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Actualizado de Segunda a Sexta

19 de September, 2025

E a mobilidade ficou órfã, escreve Silva Magaia

Escrito por

Homenagem ao Amade Camal: enorme e incompreendido

PREÂMBULO

“aqui outra vez os homens desta terra

dançam as danças do tempo da guerra

das velhas tribos juntas na margem do rio”.

José Craveirinha, in Xigubo

Afinal? Quando ainda ontem postei no meu estado partes do teu sonho adiado, então aquilo era o Adeus esperado?

Maldita saúde traiçoeira. Assim morreu o sonho, morreu a mobilidade esperada.

Mas tu não: aprendemos contigo, no Cinema Olímpia, que o artista principal nunca morre.

INTRODUÇÃO

E a vida curva as suas milhentas mãos

geme e chora na sina

de plantar nosso suor branco

enquanto a estrada passa ao lado

aberta e poeirenta até Gaza e mais além

camionizada e comprida

José Craveirinha. Karingana ua Karingana. Sementeira.

A cidade e a aldeia, o urbano e o campo exibem ligações antagónicas que estabelecem uma desordem conflituosa nesses dois espaços. O campo desertifica-se e a cidade ingurgita-se. As trocas que os transportes possibilitam, entre esses dois espaços, são desastradas e desorganizadas.

Este estado de coisas incomoda. A natureza foi brutalmente agredida e molestada. A tristeza invade o campo e a quimera a cidade. O mundo manifesta-se numa paisagem apocalíptica e a angústia instala-se nas mentes. A entropia cósmica domina, traduzindo uma tendência para a degradação, para a desorganização e para uma diminuição da liberdade de um modo contínuo e generalizado que nos atrofia até à consequência, à morte.

Felizmente, pelo facto de existir a lenta degradação e perda de liberdade, nasce e cresce o reino do espírito e das liberdades interiores. Surgem, assim, possibilidades criadoras e poderes inesperados. As acções revelam uma tendência para a elevação do espírito e da consciência. Nestas circunstâncias, em todos os fenómenos e decisões, as informações e os conhecimentos complementam-se, garantindo combinações cada vez mais variadas e seguras que nos garantem a presença sinfónica, harmoniosa e funcional das novas condições, num horizonte mais vasto de grandeza e felicidade.

Hoje o tráfego urbano significa desordem e confusão. A circulação no amanhã será organizada e harmoniosa: trânsito separado para peões, ciclistas, veículos ligeiros, semi-pesados e pesados. Estacionamento fora das pistas de circulação. Estradas a diversos níveis com espaços intermédios ocupados por unidades de trabalho e de lazer.

Na inconstância do futuro, as coisas mudam rápida e drasticamente. Nestas condições, o homem apenas tem uma alternativa: procurar apoios eternos! Entre eles destaca-se a cultura.

A cultura jamais morrerá. A estrada faz parte da poesia de José Craveirinha, que a revela na verdade fonte das suas palavras. Os desenhos de Mankeu e as pinturas embrionárias da Sinagoga Escola de Artes Visuais acrescentam valores ao seu entendimento. As sinfonias que acompanham como pano de fundo esta colectânea de criações revelam a dinâmica da estrada. Justifica-se, deste modo, a utilidade prática destas contribuições. Através delas, a estrada deixou de ser uma natureza morta para constituir um organismo tecnicamente vivo.

Os cenários que se descrevem a seguir pretendem visualizar uma pequena parte da vitalidade orgânica das estradas. A parte mais significativa vive na própria estrada.

