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10 de December, 2025

Combate aos acidentes: fazer igual e esperar resultados diferentes, escreve António Prista

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Este final de semana fiz uma viagem na estrada nacional número 1 (N1), coisa que faço regularmente. Sempre temeroso, dada a frequência de condutores descuidados que provocam os acidentes fatais que todos conhecemos, dediquei-me a observar o comportamento dos agentes da polícia, corporação determinante na prevenção rodoviária. Em cerca de 180 Quilómetros, cruzei com 12 controlos policiais, o que dá 1 controlo por cada 15 Km. Os agentes estavam nos locais habituais, e apenas dois dos doze postos controlavam a velocidade. Os restantes paravam preferencialmente chapas e carros de matrícula estrangeira, e basicamente pediam documentos (carta, livrete, inspecção e seguros).

Esta atitude é recorrente. Faz tempo que esses controlos existem, nos mesmos locais e pedindo os mesmos documentos. Faz tempo que os acidentes não cessam e a mortalidade nas nossas estradas continua elevada. A única diferença que encontrei foi de que o número de agentes por posto aumentou visivelmente. Então, parece que algo diferente tem de ser feito. Se esta estratégia não resultou até agora, é quase certo que continuará a não resultar.

Se bem que os documentos que são solicitados sejam necessários, e se entenda a necessidade de inspecção do seu cumprimento, é obvio que os acidentes não são causados pela ausência dos mesmos. Não é ter ou não ter a carta de condução, o livrete e os seguros em dia que vai mudar algo na prevalência dos acidentes rodoviários. Também não me parece ser relevante controlar o excesso de velocidade em locais onde nunca houve acidentes, normalmente montados em tipo armadilha mas que todo o mundo sabe onde estão. Quanto à inspecção, poderia, sim, ser relevante controlar, se de facto ela fosse realizada com seriedade.

Todos sabemos que se consegue o papel a troco de alguns meticais, tenhamos o carro em condições ou não. E todos sabemos que a ausência de um destes documentos é contornada no controlo com o pagamento de uma “taxa” ao Agente. Aliás, isso é visível. Só nesta viagem, observei isso à vista de todos em dois casos. Um mal causado por quem recebe e por quem paga.

Os estudos existentes pelo mundo fora revelam três factores centrais das causas dos acidentes: (1) o estado das vias, (2) as condições técnicas das viaturas e (3) o comportamento dos condutores. Contudo, se pensarmos bem, o factor determinante dos acidentes está no comportamento dos condutores pois qualquer condutor cuidadoso previne-se quando dirige numa estrada em más condições ou com uma viatura danificada. Assim, uma acção que se queira efectiva tem sobretudo de dar prioridade ao comportamento dos condutores. E, como em qualquer acto educativo, isso tem duas vertentes: a educação pela instrução e a educação através de medidas intimidatórias. Afinal, fazemos isso quando educamos os nossos filhos (para quem educa…) perante um mau comportamento: explicando as razões desse mau comportamento e pondo-os de castigo, se necessário.

No meu entender, a energia policial que o país possui tem de se concentrar numa estratégia que espera ter resultados visíveis na segurança rodoviária. A maior parte dos acidentes decorrem de ultrapassagens perigosas e excesso de velocidade. Embora o álcool seja também um factor importante, dizem as estatísticas que ele é responsável por 18% dos acidentes, pelo que o seu controlo está longe de ser suficiente para estancar a saga de acidentes. Só nesta viagem, contei 11 ultrapassagens perigosas, que obrigaram os condutores a saírem para a berma porque uma viatura vinha perigosamente em sentido contrário. E isso, sim, tem de ser controlado e reprimido.

Olhando as causas dos acidentes e a nossa realidade, apraz-me fazer algumas sugestões de acções que me parecem exequíveis e, quiçá, poderão ajudar a mudar o estado das coisas, nomeadamente:

AO NÍVEL DO ESTADO DAS VIATURAS
– Controlo criterioso das inspecções, de forma a que não sejam passadas licenças em viaturas em mau estado.

AO NÍVEL DAS ESTRADAS
– Refazer totalmente a sinalização: é quase impossível sabermos a velocidade a que podemos ir por ausência de sinalização devida, e os limites de velocidade também não apresentam critérios consistentes;
– Manter as pintura das faixas e bermas no asfalto (até as estradas com portagens não têm sinalização no asfalto, o que não se entende).

AO NÍVEL DO CONTROLO DOS CONDUTORES
– Variar os locais de controlo policial;
– Priorizar a acção policial ao nível dos comportamentos e menos da burocracia;
– Agir sobre ultrapassagens perigosas;
– Agir sobre excesso de velocidade diversificando os locais e incidindo nos de maior risco.

Por último, me parece determinante uma reciclagem policial sobre ao papel e atitude da polícia que, ao invés de repressiva, deveria ser educativa. A acção policial é determinante, mas é preciso que vejamos os agentes como nossos protectores, e não como pessoas que estão na estrada para extorquir os cidadãos.

Não sou especialista de trânsito, pelo que me perdoem o atrevimento. Mas sou pai, avô e amigo, sinto-me inseguro por mim e por todos os meus.

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