O Colégio Aboobacar Sidik, localizado na Matola F, província de Maputo, foi recentemente palco de um episódio de violência que reacendeu debates sobre disciplina, valores e a responsabilidade partilhada entre escola, família e sociedade.
Na quinta-feira (11), uma aluna da 10ª classe foi violentamente agredida por uma colega de escola dentro da casa de banho da instituição. A cena, registada em vídeo por outros estudantes que, em vez de intervir, assistiram passivamente, foi rapidamente partilhada nas redes sociais, onde provocou uma onda de indignação entre pais, encarregados de educação e cidadãos em geral.
As imagens mostram dezenas de adolescentes a cercarem o espaço da agressão, alguns incentivando, outros apenas a filmar, sem que houvesse qualquer tentativa de parar a agressão. O silêncio cúmplice e a ausência de acção dos colegas foram, para muitos, tão alarmantes quanto a própria violência.
Segundo relatos recolhidos no local, o episódio teve origem em comentários depreciativos feitos por uma das estudantes em relação aos pais de colegas, o que terá criado tensão nos grupos de adolescentes envolvidas. No entanto, ainda segundo relatos, a agressão filmada foi apenas a primeira parte do conflito, pois, depois de ser violentada, a estudante, com ajuda de uma prima, terá procurado retaliar contra a colega agressora, numa nova cena de violência.
Pais e encarregados de educação não esconderam o repúdio. Muitos foram às redes sociais denunciar não apenas o acto, mas o que consideram ser um reflexo da crise de valores que afecta a juventude. “Infelizmente, casos como este revelam um problema que vai muito além da escola, a má educação. Vivemos numa geração em que muitos jovens cresceram sem disciplina, sem limites claros e sem noção de respeito pelo próximo. Hoje, muitos pais confundem amor com excesso de mimo e deixam de transmitir responsabilidade e valores. O resultado é este”, desabafou um dos encarregados.
Outro pai acrescentou: “o problema não é apenas da escola, mas da sociedade no seu todo. Precisamos reflectir sobre o tipo de educação que damos em casa, porque é aí que se forma o carácter”.
Por sua vez, a direcção do Colégio Aboobacar Sidik, que lecciona o ensino primário e secundário há mais de 20 anos sob tutela do Ministério da Educação, confirmou que só tomou conhecimento do caso através dos vídeos amadores partilhados online. A instituição lamentou profundamente o episódio, sublinhando que põe em causa o bom nome da escola, e garantiu estar a trabalhar com os pais das estudantes para encontrar uma solução. A direcção acrescentou ainda que serão aplicadas medidas disciplinares em conformidade com o regulamento interno.
Apesar de ser considerado o primeiro caso registado dentro do recinto, não é a primeira vez que a escola é associada a episódios de violência estudantil. Há cerca de quatro anos, outro vídeo amador circulou mostrando alunos devidamente uniformizados em confrontos físicos fora das instalações, entre os quais se destacava um estudante identificado apenas como Dimitre. Esse episódio, tal como o actual, deixou marcas na reputação da instituição.
O colégio, que recebe centenas de alunos todos os anos, é conhecido por praticar propinas relativamente acessíveis, comparativamente com outras escolas privadas da região. Os encarregados de educação pagam pela matrícula da 1ª classe cerca de 4 240 meticais e uma mensalidade de 1 750 meticais. Para 7ª e 8ª classes, a matrícula custa 4 400 meticais e a mensalidade 2 000 meticais. Já os uniformes têm valores de 600 meticais para camisetas e 1 000 meticais para o conjunto de Educação Física.
Para muitos pais, o custo financeiro não é o maior problema, mas sim a garantia de segurança e formação moral dos seus filhos. “Podemos pagar propinas, uniformes, tudo, mas não podemos pagar pelo carácter. Isso forma-se em casa e deve ser reforçado na escola. O que vimos nos vídeos foi lamentável e perigoso”, disse um dos encarregados à “Carta”.
Enquanto a direcção da escola promete sanções disciplinares e um reforço das regras de convivência, muitos especialistas lembram que o problema é mais profundo. O episódio expõe fragilidades não apenas do ambiente escolar, mas de uma sociedade que, aos olhos de vários encarregados, tem falhado em transmitir disciplina, respeito e empatia às novas gerações.





