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23 de September, 2025

Meu coração vai parar

Escrito por

Podem fechar as vossas fábricas de xivothxongo, estou pouco me lixando. Sou como os gatos, refocilo em cada golpe. Já me mataram em Xitima e eu sublevei-me e estou aqui, bebendo como sempre bebi, a cerveja dos meus antepassados, o pombe. Sem a cachaça eu sossobro, é o único unguento que tenho para vos ignorar e esquecer as feridas vivas em mim causadas por vocês. Bebo, sim, e estou morrendo de bebida. E vocês vivendo da minha desgraça.

Podem fechar as vossas fábricas de xivothxongo que nem deviam ter existido. Fechem essa merda e deixem-me em paz. Mas não se esqueçam de me atirar a última gota de cianeto que ainda enche os armazéns. Façam isso! Matem-me mais um pouco, ainda tenho sangue a correr no fígado putrefacto, ainda não dei o último suspiro.

Sou um cão vadio, e uma das minhas vocações é latir de dor nas madrugadas quando o corpo, alagado de demora e ressaca por desidratação, me pede mais álcool. Eu sei que cada gole é uma dose letal, eu sei. Mas em cada gole desperto os meus demónios que se regozijam à minha volta dançando a dança da minha morte. Eu também danço com eles.

Sou um cão fugindo de mim como um barco com velas enchidas pelos ventos do norte, que não movem moinhos. Dá-me prazer a morte que goteja lentamente sobre a minha carcaça, todos os dias. Quer dizer, quanto mais embriagado eu fico, mais quero beber. Mas isto não é alucinação, é lucidez. É por isso que não paro de beber, assim fortifico a minha armadura contra a vossa chacota, contra a vossa gozação.

Ainda ontem rebentaram o olho do meu amigo, o Khwambe Makwandra, só porque é culto, fala bem. Gosto muito dele, é um palestrante inconformado. Sinto muitas vezes que nele há um poeta do tipo Salmos, tudo o que ele fala é uma composição musical, é doce. Então há quem lhe chamou de sabichão e partiu-lhe o olho, assim mesmo, com uma garrafa.

Foi a primeira vez que tomei banho com sangue. Carreguei o meu amigo, juntamente com outros companheiros daquele infortúnio onde bebíamos aguardente caseira a potes, para o hospital. E Khwambe ficou lá, de baixa, e eu já não voltei para o mesmo lugar, procurei outra sinagoga.

Podem fechar as vossas fábricas de xivothxongo, estou pouco me lixando! Mas eu sei que encontrarão outra forma de matar os meus irmãos que já calcorreiam as últimas jardas com o corpo cozido pelo veneno, como eu também, que estou à entrada do cadafalso. Não importa, quero continuar a morrer, esta vida é pior que a morte. Esta vida é uma falésia. O que tem lá em baixo são espigas de aço à minha espera.

Ora! Gostaria de gritar aproveitando o último oxigénio que ainda me sobra nos pulmões, mas um cão vadio como eu não grita, mesmo que gritasse ninguém me ouviria. Então deixe-me dançar as últimas batucadas do meu coração que vai parar daqui a pouco.

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