O medo real é que o espaço onde todos vivemos esteja em derrocada sem volta. Há pequenos detalhes que nos saltam à vista indicando que estamos descendo numa ribanceira, lá em baixo ninguém sabe o que tem, o que nos espera. Tenho duas mangueiras no quintal a servirem de exemplo do que se passa no geral. De há anos para cá elas vão perdendo a vocação de nos dar mangas bem formadas. Suculentas e saborosas. O fruto que colhemos nas últimas épocas nasce infectado, e até aqui ainda não tivemos uma explicação clara sobre o fenómeno. Há quem diga que é resultado de um virus enviado.
Grande parte da floração das mangueiras deste ano perdeu-se, foi deitada abaixo pelos ventos e pela seca. As mangas que resistem não animam a esperança de que teremos boa fruta, pois a “cara” que nos mostram é de fraca nutrição, não chove. Mas não é a primeira vez que esta situação de desolação ocorre, Já vem de há anos para cá, e o cenário tende a piorar a cada temporada anunciada. Então estamos a ser gotejados pela desgraça.
Todas as árvores e plantas diversas que deviam transbordar o verde nas folhas, estão transfiguradas. As laranjeiras não escapam, outrora eram produtoras de laranja doce vinda particularmente de Chongola, Inharrime, Zavala, até Zandamela, hoje não, não são as mesmas desse tempo, a seca pode ter diminuído o açúcar. Aliás, a própria cor da casca, descaracterizada, provavelmente desidratada, fala do que vem lá dentro.
O nosso tempo é um penhasco. Até o peixe, que será uma das principais fontes de alimentação dos habitantes da costa de Inambane, vai-se diluíndo, e o pouco que ainda aparece, não tem o mesmo cheiro que nos estimulava as papilas gustativas de forma irresistível. Agora contentamo-nos com peixinhos arrastados por redes da sobrevivência, não temos outra saída neste beco que pode não ter saída. O camarão também! Para quem acompanha os ciclos, sendo ele daquele tempo, e quiser prestar atenção ao degustar estes mariscos, vai notar certamente que algo mudou.
Mas os tempos são outros! Enquanto ontem saltitávamos como gazelas nas planícies em saudação ao sol que anunciava o amanhecer, hoje caminhamos com incerteza e medo ribanceira abaixo. Antes da meia-noite já há galos a cantarem, intrigando-nos a todos. A mandioca que nos vendem nos mercados é outra, diferente da que os machopes adoram temperar com ntona (óleo de mafurra). Esta que compramos aqui está cheia de fibra, e isso pode significar que a terra deixou de ser generosa. Esta terra que se recusa a compactuar com fertilizantes químicos. É por isso que temos um arroz sem cheiro. O caril de amendoím impregnava com agrado o ambiente estando ainda na cozedura. E todos nós salivávamos sem capacidade de esperar mais, queríamos agora.
Tudo isto isto pode signficar que estamos na última barreira!





