Show business, palavra importada, anglicismo que atravessou mares e aterrou nas nossas margens, mas que, em Moçambique, ganhou feições próprias, cheias de suor, poesia e resistência. É a indústria do espectáculo, sim, mas aqui, no pós-independência, foi muito mais que isso. Foi palco de afirmação cultural, tribuna de liberdade, pão e festa, ao mesmo tempo.
Quando os tambores do colonialismo cessaram em 1975, as ruas de Maputo pulsavam com uma nova sinfonia. O desejo de celebrar a liberdade através da música, da dança, da rádio, da televisão. O país, ainda a aprender os ritmos da independência, encontrava no espectáculouma forma de se narrar a si mesmo.
No início, havia nomes que se confundiam com essa aurora. Alex Barbosa do Zambi, Victor José das Produções 1001, ambos já na eternidade, Aurélio Le Bom e Eduardo Mondlane Júnior, o Edy, da Empresa Moçambicana de Entretenimento (EME), numa transição onde espectáculo e política se misturavam. Todos eles tinham e tiveram o dom de trazer o mundo ao palco moçambicano e fazer esse percurso no sentido inverso. Depois, poderemos trazer a ribalta o David Abílio da Companhia Nacional de Canto e Dança, CNCD, e nos tempos mais recentes o Bang, da Bang Entretenimentos.
Mas, a verdadeira faísca veio de um nome carregado de herança e expectativa:Eduardo Mondlane Júnior. Originário de uma família de políticos e referências obrigatórias no panorama político nacional, ele chegou de forma surpreendente e saiu de cena de modo ainda mais surpreendente. Mas, sempre foi um exímio entendedor de música e, mais ainda, da articulação dessa música como factor de libertação e afirmação.
Na véspera do Natal de 1960, Janet Mondlane visitou Lourenço Marques e, acompanhada de seus dois filhos, Eduardo Mondlane Júnior e Chude Mondlane, entoaram uma canção de Natal na residência do Reverendo André‑Daniel Clerc. Gesto simples, mas que conduziu a Chude à música profissional, anos mais tarde, e Eduardo Mondlane Júnior ao Showbiz. Na realidade, sempre fizeram aulas de música em Dar es Salaam. Por conseguinte, sua veia musical esteve sempre presente do outro lado dos palcos.
O espectáculo sempre acompanhou as revoluções do tempo. O mundo já conhecia Detroit e a Motown de Berry Gordy, que transformara linhas de montagem em fábricas de sonhos, com vozes tão distintas e inesquecíveis como Stevie Wonder, Diana Ross, Marvin Gaye, Jackson Five, Whitney Huston, Luther Vandross. Mas, a magia e o fascínio da música, nos trouxeram a eterna Miriam Makeba, com o seu inesquecível Moçambique, a luta continua, Hugh Masekela e Abdullah Ibrahim ou Dollar Brand, vozes que romperam o apartheid.
Em Moçambique, depois de 1975, o showbiz tornou-se a outra bandeira da independência. Uma jovem nação que procurava enaltecer uma ideologia socialista e comunista, para uma população com elevados índices de analfabetismo, diferentes grupos étnicos e que já enfrentava de escassez de tudo um pouco. Mas, era um país que se narrava em palco, que minimizava seus sofrimentos nesses mesmos palcos e que procurava um projecto de unidade nacional através da voz.
Se a independência trouxe liberdade e identidade, as circunstâncias da região trouxeram conflitos. Vieram a guerra de desestabilização, a fome e os deslocados,mas, em cada rosto e sorriso, a esperança permanecia acesa. Com a esperança esteve sempre presente a música, a marrabenta, a makwayela e tantos outros estilos.
