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13 de March, 2026

O outro lado de Vénus: Mafalda Vasconcelos expõe o feminino em diálogo com a natureza

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Na sala expositiva da Fundação Fernando Leite Couto, as cores vibrantes e os rostos femininos parecem observar silenciosamente quem entra. Há árvores, flores e texturas orgânicas a atravessar os retratos. E não são apenas elementos decorativos; são antes parte da narrativa que a artista plástica moçambicana, Mafalda Vasconcelos, constrói na sua primeira exposição individual, “O outro lado de Vénus”, inaugurada a 4 de Março.

A mostra propõe um mergulho num conjunto de retratos centrados na figura feminina, onde mulheres surgem em diálogo constante com a natureza e com as memórias que moldam a identidade. Para quem já acompanha o percurso da artista, escreveu a fundação em comunicado, a exposição confirma um imaginário já presente na sua obra; para novos públicos, abre a porta a um território visual construído entre imaginação, observação e reflexão sobre o lugar da mulher.

Com cerca de uma década de percurso artístico – grande parte desenvolvida no estrangeiro, com exposições na Austrália, Inglaterra, Estados Unidos e Canadá – Mafalda apresenta agora um conjunto de trabalhos no seu país. A exposição conta com curadoria de Yolanda Couto e reúne pinturas e desenhos que se concentram sobretudo em retratos femininos.

Mulheres que carregam o mundo

Nas telas, as figuras femininas aparecem em diferentes idades e contextos: mulheres-mães, jovens, meninas. Algumas evocam traços moçambicanos, outras parecem dialogar com referências de diferentes culturas. Para a artista, essa diversidade reflecte tanto a experiência pessoal quanto a intenção de representar o feminino de forma ampla.

Mafalda explica que a mulher moçambicana ocupa um lugar especial na sua inspiração. Cresceu rodeada por mulheres fortes, sua mãe, avós, tias, irmãs e amigas, que influenciaram profundamente o seu olhar artístico. Ainda assim, diz procurar retratar a mulher de forma universal, atravessando culturas e geografias.

A artista acredita que, em muitas sociedades, a mulher é quem sustenta silenciosamente o equilíbrio do espaço social e familiar. Se o homem é frequentemente visto como provedor, afirma, a mulher é quem cuida, transforma e dá continuidade à vida, seja no cultivo da terra, na transmissão cultural ou na formação das novas gerações.

É nesse ponto que surge a referência simbólica a Vénus, associada à fertilidade e à criação. Na leitura da escritora moçambicana Eliana N’zualo, cada obra da exposição incorpora elementos naturais que reforçam essa ligação. Árvores, flores e materiais orgânicos surgem como extensão das figuras retratadas, sugerindo uma relação íntima entre mulher e natureza.

“As mulheres retratadas aqui são também Vénus”, escreve N’zualo, referindo-se à forma como as telas se enchem de cores intensas e composições vivas que evocam fertilidade, não apenas da terra, mas também das ideias e das emoções. “As mulheres retratadas aqui são também Vênus, preenchendo o espaço com as suas cores vibrantes, texturas ricas e composições vivas, transmitindo uma riqueza que ressoa em cada canto”, afirma.

Ainda de acordo com Eliana, Mafalda lembra-nos, através do seu pincel, que o verdadeiro Olimpo é construído não apenas por elas, mas por todas as vidas que nelas habitam. Essas obras exploram o “Divino que cada mulher incorpora: o olhar, os temas florais, as cores e as texturas da pele”.

Entre retratos íntimos e grandes telas

A produção apresentada na exposição centra-se sobretudo na pintura a óleo e no acrílico sobre tela, embora algumas obras incluam também pastel de óleo. Mafalda explica que trabalha frequentemente com contrastes de escala, alternando entre telas muito pequenas e outras de grandes dimensões.

Para a artista, os formatos mais pequenos criam uma relação de intimidade com o observador, quase como se convidassem a um encontro silencioso com a personagem retratada. Já as telas maiores tendem a impor uma presença mais forte no espaço expositivo.

Algumas das telas maiores ocupam quase toda a parede da galeria, obrigando o visitante a recuar alguns passos para captar o conjunto da composição.

A colecção foi sendo construída ao longo de cerca de dois anos. Inicialmente pensada para uma exposição anterior, acabou por crescer e ganhar novas peças durante o processo criativo. A artista começou com retratos mais pequenos e, gradualmente, foi expandindo a narrativa visual, procurando responder a uma pergunta central: o que rodeia estas mulheres e que mundo constroem à sua volta?

O resultado é um conjunto de obras que varia entre pinturas de grande escala e peças mais intimistas, compondo um percurso visual que reflecte diferentes momentos de criação. Em “O outro lado de Vénus”, Mafalda procura um contacto mais directo com o público moçambicano. As obras, explica, nasceram também de olhares recolhidos em viagens por diferentes regiões do país, onde observou paisagens, rostos e gestos que acabaram por alimentar a sua pintura.

A exposição permanece patente durante todo o mês de Março na Fundação Fernando Leite Couto. Mais do que um conjunto de retratos, a mostra propõe uma reflexão sobre o papel da mulher como criadora de vida, guardiã de memórias e agente de transformação do espaço à sua volta.

Tudo porque o olhar artístico de Mafalda Vasconcelos foi moldado por múltiplas influências culturais. Cresceu entre referências europeias, africanas e australianas, experiências que ajudaram a formar a sua sensibilidade visual.

O primeiro contacto com a arte surgiu ainda na infância. Por volta dos nove anos, costumava desenhar enquanto observava a avó, de origem Nharinga, trabalhar e costurar na Zambézia. Foi nesse ambiente doméstico que aprendeu, segundo conta, o valor do gesto manual e do tempo necessário para criar.

Mais tarde, depois de viver 19 anos em Maputo, mudou-se para Espanha, onde estudou design de moda. A experiência aprofundou o seu interesse pela relação entre forma, corpo e expressão visual. Posteriormente, na Austrália, concluiu um mestrado em Empreendedorismo, formação que ampliou a sua visão sobre a criação artística como espaço de autonomia e reflexão.

De regresso a Moçambique, participou em exposições colectivas organizadas pela Kulungwana – Associação para o Desenvolvimento Cultural em 2023 e pela Vulcano – Associação Cultural em 2024. E para ela, a arte é uma forma de introspecção, uma maneira de revelar emoções e pensamentos profundos, conectando-se com a sua identidade e história.

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