasse e até por uma simples curiosidade. Entre os que lotavam a terminal estava Râmula, a namoradinha da adolescência de Valdemar e que juntos, há dez anos, haviam selado com juras e sonhos o amor eterno.

Valdemar foi o último a descer do machimbombo. Râmula vi-o, mas evitou o contacto do olhar. Valdemar, enquanto esperava a bagagem, sentiu que o aroma no local tinha a fragância do amor da sua vida. Por coincidência, e de bagagem às costas, Valdemar caminhou na direcção de Râmula, que se apercebendo da aproximação, sorrateiramente saiu. Valdemar seguiu-a.

Em um dado momento, e desconfiado, Valdemar chama suave pelo nome dela. Com a chamada, ambos param. A separação era de uns quatro ou cinco metros, mas o suficiente para que cada um ouvisse a batida do coração do outro. Estavam na calçada defronte ao portão principal do mercado municipal.

Depois de um breve silêncio que cortou a cidade, Râmula toma coragem, vira-se e balbucia: “Val!”. No momento da virada, Valdemar repara que Râmula, o seu eterno amor, estava grávida e ela, por seu lado, não escondeu que se apercebera da inércia de Valdemar quando este iniciara a descida para um abraço e determinado a cumprir o que decidira, horas antes, no miradouro das lagoas de Zavala.

“Desculpa, Val!”. Um pedido que Râmula liberta das profundezas da inocência e que acompanhado de lágrimas, as mesmas que se soltaram dez anos antes na despedida de Valdemar quando da sua partida de “Oliveiras” para a capital. Seria a iminência de uma outra, e desta vez, definitiva despedida?

Valdemar, imbuído de uma luz que nunca antes sentira, aproximou-se de Râmula. Esta tremia e aos soluços jorrava cada vez mais lágrimas. Diante de Râmula, Valdemar tirou da sua algibeira um lencinho branco que o usou para enxaguar as lágrimas da sua eterna amada, ora grávida de uma outra pessoa.

Quando acabou de enxaguar as lágrimas, Valdemar fez questão que Râmula ficasse com o lencinho que ao dobrar, para guardar na bolsa, ela nota a inscrição R&V, as iniciais dos seus nomes. Quando a Râmula faz a última dobra do lencinho repara que à caneta, e do punho de Valdemar, estava acrescentado: “Casa comigo, amor!”.

Consciente de que fora pedida em casamento, novamente as lágrimas no seu rosto. Desta vez Valdemar foi o Val: secou as lágrimas da sua amada, escorrendo suave os seus lábios desde a foz salgada do rio até a quente nascente.

O que Râmula teria respondido? Eu tive que aguardar perto de dez minutos de publicidade para poder saber. Valdemar contava na TV a sua história de amor em tributo ao amor, no caso aos amores que partiam e chegavam nos tempos dos transportes “Oliveiras”.

De regresso, a música de fundo do programa era “Anda Comigo Amor” do cantor português David Carreira: “Anda Comigo amor/ Prometo que vou cuidar de ti/E se ainda achares pouco amor/Dou-te a melhor versão de mim/…”. Ainda com a música de fundo a correr fiquei a saber do desfecho, começando pelo casamento e a lua-de-mel que Valdemar e Râmula passaram acampados nas Lagos de Zavala, em janeiro de 1993.

O filho de Râmula, que Valdemar assumiu, ainda no ventre, nasceu no mês de Abri de 1993. O casal depois teve gémeos, um casal, em 1995. Os pais de Râmula nunca aceitaram o namorico de Valdemar com a filha e nos dez anos de separação de ambos, eles tudo fizeram para que Râmula esquecesse o Valdemar, incluindo um forçado amor do oriente, o pai biológico do primeiro filho da Râmula.

Em 2007, quando os Transportes “Oliveiras” anunciaram que fechariam definitivamente a empresa, Valdemar havia concorrido e ganho uma posição de destaque num banco renomado da praça e que por conta do cargo teria que fixar residência em Maputo.

Em finais de Outubro de 2007, Valdemar e Râmula, os três filhos e os pais de Valdemar fizeram questão de apanharem a última carreira dos transportes “Oliveiras” da rota Cidade de Inhambane-Cidade de Maputo. No percurso da “última andorinha” corria e ficou eternamente gravado, em tributo, o amor de várias gerações que gravitaram nas carreiras dos transportes “Oliveiras” por mais de cinco décadas.

O programa terminava e sob o olhar aguado de felicidade dos seus filhos, noras e netos, e dos pais de Valdemar, Râmula e Valdemar dançavam, em doce abraço, David Carreira. A apresentadora, aos prantos repetia “O amor é lindo!”. Os que assistiam no estúdio não conseguiam disfarçar os olhos esbugalhados. Em casa, e do nada, eu também estava silenciosamente aos prantos. “La Vie Est Belle” diriam os franceses.

PS: No passado dia 5 de Setembro, a notícia da morte do senhor António Oliveira (Filho), vulgo Xitonhana, o último gerente e filho do fundador da extinta transportadora de passageiros “Oliveiras” trouxe-me à memória histórias de amor que partiam e chegavam nos machimbombos desta companhia durante os anos em que ela operou (1954-2007) no Sul de Moçambique, incluindo os 16 anos de guerra que assolaram o país depois da independência.

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