PRIMEIRO CENÁRIO

4 km/h

A vasta região rural de Moçambique, devastada pelas guerras que a assolaram até meados da década 90, começa a repensar o progresso técnico. Beethoven, ao justificar a 6a sinfonia, refere que a criou “mais como uma expressão de sentir do que descrever”. Ocorre-nos sugerir aos leitores e estudiosos da urbanização rural que no seu trabalho tenham como música de fundo a “Pastoral” de Beethoven. Os seus cinco andamentos: “O despertar de alegres sentimentos ao chegar ao campo”, uma “Cena junto do regato”, uma “Alegre reunião de camponeses”, uma “Tempestade” e um “Canto de acção de graças depois da tempestade”. Cinco episódios que permitem sentir o ambiente rural com que os engenheiros da urbanização rural devem lidar nos seus projectos. A sugestão tem por objectivo combater a burocracia que caracteriza hoje, infelizmente, a maior parte dos projectos de estradas, sejam elas de terra ou pavimentadas.

PRIMEIRA OBRA: O CAMINHO DE PÉ POSTO

Sra D. Josefina Amélia dos Prazeres Santos Tembe

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ia à cidade de Maputo vender

uma trouxa de 8 couves

José Craveirinha. Babalaze das Hienas. Trouxa de 8 couves

Na nossa prática social temos coisas para dar e coisas para receber. As nossas necessidades não se conciliam com as nossas disponibilidades. Esta contradição resolve-se por meio das trocas que os transportes possibilitam. As estradas, fazendo parte dos transportes, resolvem, em determinadas circunstâncias, a contradição entre o que temos para dar e o que temos para receber.

O caminho de pé posto constitui a primeira fase das estradas de terra e faz parte integrante do espaço e do ambiente rural. A sua velocidade característica de 4 km/h terá de ser considerada na inadiável urbanização do campo e no despertar da agricultura.

O cenário característico do caminho de pé posto envolve o agregado familiar numa operação de permuta. A imagem familiar e frequente, para quem conhece o campo, apresenta o chefe da família armado de azagaia, arco e flechas, em fila indiana com um dos filhos conduzindo pela mão, amarrados, um ou dois animais, e, por último, a mãe com um filho às costas, outro no ventre e uma cesta à cabeça.

O caminho de pé posto apresenta-se com uma estrutura frágil, altamente vulnerável à água. As primeiras chuvas rapidamente o tornam intransitável, obrigando os utentes a mudarem de trilho procurando as zonas mais altas aonde as águas ainda escoam, drenando o novo trajecto. Por último, na hipótese de existirem cumeadas, para lá se dirigem utilizando um caminho mais longo, sinuoso e incómodo devido ao acidentado do terreno. Quando a linha de cristas está longe, o homem fica isolado até as chuvas pararem, no habitat que é seu, mas onde até hoje mandam as leis da natureza.

A urbanização do campo terá de considerar a rede de circulação de peões, com dimensões e itinerários necessários. Os caminhos que lhe dizem respeito providenciam o acesso à rede de estradas locais. As pastagens, os cereais, as raízes, os tubérculos, as hortícolas, os pomares e as lagoas são espaços da produção agrícola que são drenados por caminhos de pé posto. Estas vias elementares terão de ser concebidas no âmbito de uma velocidade de 4 km/h.

A deserção do campo e consequente sobrelotação das cidades pode ser combatida ou mesmo invertida eficazmente com a urbanização rural, na qual os transportes desempenham um papel essencial desde que possibilitem uma ligação fácil, rápida e cómoda com a urbe.

Estes acontecimentos rurais parecem iminentes e vão modelar o futuro para que a vida do campo seja atraente: uma alegre reunião de camponeses!

Este cenário que nos ocorreu, certamente faz-nos despertar alegres sentimentos ao chegarmos ao campo, como Beethoven sentiu na sua época. Fazemos votos para que isto aconteça no nosso futuro imediato.

SEGUNDO CENÁRIO

50 km/h

A transição do campo para o meio urbano faz-se com estradas de terra. A “Sinfonia pastoral” do compositor moderno inglês Ralph Vaughan Williams traduz uma renovação da música romântica para a moderna em que se podem distinguir as inovações que o campo, no mundo de hoje, apresenta. A Sinfonia, de extraordinário contorno estético, permite-nos antever uma futura urbanização rural harmoniosa e lógica que nos maravilha e entusiasma.

