O ano de 2026 iniciou com uma notícia que deixou o sector privado ligado ao agrário em alerta: o Governo de Moçambique anunciava a centralização e o controlo das importações de dois cereais estratégicos — arroz e trigo. A medida, segundo o Executivo, visa controlar o fluxo de divisas e combater a subfacturação na importação destes cerais.
A decisão, porém, não ficou restrita ao sector de importação. Rapidamente, o debate alastrou-se para o sector agrário e para a sociedade em geral, inundando redes sociais, rádios e televisões.
O tema central foi a sustentabilidade da produção nacional, sobretudo do arroz, cujo défice ronda as 450 mil toneladas.
É neste debate que pretendo acrescentar algumas notas.
Auto-suficiência como prioridade
A busca da auto-sustentabilidade na produção de cereais deveria ser o caminho estratégico do Governo. Isso implica:
•Acesso a variedades melhoradas e tolerantes às mudanças climáticas.
•Disponibilização de insumos adequados, capazes de elevar a produtividade para pelo menos 4-5 ton/ha, principalmente no sector familiar.
•Capacitação técnica dos produtores, aproximando ciência e prática agrícola.
Sem estas medidas estruturantes, o país continuará dependente de importações e vulnerável a choques externos.
Crises climáticas e vulnerabilidade estrutural
No meio deste debate, Moçambique foi assolado por uma das piores inundações dos últimos anos, resultado de chuvas torrenciais internas e nos países vizinhos, sobretudo na África do Sul.
As províncias de Gaza e Maputo, que possuem condições agroecológicas favoráveis para o cultivo de arroz, foram duramente atingidas.
É razoável acreditar que a campanha agrícola nessas regiões está comprometida.
Este cenário evidencia a fragilidade das soluções propostas até aqui. Ontem foi a estiagem provocada pelo El Niño; hoje são as inundações. Amanhã, quem sabe, outro fenómeno climático. A agricultura moçambicana não pode continuar a ser refém da imprevisibilidade.
A urgência de uma abordagem holística
Mais do que nunca, torna-se imperativo pensar em soluções estruturantes e holísticas:
• Diversificação de culturas: além do milho, é preciso resgatar culturas tradicionais como a mapira e a mexoeira, tolerantes à estiagem.
•Adaptação às zonas baixas: investir em cultivos que resistam tanto a cheias quanto a secas.
•Integração de políticas públicas e privadas: coordenação entre governo, sector privado e comunidades locais! Parcerias continentais.
•Planeamento a curto, médio e longo prazo: medidas emergenciais não podem substituir estratégias de resiliência.
As crises que Moçambique enfrenta — económicas e climáticas — não podem ser tratadas com soluções isoladas.
A centralização das importações pode ser uma resposta imediata, mas não resolve o problema estrutural.
É preciso investir em ciência, diversificação e políticas agrícolas inclusivas.
O Conselho de Ministros que se reúne hoje no epicentrodas calamidades tem diante de si uma oportunidade histórica: transformar a crise em ponto de viragem.
Só uma solução holística permitirá ao país garantir segurança alimentar e resiliência em tempos de incerteza.
Vamos ao comprometimento!!!





