Mas eu já falei repetidamente sobre esta música que não acaba, vou fazer isso sempre, até que amanheça de novo. Luís Dezanove é um músico cá da terra, canta a vida que já não existe, mas ele acredita que sim, a vida existe, vai existir até ao fim. É mentira o que se diz por aí, – refere Dezanove – é ignorância, até estupidez. Quem te disse que Deus enloqueceu? Quem te disse! Quem te disse também que Deus abandonou-nos? Quem te disse! Tudo isso é blasfémia, Deus não enloqueceu, nós é que estamos loucos. Nós é que abandonamos a misericórdia que recebemos do Altíssimo. De graça.
Luís Dezanove move-se numa cadeira de rodas e viverá assim para sempre, como sempre viveu desde que nasceu. Tem uma deformação congénita, os membros inferiores encolheram já no ventre da mulher que lhe gerou, e em compensação recebeu um peito largo e braços fortes e dedos para tocar guitarra e voz para cantar. Parece um felino ferido nas patas trazeiras em armadilhas furtivas quando se locomove sem a cadeira de rodas. O olhar transmite dureza e determinação para dar jus à poesia, “o rosto é um pou co a janela da alma”.
A cidade de Inhambane é em sim uma música, que agora pode estar em decomposição. A escala diatónica da urbe treme nos mangais da discórdia, nos amontoados do lixo espalhado nos passeios e nas ruas. As novas vias de acesso pavimentadas nos bairros – velhos e de expansão – já cantam a música do desmoronamento antes de o edil Benedito Gumino terminar o mandato. Na praia da Barra os nativos são humilhados por gente que nem é daqui, Fecham-lhes os caminhos seculares sem dar alternativa e o governo assiste a tudo isto, com condescendência.
Luís Dezanove sabe de tudo isto, de todas estas invasões e desrepeito pelos ritos da terra, e a raiva invade-lhe o rosto mas não pode fazer nada, então recorre à música, e a música também não lhe dá provento. E assim, enquanto não vem o dia em que vão chamá-lo para tocar num evento qualquer, vai reparando sapatos num dos passeios do Mercado Central onde jamais passou despercebido.
Já lhe ameacei num dia desses: Dezanove, se eu me cruzar contigo à noite, vou te arrancar esse gorro”! Luís Dezanove usa um gorro do tipo Bob Marley, orgulha-se de o ter. E eu ainda perguntei ao Dezanove, tens uma “buma aí?” E ele responde: a “buma” é este gorro que trago na cabeça!
É um homem resoltuto, o Luís Dezanove. Contrastando com a cidade que caminha de trambolhão em trambolhão. A arquitetura está a ser vituperada. A segurança dos munícipes, sobretudo nos subúrbios, já não existe. Os ladrões, maioritariamente adolescentes e jovens, dão-se ao desplante de invadir nossas casas em pleno dia e roubar. A poluição sonora continua a triunfar. Mas Luís Dezanove diz que jamais deixará de cantar, até que amanheça de novo.





