O Movimento Kuhluka distribuiu, esta semana, 300 “kits” de “dignidade” nos centros de atendimento integrado às Vítimas de Violência (CAIVV) de Chongoene, na província de Gaza, e de Mavalane e Marracuene, em Maputo, disse à “Carta” a fundadora e directora-geral daquela organização não governamental (ONG), Josina Machel.
Machel avançou que a acção foi realizada no âmbito da campanha global dos 16 Dias de Activismo contra a Violência Baseada no Género (VBG), com o apoio do Governo do Canadá.
A iniciativa pretende garantir uma resposta imediata, digna e humanizada às sobreviventes que chegam aos centros, frequentemente em situação de choque, dor e extrema vulnerabilidade, acrescentou a activista social.
Para muitas mulheres, o primeiro contacto com o CAIVV acontece após episódios de violência física grave ou violência sexual, momentos em que até os itens mais básicos de higiene e cuidado pessoal representam uma necessidade urgente, explicou Josina Machel.
Para o Movimento Kuhluka, cada “kit” distribuído é mais do que um conjunto de objectos, é um gesto de afirmação da dignidade da sobrevivente.
Josina Machel explicou que os “kits” são concebidos para serem entregues nos “primeiros pontos de entrada”, os CAIVV onde as vítimas procuram ajuda logo após a agressão. “Produzimos e deixamos os ‘kits’ nos centros e as equipas locais distribuem, conforme as vítimas chegam, dependendo do caso”.
Adiantou que o apoio da Embaixada do Canadá tem sido crucial para ampliar o impacto da iniciativa. “Recebemos apoio do Programa de Desenvolvimento do Canadá para distribuir 300 pacotes de dignidade e já os entregamos todos. Hoje (10) fizemos a entrega em Mavalane e Marracuene, e na segunda-feira fizemos em Chongoene”, declarou a directora-geral.
A acção reforça centros que atendem um número significativo de casos de violência doméstica e sexual. Só o CAIVV de Mavalane, segundo a dirigente, é um dos que mais recebe vítimas na cidade de Maputo. “Esta é a terceira vez que entregamos em Mavalane. Ao todo, já distribuímos cerca de 2.000 ‘kits’ de dignidade. Dependemos sempre do financiamento e do apoio disponível, mas continuamos a manter este esforço”, afirmou.
A escolha de Chongoene deve-se ao facto de ser uma zona com incidência elevada de casos de VBG. “Não queríamos focar apenas em Maputo. Chongoene tem muitos casos e precisava deste reforço”, explicou.
Apesar dos avanços, Josina Machel admite que o país ainda enfrenta grandes desafios em termos de recursos e procedimentos na recolha de evidências após agressões sexuais. Em alguns países, por exemplo, as vítimas precisam deixar a roupa para análise forense, algo ainda não implementado de forma sistemática em Moçambique.
Questionada sobre os próximos passos, a líder do movimento é clara: “queremos criar um sistema sustentável para abranger mais centros no centro, norte e sul do país. Mas para isso precisamos de parcerias com organizações, doadores e do sector privado. Muitos perguntam como ajudar, fornecer um ‘kit’ de dignidade é uma forma directa de apoiar uma vítima naquele momento crítico”.
Durante as entregas, o Movimento Kuhluka reiterou que os 16 Dias de Activismo não devem ser vistos apenas como uma campanha anual, mas como um apelo à acção contínua. A magnitude da violência baseada no género no país exige recursos adequados, profissionais capacitados e apoio permanente às vítimas.
“A dignidade não pode esperar. Cada sobrevivente tem direito a um atendimento que reconheça a sua dor, respeite o seu corpo e apoie a sua cura”, declarou.