A ESTRADA DE TERRA

Madjone-jone Justino Manuel Sitoi

Emprenhou de quinquilharia seu camião Toyota

E, saudoso, regressou

José Craveirinha. Babalaze das Hienas. Estrada Nacional Nº 1

As estradas de terra podem classificar-se em dois grandes grupos: estradas de baixo custo e estradas economicamente viáveis. As primeiras são obras que têm em conta as condições climáticas, geotécnicas e de tráfego, e executam-se mais de acordo com as verbas disponíveis do que propriamente com as suas características técnicas. As segundas, pelo contrário, só se realizam se houver recursos financeiros que suportem as suas exigências técnicas.

As estradas de terra de baixo custo incluem a picada, a picada melhorada e a estrada de terra. As estradas de terra aperfeiçoadas, economicamente viáveis, são estradas feitas com uma drenagem concebida em termos hidráulicos e hidrográficos e normalizadas geotécnica e geometricamente. As estradas de terra permitem suportar um tráfego máximo de 400 veículos por dia, com um limite adicional de 60% de veículos pesados, a partir do qual terão de ser pavimentadas.

TERCEIRO CENÁRIO

100 km/h

O desgaste e os estragos causados pelo tráfego inviabilizam a estrada de terra. Assim, as estradas rurais e interurbanas requerem, neste terceiro cenário, pavimentos. Os 100 km/h são agora soberanos.

A ESTRADA PAVIMENTADA

Fora

O cacimbo enche a noite africana

De trevas brancas

E os faróis do Buick abrem

Caminho à força

José Craveirinha. Karingana ua Karingana. 2º Ode ao Inverno

George Gershwin, na sua “Rapsódia em Blue” com uma forte influência do “Jazz”, traduz bem o ambiente movimentado e dinâmico da estrada pavimentada. A música moderna constitui o resultado de um processo evolutivo, ancestral, da arte de compor. De igual modo, os pavimentos modernos são o resultado de intensas e ousadas investigações através dos tempos no domínio vasto da engenharia dos transportes.

Evidentemente nem toda a música moderna, o “Jazz” e o “Rock”, tem qualidade. Tal como acontece noutras áreas, os maus artistas são aos montes e com eles os oportunistas, especuladores e os trapalhões, infelizmente, aproveitam a confusão que caracteriza a nossa época em que tanta coisa nova aparece para se elegerem os únicos representantes imparciais, omniscientes e soberanos das novas concepções, formas e tecnologias. E como os prémios também estão à venda, os medíocres aparecem repetidas vezes condecorados em público pela sua ousadia e falta de vergonha.

Os pavimentos, tal como as estradas de terra, sofrem uma evolução faseada. O pavimento segue-se à estrada de terra aperfeiçoada. No caso de a estrada de terra ter sido bem concebida, a sua plataforma passará a constituir a base do pavimento. Nas regiões onde não haja solos mecanicamente estáveis, a plataforma da estrada de terra possuirá, pelo menos, solos que possam ser estabilizados quimicamente. Por isso as estradas de terra devem ser concebidas tendo sempre em vista que mais tarde serão pavimentadas.

MOBILIDADE URBANA E SAÚDE

Todas as semanas, quase todos os dias, vemos na imprensa notícias trágicas, de múltiplas famílias que vêem agravada a sua condição de pobreza devido à perda precoce e evitável de parentes que tanto contribuíam para a renda familiar. A palavra chapa devia deixar de ser escrita entre aspas, tal é a naturalidade com que passou a pertencer ao nosso léxico.

Em Março de 2014, Paris, uma das mais históricas e emblemáticas cidades europeias, viu-se obrigada a oferecer durante três dias transporte público gratuito aos citadinos como forma de reduzir o número de veículos privados nas vias e baixar os níveis de poluição do ar. No mesmo período, o sistema de aluguer de bicicletas localmente conhecido por Vélib ofereceu uma hora de utilização gratuita a quem o desejasse.