O coração de Maputo pulsava forte na discoteca Zambi, de Alex Barbosa, lugar de noites intensas, mas também de encontros culturais. Diplomatas, artistas e sonhadores cruzavam-se sob as suas luzes. No palco, Alex Barbosa revelava o fulgor de Jaimito, a versatilidade de Wazimbo, o olhar atento de Pedro Ben e a agressividade vocal de Simeão Mazuze, por vezes partilhada com o seu irmão, Alexandre Mazuze
Eventualmente, foi Barbosa quem arrastou Victor José, radialista brasileiro que se tornaria voz do país, apresentador de espectáculos e descobridor de talentos para a fogosa noite de Maputo, tão controlada pelos grupos dinamizadores e pelas forças de libertação popular de Moçambique. Victor José já era célebre pelas Produções 1001, fonte de memórias luminosas. Por ali passaram Fany Mpfumo e Alexandre Langa, ambos com um passado de aprendizagem na vizinha África do Sul, trazendo ritmos que moldaram a forma de dançar dos moçambicanos, não apenas na capital, mas em todo o país.
No Zambi, e noutros espaços, nasciam as primeiras estrelas pós-independência. O entretenimento ainda era frágil, mas já se intuía que a cultura não podia ser apenas ornamento, era parte da identidade. Hortêncio Langa e seu irmão Milagre, abriam espaço para integrar José Mucavele, também ele, com um passado na frente de libertação e que era defensor da música local, da musicalidade moçambicana, enfim, da cultura como o factor que geraria desenvolvimento e afirmação.
Os anos 80 foram palco de ousadia. Aurélio Lê Bom, figura de transição política e cultural, associava-se ao partido no poder e dinamizava o mundo do showbiz, ainda marcado pelas limitações económicas da época. Activo na resposta à intentona do 7 de Setembro de 1974; ele inclusive escreveu e publicou sobre essas nuances e como a intentona foi derrotada. Ele sempre teve uma porta aberta junto das novas instituições de governação cultura,multiplicando-se quer no apoio a companhia de canto e dança, como na promoção e valorização das bandas musicais além fronteiras . Este foi o tempo do Duo Seara, Jaimito, Rabadab Zam Thaka. A gravação do Amanhecer I e II, podem não ter sido da sua responsabilidade, mas teve a coragem de os promover e divulgar além fronteiras.
Aurélio Le Bon trouxe uma nova era para o entretenimento moçambicano tendo como apogeu apresentado o mítico Eric Clapton, num festival inesquecível no Estádio da Machava que abarrotava de entusiasmo e calor humano. Pelas suas mãos tivemos Brenda Fassie, Steve Kekana, PJ Powers. Foi uma febre que efervesceu e colocou Moçambique e África do Sul numa plataforma indissociável e inequívoca.
Porém, foi Eduardo Mondlane Júnior, filho do fundador da Frente de Libertação de Moçambique, conhecido como Arquitecto da unidade nacional. Edy rompeu a expectativa de seguir a carreira política e fundou a sua própria Empresa Moçambicana de Entretenimento (EME). Trouxe equipamentos de gravação, algures de mercados mais desenvolvidos;organizou estúdios; abriu portas a jovens músicos e organizou concertos onde, em tempos de crise, se distribuía pão à entrada.
A música, nesses dias, alimentava corpos e esperanças. Dessa semente floresceram grupos de referência, mesmo que existam outros em diferentes proporções, iniciando pelo Zeca Lage, Roberto Chitsondzo, Pedro Langa, Stewart Sukuma, Gito Baloi, Fernando Luís e outros.
O país já vivia sob o fogo musical intenso de Fany Mpfumo, Alexandre Langa, Hortêncio Langa e Arão Litsure e João Cabaço, do saudoso Trio Alambique que apaixonava corações e espalhava paixão. Assim, se fazia a geração de ouro da música moçambicana, uma arte que escapava ao controlo político, reverenciando uma cultura musical que ganhava musculatura e incendiava uma juventude sedenta de dançar e de viver o sonho da independência com as suas vontades e desejos.
Pelas mãos da EME, se consolidou o Ghorwane (1983), voz urbana e crítica, que levaria a marrabenta e o jazz a palcos internacionais. Convidados por Peter Gabriel, mais tarde, eles gravaram na Real World Records, e deram à Moçambique um lugar no mapa da World Music. Roberto Chitsondzo, Zeca Lage, Pedro Langa, Gove, e tantos bons rapazes, levantaram uma bandeira que os tempos não conseguem apagar!
