Jean-Marc Ela, teólogo, sociólogo e padre camaronês, foi uma das vozes mais importantes da teologia africana da libertação. Nos seus escritos – especialmente na obra “O Grito do Povo Africano”, mas também em outros textos – ele aborda de maneira crítica a relação entre fé, pobreza e religião institucional, questionando tanto a instrumentalização da fé quanto o papel da religião no contexto da miséria estrutural em que vive grande parte da população africana.
“A pobreza aumenta a fé?” era a grande questão de Jean-Marc Ela, reconhecendo que, em muitos contextos de extrema pobreza, a fé se intensifica. Segundo ele, isso ocorre porque as pessoas buscam sentido, consolo e esperança diante de sofrimentos que parecem intransponíveis no plano material. Para muitos, a religião torna-se o único espaço de resistência simbólica, onde ainda é possível imaginar um futuro melhor ou uma justiça transcendental. Esta tensão entre consolo espiritual e transformação concreta esteve também no centro de outras reflexões partilhadas recentemente em Xai-Xai, durante mais um encontro sobre o diálogo inter-religioso, sob o lema “Difundindo a Paz, Fortalecendo a Segurança e Preservando a Soberania”. O entendimento é de que uma fé viva não pode contentar-se com a promessa do além, mas deve comprometer-se com a justiça aqui e agora, especialmente num contexto como o moçambicano, marcado por desigualdades profundas e desafios à coesão social.
A ideia filosófica por detrás deste intróito é que a religião não pode continuar a ser o ópio dos pobres. Pelo contrário, ela deve se tornar fermento de libertação. Num outro diapasão, pode-se questionar também o seguinte: “a religião aumenta a pobreza?”. Ainda segundo Jean-Marc Ela, a religião pode contribuir para a manutenção da pobreza, especialmente quando se justifica o sofrimento como algo natural ou parte da vontade divina e, fundamentalmente, quando ensina a resignação, desestimulando a acção social ou política. Finalmente, quando ela apoia os sistemas de poder opressores, incluindo governos corruptos ou estruturas neocoloniais, através de modelos religiosos ocidentais que não consideram as realidades e culturas africanas, criando, portanto, alienação.
Em África, regra geral, observa-se um processo crescente de institucionalização da religião, a qual tem sido instrumentalizada como meio de obtenção de votos e de legitimação de apoios políticos. Em diversas situações, as instituições religiosas alinham-se ao poder estatal, afastando-se de um compromisso ético com os segmentos mais vulneráveis da sociedade e deixando de assumir um papel profético na promoção da justiça social. Tal dinâmica contribui para a consolidação de uma espiritualidade desvinculada das condições concretas de vida da população, que se omite diante das causas estruturais da pobreza e da exclusão.
A Religião como Superestrutura Global e o Contexto Moçambicano
Não se pode ignorar que a religião constitui, talvez, a mais antiga e resiliente estrutura de organização simbólica da humanidade. Ela sobreviveu à derrocada de impérios, ao avanço da ciência e à secularização dos Estados. Globalmente, age como linguagem de sentido, catalisando o comportamento de biliões de indivíduos e influenciando decisões políticas, económicas e geoestratégicas.
Segundo estimativas para 2025, a distribuição religiosa mundial revela que o cristianismo mantém-se como a maior religião, representando aproximadamente 31,5% da população mundial, seguido pelo islamismo com cerca de 24,1%. O hinduísmo ocupa o terceiro lugar com aproximadamente 15%, enquanto o budismo representa cerca de 6,9% da população global. As religiões tradicionais e outras crenças constituem cerca de 6,6%, e aqueles sem afiliação religiosa (ateus, agnósticos, etc.) representam aproximadamente 16% da população mundial. Um aspecto particularmente relevante é o crescimento significativo do islamismo, projectando-se um aumento de 70% até 2050, paralelamente ao aumento notável de pessoas sem afiliação religiosa, especialmente em países desenvolvidos.
O continente africano apresenta uma diversidade religiosa marcada por influências históricas e culturais profundas. O cristianismo predomina na África Subsaariana, representando cerca de 63% da população, enquanto o islamismo é dominante no Norte de África e mantém presença significativa na África Ocidental e Oriental. As religiões tradicionais africanas continuam a ser praticadas em várias regiões, muitas vezes sincretizadas com o cristianismo ou islamismo, criando um mosaico espiritual complexo e dinâmico.
