Moçambique deve acelerar a sua capacidade militar na luta contra os grupos armados na província de Cabo Delgado, para não estar condicionado à “defesa por procuração”, como acontece actualmente com a ajuda do Ruanda, cuja missão na região norte tem o financiamento ameaçado pela Bélgica, consideram pesquisadores moçambicanos.
O Governo da Bélgica pediu, na última semana, à União Europeia (UE) que pare de financiar o Ruanda na guerra contra o terrorismo em Cabo Delgado, como parte das sanções a Kigali, pelo apoio aos insurgentes do M23, que ocuparam recentemente as principais cidades do leste da República Democrática do Congo, região rica em recursos naturais.
“A situação geopolítica atingiu um nível de imprevisibilidade tal que Moçambique não pode continuar a contar com uma defesa e capacidade militar por procuração, como está a acontecer agora com o Ruanda”, defende Muhamad Yassine, investigador e docente de Relações Internacionais na Universidade Joaquim Chissano (UJC).
Yassine sublinha que o Governo moçambicano deve apetrechar e reforçar o poder militar para a proteccão das áreas fora do perímetro dos projectos de gás natural defendidas pelo Ruanda, porque um eventual corte de financiamento a Kigali pode afectar a presença deste país em Cabo Delgado.
“Como é improvável que a segurança em Afungi, que acolhe os projectos de gás, seja afectada, porque a protecção é garantida por uma força privada ruandesa e paga por multinacionais petrolíferas, o panorama que podemos ter é de um enclave seguro em Afungi e áreas fora desta zona abandonadas à sua sorte, se as Forças Armadas ruandesas saírem de lá, sem uma substituição à altura”, enfatiza aquele docente, com trabalhos sobre o extremismo no norte de Moçambique e na Tanzânia.
Para Muhammad Yassine, o comportamento agressivo da elite de Kigali também deve inspirar desconfiança em relação à lealdade com Maputo, uma vez que o apoio ao M23 e a ocupação de territórios ricos em recursos naturais na RD Congo pode ser replicado, em Cabo Delgado.
“Não há dúvidas de que o actual regime do Ruanda trabalha intensamente para projectar a sua força militar no continente africano e, através disso, ocupar territórios com recursos naturais”, enfatiza Yassine.
Por outro lado, prosseguiu, a geopolítica mostra que potências militares movem-se por causa de recursos naturais e não pelo simples altruísmo de proteger um outro Estado por agressão externa ou interna.
O pesquisador João Feijó, com trabalhos sobre a guerra em Cabo Delgado, considera que as fragilidades estruturais do Estado moçambicano, incluindo no domínio da defesa e segurança, colocam o país refém do apoio externo.
“Durante anos, houve desinvestimento, negligência e desvios de recursos que seriam destinados às Forças de Defesa e Segurança e isso debilitou profundamente as capacidades militares do Estado moçambicano”, frisa Feijó.
Ainda assim, entende que eventuais sanções da UE ao Ruanda não conduzirão necessariamente ao corte do financiamento aos militares daquele país que lutam contra o terrorismo em Cabo Delgado, porque os interesses geoestratégicos “operam com cinismo”.
O interesse estratégico de recursos como gás natural, grafite e areias pesadas vai travar uma eventual tentação pelo corte de financiamento às tropas ruandesas que protegem os projectos de multinacionais naquela província do norte de Moçambique.
“A UE pode, cinicamente, impor sanções ao Ruanda, pelo seu envolvimento na desestabilização da RDCongo, e, ao mesmo tempo, manter o financiamento do esforço de guerra contra os insurgentes em Cabo Delgado, para salvaguardar os interesses do grande capital do Ocidente”, enfatiza João Feijó.
Fonte próxima da missão de treino da UE aos militares moçambicanos disse à Carta que “não há nenhuma indicação de que hipotéticas sanções ao Ruanda possam ter implicações negativas no combate ao terrorismo em Cabo Delgado”.
Por outro lado, avançou a fonte, o treino que tem sido proporcionado pela UE às forças moçambicanas permitiu uma maior capacitação em tácticas de combate ao terrorismo.
A tensão entre o Ruanda e a Bélgica aumentou de escalada na semana passada, quando o país africano decidiu expulsar o embaixador belga e pessoal diplomática, levando o Estado europeu a exercer reprocidade.