Igualmente, nesta época, e com um toque técnico da EME, surgiram de Nampula osEyuphuro (1981), com a voz mística de Zena Bacar e Gimo Abdulremane Mendes.A banda unia os ritmos da costa norte dos macuas, os mistérios da Ilha de Moçambique, harmonias afro-árabes e o cosmopolitismo moderno, embalados pela suavidade das ondas do mar. Eyhphuro conquistou o mundo e se transformou em banda universal, igualmente, integrada no universo da World Music e celebrada por Peter Gabriel e a Real World Records.
A EME também organizou alguns dos concertos da Orquestra Marrabenta Star de Moçambique, guardiã do ritmo nacional, que levou a sua música a festivais africanos e europeus. Realizaram dezenas de shows pelo mundo, ajudando a consagrar Chico António, Mingas, Dulce e tantos outros. Nem a sua ligação afectiva à Rádio Moçambique ensombrou o percurso dos melhores guitarristas, percussionistas e músicos de metais do país. A orquestra era a selecção natural de talentos, e uma garantia de sucesso.
Maputo tornava-se porto musical, com o apoio destes homens do showbiz nacional, dialogando com Joanesburgo, Cidade do Cabo, Harare e Durban. Os sons de Brenda Fassie, Yvonne Chaka Chaka, Lucky Dube e Sipho “Hotstix” Mabuse, Dorothy Masuka, circulavam lado a lado com a marrabenta, provando que a fronteira cultural entre Moçambique e África do Sul nunca existiu de facto e que perdurará por muitos e longos anos. Música tem esse poder de superar barreiras e limites geográficos.
Mas, a ousadia da EME também despertava desconfianças. Os seus espectáculos rivalizavam com os comícios políticos e competiam pelo mesmo público e mesmos ouvidos, cansados de promessas e ansiosos por sons mais melódicos e aglutinadores. A empresa encerrou-se em silêncio, deixando atrás de si uma promessa interrompida. Ninguém saberá por quê, mas, terá havido alguma ingerência política. Ordens superiores. Quem sabe, o país teria tido mais ganhos e o seu equipamento requintado teria formado mais técnicos de sonoplastia e acústica. Os shows seriam bem mais acessíveis e a criatividade mais presente.
Os anos 90 marcaram o regresso da esperança. A guerra civil aproximava-se do fim e o país abria-se novamente ao mundo. Já sem os lendários Alex, Victor José, Edy Mondlane, era tempo de novos ritmos, entrada massiva de música angolana e um certo alheamento da produção nacional. As antigas estrelas e constelações davam espaço a Bang Entretenimento, que trouxe nova linguagem, mais profissionalização e outro diálogo com o exterior. A Bang deu palco a uma geração diferente, já ligada às sonoridades globais do Semba, Kizomba, Zouk, Jazz, Pop e Reggae.
Foi também o tempo em que Mabulu, colectivo que unia rappers e veteranos da marrabenta, surgia como símbolo da fusão de estilos e gerações. O showbiz moçambicano entrava na modernidade, já em sintonia com os fluxos globais da música africana contemporânea.
Do brilho da discoteca Zambi aos estúdios da EME, das vozes de Zena Bacar e Pedro Langa aos saxofones do Ghorwane, dos sons de Brenda Fassie ao reggae de Lucky Dube, dos primeiros festivais aos grandes concertos, construiu-se um percurso que é, ao mesmo tempo, local, regional e global.
Hoje, 50 anos após termos içado a bandeira da liberdade e coragem, revisitar essa história é mais que exercício de memória, é compreender que o espectáculo nunca foi apenas lazer. Foi pão, foi identidade, foi soberania cultural. Porque em Moçambique, desde os anos 70, o palco sempre foi uma segunda bandeira. (X)




