O director nacional da WaterAid Moçambique, Gaspar Sitefani, considera imperioso o investimento em infra-estruturas de água e saneamento resistentes às mudanças climáticas, alertando que o país vive uma crise hídrica.
“É urgente investir em infra-estruturas de água e saneamento resistentes às mudanças climáticas, integrar o sector de ASH [Água, Saneamento e Higiente] e Saúde, considerando esta como a primeira linha para prevenção de muitas doenças.
Priorizar ASH nos planos nacionais de adaptação e garantir que o financiamento climático chegue às comunidades que mais precisam, para aumentar a sua resiliência”, afirmou Sitefani, em entrevista à Carta de Moçambique.
Sem acesso universal e resiliente à água potável e ao saneamento seguro, não haverá justiça climática nem desenvolvimento sustentável em Moçambique, avançou.
“Na perspectiva da WaterAid, é claro que Moçambique vive, sim, uma crise hídrica, que está profundamente ligada à crise climática. O País enfrenta uma realidade cada vez mais marcada por extremos: quando chove, chove em excesso, destruindo Sistemas de Abastecimento de Água (SAA), inundando e destruindo latrinas e contaminando fontes; quando não chove, comunidades inteiras ficam sem acesso à água suficiente para beber, cozinhar, lavar, produzir ou confeccionar alimentos”, sublinhou.
Para o director nacional da WaterAid Moçambique, a alternância entre cheias devastadoras e secas prolongadas mostra que o problema não é apenas a quantidade de água, mas a falta de acesso à água segura e de serviços de saneamento resilientes ao clima.
“A crise climática manifesta-se como uma crise da água, porque são os sistemas de Água, Saneamento e Higiene os primeiros a colapsar diante de choques climáticos. E quando estes sistemas falham, aumentam os surtos de doenças que podem levar a emergências de saúde pública, agrava-se a pobreza e as desigualdades aprofundam-se, afectando sobretudo mulheres, crianças, pessoas com deficiência e comunidades mais vulneráveis”, realçou.
De acordo com Gaspar Sitefane, a resposta a estes fenómenos, cada vez mais frequentes, não pode ser apenas emergencial, porque é essencial priorizar o investimento no sector de ASH.
De acordo com Sitefani, um em 2021, a WaterAid Moçambique encomendou um estudo sobre o Impacto das Mudanças Climáticas no Saneamento no País, cujas conclusões foram inequívocas: a crescente frequência e intensidade de cheias, ciclones e chuvas extremas estão a comprometer seriamente a funcionalidade e a sustentabilidade das infra-estruturas de água e saneamento.
“O estudo evidenciou que latrinas melhoradas continuam altamente vulneráveis a inundações; fossas sépticas são frequentemente submersas; sistemas de drenagem tornam-se inoperacionais; e, em muitos contextos, inexistem mecanismos adequados para a contenção e o tratamento de lamas fecais em emergências. As cheias de 2026, que afectaram cerca de oitocentas mil pessoas nas províncias de Maputo, Gaza, Inhambane e Sofala, constituem o exemplo mais recente de como eventos climáticos extremos fragilizam e destroem infra-estruturas de saneamento”, sublinhou.
Saneamento em crise sistémica
Como consequência, regista-se a contaminação generalizada de fontes de água e do ambiente, aumentando significativamente o risco de surtos de cólera e outras doenças relacionadas com a água, observou a fonte.
“Estas evidências confirmam que Moçambique não enfrenta apenas eventos climáticos extremos, mas uma crise sistémica no sector de saneamento, principalmente nas zonas rurais, agravada pela insuficiente resiliência das infra-estruturas existentes”, enfatizou.
Para a WaterAid, esta realidade reforça a urgência de integrar o saneamento nas estratégias nacionais de adaptação climática, investir em soluções técnicas adequadas ao contexto moçambicano, aprimorar cada vez mais a questão de dados fiáveis para informar planos específicos, garantir financiamento climático orientado para o fortalecimento dos sistemas públicos e protecção das comunidades mais vulneráveis, assim como na educação das comunidades para adopção de práticas seguras.
Reconhecendo o grande esforço que tem sido empreendido pelo Governo de Moçambique e parceiros para a provisão de serviços de saneamento, com muitos resultados positivos visíveis, o director nacional da WaterAid admitiu que há ainda um caminho longo por percorrer como País na consolidacao jurídica plena do compromisso em assumir o saneamento como um direito humano.
Gaspar Sitefane assinalou que 65% da população rural em Moçambique não utiliza instalações sanitárias melhoradas, apontando essa percentagem como extremamente elevada, com impactos profundos na saúde pública, na economia e na dignidade humana.
“Em primeiro lugar, o impacto mais imediato é sanitário. A ausência de instalações melhoradas facilita a contaminação do solo e das fontes de água, sobretudo em contextos de cheias, como tem sido recorrente em várias províncias do País”, frisou.
Sitefane alertou que as mudanças climáticas estão a aprofundar desigualdades já crónicas no sector do saneamento e o País já apresenta disparidades gritantes.
“Enquanto a cobertura de saneamento atinge cerca de 80% nas áreas urbanas, no meio rural ronda apenas 35%. Estima-se que cerca de 6,7 milhões de pessoas nas zonas rurais ainda pratiquem o fecalismo a céu aberto, contra aproximadamente 0,9 milhão nas zonas urbanas. Na prática, o acesso à água e saneamento melhorado é cerca de 5,5 vezes superior nas áreas urbanas”, ressalvou.
Sobre a realidade urbana, considerou preocupante o quadro, defendendo intervenções estruturais urgentes.
“Desde logo, é importante reconhecer que apenas três cidades do País dispõem de sistemas de esgoto convencionais: Maputo, Beira e Songo (em Tete). Mesmo nestes casos, a cobertura não é universal e grande parte da população urbana – sobretudo nos bairros periurbanos e informais – depende de latrinas onsite, muitas vezes sem gestão segura das lamas fecais”, sublinha.
Uma das intervenções mais urgentes é, portanto, investir de forma robusta em estações de tratamento de lamas fecais e em sistemas organizados de recolha, transporte e tratamento e outra prioridade é a expansão gradual e estratégica da rede de esgotos, particularmente em bairros integrados e em áreas onde a densidade populacional justifique soluções centralizadas.
“Essa expansão deve ser planeada com critérios de inclusão, evitando que apenas zonas formais e de maior rendimento beneficiem das infra-estruturas. O estudo da WaterAid sublinha ainda a necessidade de mapeamentos abrangentes nas cidades e vilas, identificando áreas onde ameaças climáticas (cheias, subida do nível freático, erosão costeira) e vulnerabilidades sociais se sobrepõem. Esse mapeamento é essencial para orientar investimentos, priorizar zonas de maior risco e evitar que infra-estruturas sejam implantadas em locais altamente expostos a inundações”, destacou o director nacional da WaterAid Moçambique.





