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14 de September, 2025

Feminicídio em Moçambique – Yumily Mara e Natália Ernesto: rostos de uma tragédia que não pára de crescer

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Moçambique continua a viver dias de luto e indignação perante a escalada de crimes violentos contra as mulheres e raparigas. Em diferentes bairros e cidades, multiplicam-se os relatos de assassinatos brutais, violações sexuais e corpos abandonados, numa onda de feminicídios que tem exposto a vulnerabilidade das mulheres e a falência das respostas de protecção. Entre as vítimas mais recentes estão Yumily Mara, de apenas 13 anos, e Natália Ernesto Macheve, de 19 anos, cujas histórias dramáticas se tornaram símbolos de uma tragédia nacional.

Yumily Mara, 13 anos, corpo abandonado no rio

O episódio mais recente é o de Yumily Mara, adolescente de 13 anos residente em Malhampsene, distrito da Matola. A menina desapareceu no sábado, 6 de Setembro, depois de ter sido vista pela última vez nas imediações da sua residência. Durante dias, familiares e vizinhos procuraram por sinais que indicassem o seu paradeiro, foram feitas correntes de orações e buscas nas redes sociais.

A angústia terminou de forma devastadora na quinta-feira, 11 de Setembro, quando o corpo de Yumily foi encontrado a flutuar no rio. O estado em que foi localizado levanta fortes suspeitas de que tenha sido vítima de violência antes de ser abandonada às águas.

A comunidade de Malhampsene está em choque. Vizinhos e familiares descrevem a adolescente como uma menina calma, cheia de vida e sonhos interrompidos de forma prematura. A descoberta do corpo transformou-se em mais um retrato da vulnerabilidade de menores de idade em contextos urbanos e suburbanos, onde a criminalidade cresce e os mecanismos de protecção falham em assegurar a vida das mais jovens.

Natália Ernesto Macheve: universitária de 19 anos, violada e assassinada

Poucos dias antes do corpo de Yumily ter sido encontrado, o país foi abalado pelo assassinato de Natália Ernesto Macheve, estudante do segundo ano do curso de Agro-economia e Extensão Agrária na Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

Natália, de 19 anos, vivia em Zinthava, distrito de Marracuene. Na noite de quarta-feira, 27 de Agosto, ao regressar à casa, foi interpelada por um grupo de quatro a cinco homens. A jovem foi sujeita a uma violação violenta, abandonada a perder sangue na via pública, nas proximidades da sua residência.

Quando foi encontrada, ainda respirava, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos. O assassinato da estudante gerou indignação nacional. Personalidades como o sociólogo Carlos Serra recorreram às redes sociais para expressar repúdio. “Maldita violência contra as mulheres e raparigas, maldita cobardia de quem faz isto, maldita situação de risco permanente. Paz à sua alma e os meus sentimentos à família.”

A UEM reagiu com veemência. Num comunicado público, classificou o crime de “acto macabro” e afirmou que o caso reflecte a “perda de valores” na sociedade moçambicana. A instituição apelou à vigilância comunitária e comprometeu-se a acompanhar de perto as investigações policiais, destacando que todos os actos atentatórios à vida e à segurança das mulheres devem ser repudiados.

Minézia: assassinada à porta de casa

A onda de violência também vitimou Minézia, de 28 anos, assassinada à porta de casa quando regressava do trabalho, no bairro Patrice Lumumba, município da Matola.

O crime aconteceu em plena rua iluminada e movimentada. O agressor, um jovem de 20 anos, foi detido pela polícia. Em declarações à imprensa, confessou o crime, mas disse não compreender os motivos que o levaram a cometer a agressão. O jovem, biscateiro nas obras de construção e mecânico de ofício, contou que tinha saído da Machava para Patrice Lumumba com a intenção de consumir bebidas alcoólicas com os amigos e acabou por se cruzar com a vítima.

Testemunhas oculares afirmam ter visto Minézia a sangrar. No início, pensaram que se tratava de um simples aperto de pescoço, mas quando perceberam que tinha uma faca cravada nas costas, já imóvel, confirmaram a gravidade do ataque.

Mulher de 44 anos assassinada e violada em Nkobe

Outro crime chocante ocorreu no bairro Nkobe, também na Matola, onde uma mulher de 44 anos foi brutalmente assassinada. O corpo apresentava claros sinais de violação sexual e foi encontrado abandonado no quintal de uma residência vizinha, próximo da casa do namorado da vítima.

De acordo com os familiares, a mulher tinha saído com as amigas para uma noite de convívio. No regresso à casa, foi surpreendida por malfeitores até agora desconhecidos, que a violentaram e mataram. A brutalidade do crime revoltou os moradores do bairro, que exigem justiça e responsabilização exemplar dos autores.

Niurca Simbine e Sifa Agostinho são nomes vítimas de feminicídios de 2023

O ano de 2023 também foi marcado por assassinatos de mulheres em circunstâncias violentas. Niurca Simbine, de 21 anos, residente na Matola, foi morta num crime que deixou marcas profundas na comunidade local.

Na mesma altura, Sifa Agostinho, de 40 anos, natural de Cabo Delgado e residente em Maputo, saiu de casa para o trabalho e nunca mais regressou, tornando-se mais um nome na longa lista de vítimas de feminicídio no país.

Télia Bernardo, assassinada a caminho de casa em Marracuene

Mais recentemente, o corpo de Télia Bernardo, de 18 anos, foi encontrado em Marracuene. A jovem foi assassinada quando regressava à casa, num percurso que deveria ser rotineiro e seguro, mas acabou por se transformar em palco de mais uma tragédia.

Polícia reconhece aumento alarmante de feminicídios

De Yumily Mara, de 13 anos, a Natália Ernesto, de 19, passando por Minézia, Niurca, Sifa, Télia e tantas outras mulheres sem nome que não chegam às manchetes, a lista de vítimas cresce e expõe o lado mais cruel da realidade moçambicana.

E a Polícia da República de Moçambique (PRM) na província de Maputo reconhece que os casos de assassinato de mulheres estão a aumentar. Em conferências e comunicados, a instituição tem prometido reforçar as investigações e a segurança comunitária.

Entretanto, as organizações da sociedade civil, académicos e cidadãos comuns exigem medidas mais concretas, apontando que as acções anunciadas não têm sido suficientes para travar o ciclo de violência de género.

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