O Mundo em que nascemos, rural, está a tornar-se rapidamente urbano. Os sintomas são o aumento da proporção da população mundial vivendo em cidades e vilas e a transfiguração do espaço físico, com o verde a ser substituído pelo cinzento característico do cimento e do betão.

No entanto, nem tudo vai mal. Com o passar do tempo, por exemplo, o mesmo mundo onde nascemos, então fascista e colonialista, está a tornar-se cada vez mais democrático. Algumas evidências no contexto de Moçambique são, por exemplo, o maior acesso dos nativos à educação e, também, às cidades; o reconhecimento da actividade informal pelas autoridades; a acumulação de riqueza pelos pequenos empreendedores habitantes da periferia que assim se libertam da dependência dos sistemas informais de transporte – os chapas –  passando a ter acesso a viaturas próprias adquiridas maioritariamente na Ásia.

Esta conjugação entre o bom e o mau tem obviamente as suas consequências, sendo as mais imediatas o crescimento exponencial do parque automóvel e a consequente redução da segurança rodoviária, a ocorrência de frequentes e sistemáticos engarrafamentos nas vias, a escassez de espaços de estacionamento, o aumento da poluição sonora, atmosférica e visual – uma paisagem estranha marcada por minúsculos corpos metálicos imóveis, contraposta à imagem rural duma carroça puxada por um casal de bois subindo lentamente as encostas da montanha.

Nas principais cidades moçambicanas, os políticos e seus engenheiros de transportes optaram por algumas soluções rápidas e pouco fundamentadas, consequentemente paliativas. Impõem o alargamento das vias e a construção de novas estradas, com financiamentos que deviam ser orientados para outras prioridades como o saneamento e a educação, e promovem a introdução de sentidos únicos de circulação convencidos de que, por si sós, estas medidas conseguirão descongestionar as vias. Não sendo soluções no verdadeiro sentido, estas artimanhas criam apenas a ilusão temporária e necessária de se estar a trabalhar, enquanto perpetuam as causas principais dos problemas de saúde pública no meio urbano.

Para contornar a situação, durante a divulgação deste trabalho lançámos um desafio aos investigadores para se debruçarem sobre temas como “Efeitos na saúde provocados pela permanência prolongada numa viatura à baixa velocidade, combinada com poucas horas de repouso nocturno, ansiedade e inalação de gases de escape”, entre outros.

CENÁRIO DO FUTURO

200 km/h

A prospectiva criada por Gaston Berger absorve cada vez mais as nossas atenções e faz parte dominante das nossas preocupações. Ao explicar-se, este notável homem escrevia: “Em relação ao passado, o presente constitui um triunfo cujo orgulho nos exalta, ou um fracasso que clama vingança” e acrescenta: “A razão dos nossos actos está à nossa frente”.

Em relação ao futuro, o presente manifesta-se com toda a sua frescura: é um presságio, um indício, um meio, uma ameaça, uma promessa. Ao contrário do homem adulto que envelhece e morre, a humanidade rejuvenesce como uma eterna criança.

O nosso mundo está em constante movimento. À custa do sol, desenvolve as trocas e adquire todos os dias novos poderes. Tudo isso são sinais de juventude. Ao homem moderno oferecem-se uma infinidade de escolhas, o que significa que estamos em presença de um universo que não está acabado, possivelmente ainda no seu começo.

As imagens do futuro vêm sempre acompanhadas de sons. “O Rito da Primavera” de Stravinsky, o compositor clássico com maior influência na música moderna, ocorre-nos ao pensamento. No início da sua carreira, os amantes da música daqueles tempos repudiaram a sua prospectiva das harmonias do futuro. Como sempre, tudo o que é novo provoca resistência à mudança. A sua interpretação dos ritos pagãos da Rússia, sua terra natal, assemelha-se hoje à preocupação de todos nós ao testemunharmos os perigos a que a Terra em que vivemos está sujeita. A sua “suite” está dividida em duas partes: “A adoração da Terra” e o “Sacrifício”. Acontece que hoje, se quisermos salvar a Terra adorada onde nascemos, vivemos, crescemos e morremos, temos de nos preparar para a entregar aos nossos filhos e netos duma melhor forma. E para que isso aconteça, precisamos de fazer vários sacrifícios.

