A Universidade São Tomás de Moçambique (USTM), com sede em Maputo e extensões em Xai-Xai e Macia, está mergulhada numa crise sem precedentes que expõe denúncias de má gestão, favorecimento familiar e disputas internas pelo controlo da instituição.
No centro da polémica está o ainda reitor, Prof. Doutor Joseph Matovu Wamala, natural de Uganda, com nacionalidade moçambicana, que dirige a universidade há mais de 21 anos. Nomeado pelo fundador e patrono, o falecido Cardeal Emérito Dom Alexandre dos Santos, Wamala enfrenta agora forte contestação da Fundação Cardeal Dom Alexandre, a entidade que gere o legado do falecido fundador.
Sacerdote nos primórdios, Wamala renunciou ao prelado e casou-se com Catarina Mahumana, sua ex-secretária nos tempos de seminário. Desde então, o casal tornou-se a dupla mais poderosa da USTM.
Mas, segundo várias fontes internas, ligadas à USTM, a família Wamala tornou-se no principal beneficiário da universidade. As empresas de limpeza, segurança, jardinagem, reprografia e até o sistema de gestão académica foram adjudicados à EduGest, sociedade controlada por Catarina Mahumana.
Enquanto isso, os salários de docentes e pessoal técnico-administrativo estão constantemente em atraso. Ainda este ano, cerca de três milhões de meticais saíram dos cofres da universidade para custear a festa de doutoramento de Catarina Mahumana, realizada no Hotel Polana, enquanto os professores esperavam pelos seus vencimentos.
A morte do Cardeal e a disputa pela sucessão
Com a morte de Dom Alexandre, o testamento deixou claro que a USTM passaria a ser gerida sob tutela da Fundação Cardeal Dom Alexandre José Maria dos Santos, onde as Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Mãe de África ganharam protagonismo.
Nesse contexto, de acordo com as cartas a que “Carta” teve acesso, nas reuniões realizadas entre 5 e 15 de Setembro, o Prof. Doutor António Cipriano Parafino Gonçalves, antigo director académico e vice-reitor da USTM, foi indicado como novo reitor.
A decisão, comunicada na carta assinada pela Irmã Angelina Benedito Langa, gerou forte contestação da ala de Wamala, que acusa as religiosas de manipulação, falta de transparência e atropelo dos estatutos.
O contra-ataque de Wamala
No dia 26 de Setembro, Wamala divulgou um extenso comunicado à comunidade académica, onde denunciava “ilegalidades atrás de ilegalidades” na nomeação de Parafino. Classificou a tomada de posse do novo reitor como um acto “teatral”, conduzido em segredo e sem participação da comunidade universitária.
O reitor cessante acusou ainda as religiosas de usurpar poderes e invocou até o Direito Canónico para contestar a legitimidade das suas funções. Alega que a validade da nomeação de Parafino Gonçalves está agora entregue aos tribunais.
Horas depois, a Fundação Cardeal Dom Alexandre respondeu com uma carta contundente, assinada pela sua presidente, Irmã Angelina Langa, desmontando as alegações de Wamala.
No documento, a Fundação acusa o reitor de “danosa gestão”, aponta irregularidades graves e confirma que todas as deliberações do Conselho Geral foram tomadas com 98% de maioria, não podendo ser invalidadas por “capricho pessoal”.
A carta instrui o novo reitor, António Parafino, a negociar a aposentação de Wamala “em condições condignas”, mas alerta que vários dossiês de má gestão poderiam ser judicializados, incluindo a falta de transparência na gestão financeira, ausência de relatórios e contas durante vários exercícios e terceirização de serviços para empresas maioritariamente detidas por Catarina Mahumana, familiares e amigos.
As ameaças da Fundação incluem também a denúncia dos empréstimos contraidos por Wamala para investimentos alheios à universidade, actividades familiares concorrentes com a própria USTM, caracterizadas pela Fundação como “improbidade gritante”. Num tom firme, a carta exorta Wamala a “conformar-se com as deliberações do Conselho Geral” e alerta que, em última instância, poderá ser excluído da fundação por indignidade, com o caso remetido às autoridades.