Em África, a religião sempre esteve no centro da organização comunitária, funcionando tanto como força de coesão quanto como instrumento de dominação. Durante o período colonial, os missionários cristãos foram os precursores da “pacificação” espiritual, preparando o terreno para a ocupação militar e cultural. Após as independências africanas, as religiões – sejam elas de matriz cristã, islâmica ou tradicional – continuaram a influenciar profundamente o ethos político no continente.
Em Moçambique, segundo o Censo de 2017 do Instituto Nacional de Estatística (INE), a distribuição religiosa apresenta características específicas que merecem análise cuidadosa. O cristianismo representa 59,8% da população total, dividindo-se entre católicos (27,2%) e protestantes (32,6%), sendo que entre os protestantes encontram-se os evangélicos (15,3%), as denominações zione/sião (15,5%) e os anglicanos (1,3%). O islamismo constitui 18,9% da população, com maior concentração nas províncias do norte. Outras religiões, incluindo práticas animistas e outras crenças tradicionais, representam 4,8%, enquanto 13,9% da população declara-se sem religião e 2,5% não especificou a sua afiliação religiosa. É importante notar que, apesar do crescimento geral do cristianismo, a proporção de católicos tem diminuído ligeiramente entre 2007 e 2017, enquanto as denominações protestantes, especialmente as evangélicas, apresentaram crescimento significativo. Esta realidade espiritual não pode ser vista como um dado neutro numa sociedade marcada por desigualdades estruturais. É fundamental compreender como esta configuração religiosa se relaciona com os nossos desafios de desenvolvimento e justiça social.
O Paradoxo Moçambicano: Quando a Fé se Torna Refúgio e Armadilha
Como avançado no início, o ponto de reflexão que proponho como guia desta reflexão é clara e perturbadora: a pobreza nos leva para a fé e esta aumenta a nossa pobreza. Naturalmente, esta observação não pretende desqualificar a experiência espiritual, mas questionar os mecanismos através dos quais a religiosidade pode perpetuar ciclos de exclusão social. Com efeito, é entendimento generalizado que, em contextos como o nosso, a pobreza material empurra o cidadão para a espiritualidade como forma de consolo, como anestesia social. De modo mais incisivo, em muitos casos, a fé propaga discursos de resignação e sofrimento redentor. Consequentemente, a solução da miséria é deslocada para um futuro escatológico: “Deus proverá”, “a bênção virá”, “o milagre está a caminho”. Esta narrativa, embora compreensível do ponto de vista psicológico, pode funcionar como mecanismo de imobilização social.
Numa outra perspectiva, a análise do papel das instituições religiosas na construção da paz revela uma tensão fundamental entre mediação e transformação social. Por exemplo, o Acordo Geral de Paz de 1992 em Moçambique, mediado pela Igreja Católica através da Comunidade de Santo Egídio, exemplifica a capacidade das instituições religiosas de funcionar como mediadoras credíveis em contextos de extrema polarização. Este processo conseguiu terminar com 16 anos de guerra civil que causou milhões de mortos e refugiados, demonstrando inequivocamente o potencial pacificador da mediação religiosa quando dotada de legitimidade moral e neutralidade percebida.
Contudo, emerge uma questão qualitativa crucial sobre o tipo de paz que está sendo construída no nosso contexto. Johan Galtung (1969), no seminal artigo “Violence, Peace, and Peace Research”, estabeleceu a distinção fundamental entre “paz negativa” – a mera ausência de violência directa – e “paz positiva” – que implica a presença de justiça social e eliminação das violências estruturais. Indo ao cerne do argumento deste texto, quando as instituições religiosas se limitam a promover o silêncio das armas sem questionar as estruturas de injustiça subjacentes, contribuem para uma paz meramente negativa que pode ser frágil e temporária. Esta abordagem corre o risco de criar uma “paz silenciosa” que, privilegiando a estabilidade sobre a justiça, torna-se cúmplice das estruturas de dominação existentes.
