As inundações que assolam as cidades de Maputo e Matola estão a atingir não apenas bairros periféricos, mas também áreas consideradas nobres, onde predominam edificações de elevado padrão.
Várias residências ficaram alagadas e a água estagnada levanta questionamentos sobre a qualidade das obras e o ordenamento urbano nessas zonas.
No Bairro de Mapulene, na Costa do Sol, cidade de Maputo, nas imediações da Circular de Maputo, uma área marcada pela proliferação de moradias do tipo duplex, diversas famílias vêem-se directamente afectadas pelas cheias. Ruas e quintais encontram-se completamente submersos, obrigando alguns moradores a permanecerem confinados aos primeiros andares das casas, sem previsão de quando as águas irão baixar.
Apesar de grande parte das residências naquela zona estar desabitada, moradores relatam que o bairro enfrenta, de forma cíclica, o mesmo cenário durante a época chuvosa. Ainda assim, as construções continuam a avançar, com várias mansões em fase de edificação, desafiando a fúria das águas.
Na zona do Triunfo, próximo ao empreendimento Triunfo Village, imagens a que “Carta” teve acesso mostram ruas transformadas numa espécie de “praia” no meio de residências luxuosas. Alguns moradores tentam atravessar as zonas inundadas, empurrando os seus veículos para conseguirem chegar aos locais de trabalho.
Situação semelhante é registada no Bairro do Alto-Maé, onde um vídeo amador mostra residentes de um edifício a recorrerem a baldes para retirar a água acumulada no terraço, que, entretanto, se infiltra nas paredes de algumas habitações.
No Bairro Belo Horizonte, na província de Maputo, distrito de Boane, as cheias também não poupam as áreas de prédios de grande porte, cuja paisagem foi dominada pela água. Os moradores dizem enfrentar enormes dificuldades para sair de casa, sobretudo os que trabalham na cidade de Maputo, temendo que, sem medidas estruturais urgentes, o problema se repita por várias épocas chuvosas.
“Não acho normal termos de nadar para sair das nossas próprias casas. Se não somos nós, são os nossos veículos”, lamentou João Macuácua, residente do bairro.
As inundações atingem igualmente algumas zonas próximas à Mozal, onde existem edifícios de padrão elevado. Nesses locais, a água das chuvas permanece acumulada nos quintais, levando muitos moradores a recorrerem a sacos de areia e pedras para impedir a entrada da água nas residências.
“Quando chove, ficamos completamente impedidos de circular, sobretudo de carro. Há aqui uma bacia e a água fica estagnada. Desde sábado, por exemplo, nem carros nem pessoas conseguiram sair de casa, principalmente, porque esta é uma zona de solo instável, onde qualquer movimento pode provocar problemas sérios”, explicou Lúrio Nhaume, morador da zona da Mozal.
Apesar de as chuvas evidenciarem os riscos de construção nessas áreas, no Bairro de Chihango, no município de Marracuene, a edificação de casas de luxo continua a um ritmo acelerado, transformando quintais em verdadeiros riachos.
Uma fonte residente no local disse à “Carta” que a gestão das águas se torna ainda mais difícil, devido ao elevado número de residências de luxo desabitadas. “É complicado discutir soluções quando muitos proprietários não aparecem. Esperam a situação melhorar para depois virem espreitar as casas, o que dificulta qualquer negociação”, afirmou Zeferino Muhai.
Cláudia Romeu, moradora de uma rua ladeada por mansões, alerta para a degradação acelerada das vias de acesso. “A estrada está a deteriorar-se a cada chuva forte. Estão a surgir crateras que podem impedir a circulação de viaturas. Temos sido obrigados a estacionar longe e usar botas para chegar às nossas casas”, relatou.