O ambiente prospectivo que antevemos conduzirá a humanidade para mais saúde, equilíbrio, harmonia, beleza e segurança. Reintegrar a natureza na nossa vida, encorajar o renascimento do mundo rural e implementar uma política de transportes que traga para o nível da estrada a eficiência do caminho-de-ferro, da aviação e das vias marítima e fluvial são os aspectos essenciais desta nossa profissão de inventores.

Algumas soluções promissoras que sem serem novas já provaram o seu valor e podem ser importadas dalgumas partes da grande aldeia em que se transformou o mundo são:

• A adopção de processos inovadores de planeamento urbano – o bairro de Vauban, na periferia da cidade de Freiburg, Alemanha, é um exemplo e foi propositadamente concebido para ter uma única rua larga, onde circula o transporte público urbano;

• A devolução da cidade aos seus donos: Enrique Peñalosa tornou-se mundialmente conhecido enquanto foi Edil de Bogotá, Colômbia, por ter adoptado medidas de requalificação urbana que promoveram a mobilidade e a circulação, reduziram a criminalidade e melhoraram a convivência e a saúde da população. Nos seus discursos públicos afirmava repetidamente que “a cidade não são as infra-estruturas, muito menos as viaturas. São as pessoas. Por isso os planos de urbanização devem ser concebidos e desenhados a pensar prioritariamente nas pessoas, não nos edifícios e vias”.

• A requalificação das “velhas” cidades para incorporarem vias dedicadas a transportes de massas, rápidos, confortáveis, baratos e pouco poluentes, incluindo a reserva de faixas dedicadas a peões e ciclistas. O chamado BRT, feito a tempo, pode ser uma solução de transição para os países de economias emergentes como Moçambique.

EPÍLOGO: A ESTRADA AÉREA

Cresce a semente

que a povoação plantou curvada

e a estrada passa ao lado

macadamizada quente e comprida

e a semente germina

José Craveirinha. Karingana ua Karingana. Sementeira

Aventa-se uma prospectiva de longo prazo, “um sonho” para os meados do primeiro século do novo milénio. Faz-se um prognóstico partindo de pressupostos ainda sem fundamento científico, mas baseados em testes de hipóteses coerentes e nalguns exemplos existentes. Advoga-se a convivência harmoniosa entre a Natureza, o Homem e a Estrada.

Afinal, e aparentemente, uma forma eficaz de separar os meios de locomoção nestas circunstâncias foi conseguida pela aviação, se bem que aos custos que se adivinham. No entanto, as vantagens das “vias aéreas” são inúmeras, desde a possibilidade de manter velocidades mais regulares e ganhar tempo, até à redução dos riscos de acidentes ao mínimo índice que as estatísticas podem assegurar.

Manutenção e tipos de estradas

À partida, pode parecer não haver qualquer ligação entre o assunto aqui tratado e os problemas de manutenção. No entanto, se analisarmos a manutenção nas suas várias vertentes iremos facilmente constatar que existe de facto uma ligação estrita entre a forma, o uso e os processos de desgaste. Mais, associando o termo “manutenção” ao conceito de sustentação chegaremos, mais adiante, a conclusões interessantes.

Do ponto de vista financeiro, pode-se insinuar que se consegue alguma economia reduzindo a superfície de apoio; significa a adopção de bases ou fundações “localizadas”. Assim reduz-se drasticamente o volume de trabalhos de terra e a manutenção de rotina resume-se a determinados pontos da estrada e não a toda ela, com a vantagem de não implicar grandes perturbações ao tráfego. Por outro lado, os efeitos da existência da estrada nos potenciais utilizadores da terra, bem como os seus impactos ambientais, são menos problemáticos. A visão que resulta destas vantagens é um sonho com estradas aéreas, pênseis ao longo de todo o percurso.