Com efeito, a experiência moçambicana ilustra precisamente estes limites: embora o país tenha experimentado crescimento económico após a paz, mais de metade da população permanece abaixo da linha de pobreza. A persistência de altos níveis de desigualdade três décadas após os Acordos de Roma demonstra que a cessação da violência armada não resultou automaticamente na eliminação das violências estruturais. As instituições religiosas enfrentam, portanto, uma escolha fundamental: podem continuar como agentes de pacificação que legitimam o status quo, ou assumir o papel mais desafiante de promotoras de uma paz transformadora que questiona e reestrutura as relações de poder, reconhecendo que a verdadeira paz é consequência da justiça social, não produto da ordem silenciosa dos dominadores.
Por uma Religião Libertadora
A análise sociológica da religião revela uma dualidade fundamental: enquanto pode legitimar o status quo através do fatalismo e da cooptação política, também possui potencial emancipatório quando engajada criticamente com as realidades sociais. No contexto moçambicano, onde as tradições religiosas autóctones, o cristianismo e o islamismo coexistem, esta ambivalência manifesta-se de forma particularmente evidente, exigindo uma reorientação teológica que supere a função conservadora da religião e promova transformação social.
A proposta de uma teologia da libertação moçambicana afrocentrada fundamenta-se na necessidade de contextualização cultural e epistemológica que incorpore cosmogonias e valores das tradições africanas autóctones, superando o eurocentrismo teológico. Por exemplo, essa abordagem poderia integrar a filosofia Ubuntu e as tradições de resistência histórica dos povos moçambicanos, criando uma síntese teológica autêntica que combata o fatalismo religioso e promova cidadania activa, formando fiéis como agentes de transformação social capazes de participar criticamente nos processos sociopolíticos.
Nesse desiderato, o papel dos líderes religiosos pode ser reconceptualizado abandonando a postura meramente contemplativa para assumir posições de vanguarda em áreas prioritárias como justiça climática, protecção dos direitos das mulheres e defesa das minorias. Esta transição exigiria formação holística em políticas públicas, direitos humanos e desenvolvimento sustentável, capacitando os líderes religiosos como porta-vozes das comunidades marginalizadas e agentes de pressão por mudanças estruturais.
Um parênteses: a “religiosização da política” aqui proposta não visa estabelecer teocracias, mas introduzir valores espirituais universais – como a compaixão, a justiça, a solidariedade e a dignidade humana – no debate público, elevando a cultura política através da incorporação de perspectivas que transcendem interesses sectários. Apesar dos potenciais desafios, como resistência institucional, risco de cooptação política e necessidade de formação qualificada de lideranças, esta proposta representaria uma contribuição transformadora para o desenvolvimento social moçambicano, articulando tradição e inovação na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.
Em suma, uma sociedade espiritualmente activa, mas socialmente empobrecida, é vulnerável à radicalização, ao extremismo religioso e à manipulação. Outrossim, a verdadeira segurança é construída com justiça. Precisamos de religar o espiritual ao social, para que a fé seja uma ponte e não um muro. Numa sociedade onde coexistem cristãos, muçulmanos, praticantes de religiões tradicionais e pessoas sem religião, o desafio é construir um projecto comum de desenvolvimento humano que respeite a diversidade e promova a dignidade de todos.
Questões para o Nosso Tempo
De que serve a fé, se não emancipa os pobres? De que serve a religião, se não nos devolve a humanidade? Estas perguntas de Jean-Marc Ela ecoam com particular urgência no contexto moçambicano actual. A paz não pode ser apenas um discurso, mas uma práxis permanente. A soberania não se defende apenas no campo de batalha, mas também no campo da consciência. Numa era em que as desigualdades se aprofundam e os desafios climáticos ameaçam particularmente os mais vulneráveis, a religião deve escolher o seu lado: ser fermento de libertação ou continuar sendo o ópio dos pobres.
A resposta a estas questões definirá não apenas o futuro da religiosidade em Moçambique, mas o próprio destino da nossa sociedade. Como educadores, líderes religiosos e cidadãos comprometidos, temos a responsabilidade histórica de promover uma espiritualidade que liberte, que questione, e que transforme. Só assim a nossa fé será verdadeiramente redentora – não apenas para as almas, mas para a sociedade como um todo.





