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13 de June, 2025

Manifestações pós-eleitorais mobilizaram sectores alargados da sociedade – análise

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Uma análise do Observatório do Meio Rural (OMR), divulgada na última quarta-feira, revela que as manifestações pós-eleitorais registadas entre finais de Outubro de 2024 e Janeiro de 2025 contaram com o envolvimento de sectores alargados da sociedade, entre estudantes, camponeses e funcionários públicos, assim como pobres e ricos.

Em 10 páginas, o OMR diz ainda que a gestão desastrosa das manifestações pelo Governo levou membros da Frelimo a criticar abertamente a transformação daquela força política “numa força muito impopular entre os moçambicanos”. A análise baseou-se em observação directa nas cidades de Maputo e Matola, por um lado, e, por outro, em notícias na imprensa e de vídeos que circularam na internet.

“Diversos grupos participaram em manifestações, equacionando riscos e recorrendo aos recursos e capital disponíveis, traduzindo a diversidade do país. Não obstante as elevadas desigualdades e contradições que estruturam a sociedade moçambicana, durante o período pós-eleitoral, gerou-se uma convergência entre as diversas classes sociais, em torno de um projecto vago de mudança”, defende.

Segundo o OMR, os jovens pouco escolarizados, desempregados ou empregues no sector informal constituíram o grupo social mais visível durante as manifestações, quer em termos de massa populacional, quer em termos de impacto social.

“Este grupo esteve particularmente activo no bloqueio de estradas com recurso a diversos objectos, impedindo a circulação de viaturas, mas também em confrontos com a Polícia ou nos saques a estabelecimentos comerciais, envolvendo crianças”, descreve.

De acordo com o estudo, outro grupo social que se distinguiu durante as manifestações é dos estudantes, do ensino secundário ao universitário. No caso do grupo de estudantes do ensino superior, narra, “foi pioneiro na manifestação dos panelaços, batendo com tachos e panelas a partir das janelas da residência universitária, prática que se veio a alastrar para o resto da cidade e mesmo do país”.

“Os alunos do ensino médio e secundário estiveram também activos, particularmente em algumas escolas do sul do país, juntando-se aos respectivos professores no processo de sabotagem de exames finais. Em várias províncias, centenas de crianças devidamente uniformizadas marcharam pelas ruas manifestando o seu apoio ao candidato da oposição”, sublinha.

Para além de jovens, os protestos pós-eleitorais contaram também com a presença massiva de mulheres, quer através de marchas, bloqueio de estradas, vídeos e áudios de protesto. “Os vídeos que circularam pela internet revelam a realização de várias marchas envolvendo mulheres que participaram inclusive no bloqueio de estradas em vários pontos do país”, diz o documento, sublinhando que quanto mais a violência policial foi aumentando, muitas mulheres passaram a assumir novas funções, com destaque para a confecção de alimentos e disponibilização de água.

Se há alguns anos, os desempregados e funcionários de empresas privadas eram a face do descontentamento, em 2024, os funcionários públicos, que antes eram maiores activos do partido Frelimo, também aderiram aos protestos, com constantes ameaças de paralisação laboral, sobretudo nos sectores da saúde, educação e justiça.

“Durante os protestos, agentes da PRM [Polícia da República de Moçambique] foram filmados a cantar o hino nacional com os manifestantes ou a gritar com jovens em protesto em frente a esquadras da Polícia, a participar nos panelaços ou até a colaborar na obstrução de estradas. Durante o mês de Dezembro, o sentimento de descontentamento no seio das corporações levou a que agentes da UIR [Unidade de Intervenção Rápida] lutassem entre si procurando neutralizar agentes descontentes”, enumera.

A análise nota ainda a adesão de classes médias das zonas nobres da capital aos protestos. “Vários residentes saíram às ruas para cumprir as directrizes anunciadas sobre a paralisação das estradas e a entoação do hino nacional, enquanto, por outro lado, lojistas na baixa – maioritariamente muçulmanos – assim como jovens mais escolarizados e com profissões liberais, tentaram desfilar pelas principais artérias da cidade, invariavelmente reprimidos pela Polícia”, descreve.

“Durante o luto nacional [decretado por Venâncio Mondlane], vários comerciantes vestiram de preto os manequins das suas lojas ou usaram-nos inclusive no bloqueio de estradas. Funcionários da PGR [Procuradoria-Geral da República] cumpriram as directrizes de vestir de preto em sinal de luto e entoação do hino nacional e cânticos em apoio a Venâncio Mondlane. Em autocarros dos ministérios, que transportavam os respectivos funcionários para casa, foram fixados cartazes de apoio a Venâncio Mondlane”, continua, destacando também o envolvimento de artistas, com destaque para os desenhos de Fredy Uamusse e o movimento “LUTO por Moz”, liderado por Stewart Sukuma.

Os protestos, recorda o OMR, chegaram às zonas rurais. “Camponeses residentes ao redor de locais de exploração mineira aproveitaram para manifestar as suas inquietações antigas. Dando continuidade a conflitos antigos com empresas do sector, milhares de garimpeiros realizaram assaltos a áreas de concessão mineira nos distritos de Manica, Alto Molocué, Montepuez, Muleval_a e Moma”, num acto em que a Kenmare foi uma das principais vítimas.

Refira-se que as manifestações pós-eleitorais causaram a morte de mais de 350 pessoas, na sua maioria assassinadas pela Polícia. Igualmente, houve registo de destruição de diversas infra-estruturas públicas e privadas, com destaque para postos policiais e tribunais.

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