Estradas Aéreas

São pavimentos elevados, semelhantes aos viadutos e às pontes, com bastante flexibilidade, acomodando melhor os efeitos dinâmicos do tipo de solicitação que representam os veículos circulando à grande velocidade e transportando cargas enormes.

O revestimento do piso, em betão, é mais simples e barato por fazer parte da estrutura, desempenhando com excelente rendimento e baixa manutenção o papel de superfície de rodagem.

Não atravessando áreas habitadas não há necessidade de precauções especiais, permitindo a prescrição de limites de velocidade mais altos, o que reduz os tempos de viagem. Por outro lado, dispensam obras especiais no atravessamento de cursos de água ou zonas alagadiças e o seu uso jamais será condicionado pelos efeitos das cheias cíclicas: a passagem por vales e zonas baixas faz parte da rotina na própria concepção da estrada.

A discussão que resta é sobre os seus custos e estética. Vamos abordá-las economicamente sem introduzirmos valores, e esteticamente analisando a valorização e enriquecimento que trazem ao ambiente.

Viabilidade Económica das Estradas Aéreas

Globalmente a obra exige sem dúvida grandes investimentos. Mesmo assim atrevemo-nos a compará-la com as estradas convencionais pelas razões referidas nos primeiros três cenários desta obra.

Um factor importante a considerar é o tipo de utilizadores, sem dúvida melhor preparados para pagar esta forma de exclusividade. Esperam-se assim maiores rendimentos provenientes das portagens, logo uma capacidade de auto financiamento à manutenção de rotina, para além da reposição, a médio prazo, do investimento inicial.

As vantagens económicas e ecológicas são também óbvias. Às menores áreas de apoio correspondem menores custos de manutenção. Reduz-se drasticamente a parcela mais cara da estrada de longo curso – os trabalhos de terra e os seus equipamentos caríssimos. Há uma menor intervenção sobre as áreas produtivas e sobre o ambiente. Reduz-se a ocorrência de conflitos de terra, a necessidade de indemnizações e a frequência das intervenções com reparações.

É claro que se colocam desvantagens, também óbvias, como sejam os danos acrescidos em caso de acidente, o elevado valor do investimento inicial, os custos especiais dos nós e derivações entre destinos e, finalmente, a paisagem “estranha” para alguns não futuristas; a esta última “desvantagem” contrapomos uma imagem virtual do que seria a visão dessa paisagem. Lembrem-se que estamos a falar duma época por vir algures no novo milénio…

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Vista virtual da Avenida “Baía” ligando Marracuene, Maputo e Matola.

Desde o início, desde a Pré-História, o Homem das cavernas desenhava inconscientemente nas paredes e pedras perfis magníficos, instintivamente belos. Ao ganhar consciência e racionalidade, o Homem moderno percebeu que o sentido estético exprime a qualidade de uma sociedade e das suas realizações.

O ambiente criado pela presença e utilização de objectos harmoniosos representa factores de elevação, de desenvolvimento e progresso do Homem. Hoje ninguém admite obras feias. A arte de construir mudou tão substancialmente que influenciou e modificou a concepção geral das coisas. As novas ideias e realizações dos arquitectos, dos engenheiros e dos seus clientes tendem a tolerar, na sua actividade, apenas as obras de qualidade irrepreensível e com um aspecto que satisfaça o bom gosto e o sentido estético, graças a uma combinação feliz da sua função e da aparência que a sugere. Podemos afirmar com toda a certeza que uma obra bem concebida esteticamente garante sempre a estabilidade e segurança, a permanência e a economia. Felizmente, hoje o computador libertou o engenheiro das tarefas mecânicas que o cálculo manual exigia no passado, dando-lhe mais tempo para se dedicar à concepção e discussão das opções de forma e informação visual: a estrada aérea oferece assim uma oportunidade única, introduzindo novas silhuetas de forte cunho estético, ao contrário das desastradas e horrendas cicatrizes cavadas na terra pelas estradas cruzando horizontes, em especial as auto-estradas.

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