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20 de November, 2025

O medo que guia e memória que liberta: Carmen Saranga e Pachinuapa lançam livros que marcam o presente e resgatam o passado de Moçambique

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Foi lançado na noite de terça-feira (18), na Galeria, o livro “O Medo é um GPS”, de Carmen Saranga, uma obra que se junta ao crescente acervo literário moçambicano dedicado ao autoconhecimento, gestão emocional e autoresponsabilidade.

No centro do livro, está uma tese simples e profunda “o medo não deve ser encarado como inimigo, mas como aliado que aponta caminhos, alerta perigos e impulsiona transformações pessoais”.

Durante a conversa com “Carta”, Carmen partilhou a experiência que deu origem ao livro e explicou como a sua relação com o medo mudou radicalmente ao longo dos anos. “Como todos os seres humanos, temos medo e ele sempre aponta para alguma coisa. Só que normalmente entramos em pânico, pensamos que somos azarados e sentimos muitas frustrações”, afirmou.

A autora contou que as primeiras manifestações de medo surgiram ligadas à maternidade, sonhos recorrentes de perder os filhos e às exigências do ambiente profissional, especialmente durante apresentações no trabalho.

Em vez de se deixar paralisar, decidiu entender o medo como sinal e não como ameaça.

“Ao invés de entrar em pânico, comecei a criar soluções. Percebi que os medos sempre iam existir, mas eu tinha de vê-los de outra forma. Passei a tratá-los como uma bússola para fazer melhor, seja no trabalho ou com os meus filhos”, explicou.

Com o tempo, desenvolveu um exercício pessoal de diálogo com o medo. “Perguntava: ‘o que tu queres-me dizer? Para onde me queres levar?’”

Esse processo transformou-se em hábito e depois em escrita. Carmen Saranga começou a registar num caderno todas as estratégias que aplicava sempre que sentia medo. Só mais tarde percebeu que aquele conteúdo podia ajudar outras pessoas, especialmente, num momento em que a sociedade moçambicana vive sob ansiedade colectiva, receios de mudança, medo de novos desafios e resistência a recomeços.

“Há pessoas com medo de mudar de carreira, de ter novos chefes, de ir viver para outros lugares ou simplesmente de recomeçar. A nossa sociedade está assim emocionalmente, no conforto, deixando que o medo limite o alcance de outras coisas”, afirmou.

Segundo Carmen Saranga, dizer que o medo é um GPS significa reconhecê-lo como mecanismo de protecção, mas também como impulso para aceder a “outros planos que Deus preparou”. Embora o livro seja destinado a todas as esferas sociais, a dedicatória é especialmente dirigida às mulheres, com o objectivo de ajudá-las a destravar receios e usar o medo como força transformadora.

A obra marca o início de uma meta que a autora estabeleceu em 2022, escrever três livros. “O Medo é um GPS” é o primeiro, construído a partir de factos reais que reflectem a sua própria trajectória de superação. Aos 48 anos, mãe de três filhos e detentora de duas licenciaturas, em Gestão Hoteleira e Administração Pública, bem como um mestrado e uma pós-graduação em Gestão de Projectos, Carmen admite que o medo maior que carregou foi o de não ter sido uma mãe suficientemente presente. Foi dessa frustração que nasceu a urgência de transformar o medo em ferramenta, e não em prisão.

No mesmo dia, foi igualmente lançado o livro “Marchamos com Determinação e Confiança no Processo de Libertação de Moçambique”, da autoria do Tenente-General na reserva Raimundo Pachinuapa. A sua actual obra é de carácter autobiográfico e resgata episódios, vivências e ensinamentos de uma fase decisiva da história nacional.

O evento contou com a presença do Presidente da República, que considerou a obra essencial para o resgate da memória histórica do país.

“O que se aprende com o autor são valores nobres, liberdade, independência, soberania, integridade territorial e, sobretudo, valores de luta pelo povo moçambicano”, afirmou o Chefe do Estado, sublinhando a importância de preservar a história da luta de libertação para as gerações pós-independência.

O Presidente apelou ainda aos combatentes veteranos para continuarem a escrever e documentar as suas memórias, assegurando apoio institucional à produção e edição destas obras, que considera fundamentais para inspirar o presente e o futuro.

Raimundo Pachinuapa integrou o grupo dos 350 guerrilheiros moçambicanos treinados na Argélia, protagonistas do início da luta armada em Setembro de 1964.

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