O académico e activista social Adriano Nuvunga dirigiu uma carta pública ao Presidente da República, questionando o pedido de contribuição de 20 Meticais às famílias moçambicanas para apoiar as escolas públicas. Adriano Nuvunga afirma que o Governo continua a financiar consultorias milionárias com recursos do erário público, o que levanta dúvidas sobre a prioridade dada aos gastos públicos.
O posicionamento surge na sequência do recente apelo de Daniel Francisco Chapo para que as famílias contribuam com valores simbólicos entre 20 e 50 Meticais, de modo a apoiar o funcionamento das escolas públicas. A ideia foi expressa durante a inauguração da Escola Secundária de Nhamatanda, na província de Sofala.
Para Adriano Nuvunga, à primeira vista, o apelo pode parecer compreensível, tendo em conta o período em que, mesmo em condições de grande pobreza, os moçambicanos se mobilizavam para construir escolas, acreditando que governar era um serviço público orientado para o bem-estar do povo. No entanto, argumenta, esse tempo passou. Hoje, enquanto se pedem sacrifícios à população, multiplicam-se esquemas de apropriação indevida do erário pelos altos dirigentes do país.
O activista cita como exemplo o Projecto de Mobilidade Urbana de Maputo, conduzido pelo Ministério dos Transportes e Logística, onde milhões de dólares foram adjudicados em consultorias para produzir relatórios, planos e estratégias, enquanto os problemas reais da mobilidade urbana permanecem praticamente inalterados. “Perante este cenário, torna-se difícil compreender como se pode pedir contribuições às famílias empobrecidas quando persistem gastos públicos que pouco impacto têm no bem-estar do povo”, escreve.
Nuvunga ressalta que o problema da educação, em Moçambique, não é a falta de vontade das famílias, mas a ausência de exemplos vindos do topo da hierarquia do Estado. “Num verdadeiro espírito de serviço público, os que governam deveriam ser os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios. Infelizmente, o que a sociedade vê hoje é exactamente o oposto. Enquanto o povo é chamado a contribuir com pequenas moedas para manter escolas abertas, os chefes do país continuam a beneficiar-se do erário público”, afirma.
Por isso, para Nuvunga, qualquer campanha para mobilizar contribuições populares corre o risco de ser vista não como um gesto de mobilização nacional, mas como um pedido dirigido a um povo já profundamente empobrecido, cansado de carregar sozinho o peso de um sistema que não o serve.





