Director: Marcelo Mosse

Maputo -

Actualizado de Segunda a Sexta

Banner
27 de Dezembro, 2024

Tensão pós-eleitoral: cerca de 2500 famílias moçambicanas fogem para o Malawi

Cerca de duas mil e quinhentas famílias moçambicanas do distrito de Morrumbala, na Zambézia, entraram nos últimos dias no distrito de Nsanje, no Malawi, fugindo da tensão pós-eleitoral em Moçambique, caracterizada por manifestações à escala nacional, convocadas pelo candidato derrotado Venâncio Mondlane, que rejeita o Acordão do Conselho Constitucional. A crise já levou ao assassinato de mais de duzentas pessoas, incluindo crianças, baleadas pela Unidade de intervenção Rápida, e a destruição de várias infra-estruturas públicas e privadas, para além de bloqueio de estradas.
 
O Comissário do Departamento  para os Refugiados, General Ignacio Maulana, disse que o fluxo de refugiados de Moçambique para Malawi não pegou a sua instituição de surpresa, uma vez que já era esperado. “Todas as agências, incluindo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Programa Mundial da Alimentação (PMA) e o Departamento de Assuntos de Gestão de Desastres (DODMA), entre outros, estão em alerta [e sabem] o que está a acontecer em Moçambique”, disse a fonte.
 
Por seu turno, o Comissário Distrital (DC) de Nsanje, Dominic Mwandira, disse que se espera que mais moçambicanos entrem no Malawi. O distrito de Nsanje, no extremo sul do Malawi, faz fronteira com os distritos moçambicanos de Morrumbala, na Zambézia e Doa e Mutarara em Tete.
 
Os refugiados moçambicanos estão actualmente abrigados nas comunidades de Mlolo, Tengani e Mbenje no distrito de Nsanje. “O que é desafiador é [a disponibilidade de] alimentos e outros itens essenciais para sustentar os moçambicanos. Há uma necessidade urgente de distribuição de alimentos nessas áreas”, disse Mwandira.
 
Ele informou que o Departamento de Serviços de Imigração e Cidadania está a registar todas as famílias moçambicanas que entraram no país.
 
Por outro lado, equipas do Departamento de Gestão de Desastres estão a registar todas as famílias que chegam em Nsanje para garantir que recebam assistência humanitária. O Comissário Distrital confirmou que todas as famílias que entraram em Nsanje são provenientes do distrito de Morrumbala, província da Zambezia, depois de atravessar o Rio Chire.
 
No início deste mês, Morrumbala foi palco de manifestações que culminaram com o espancamento do comandante distrital da polícia e a destruição de várias infra-estruturas, como o comando distrital da polícia, o tribunal distrital, a comissão distrital de eleições, o secretariado técnico de administração eleitoral, e a penitenciaria distrital, incitando a fuga de reclusos.
 
A imprensa malawiana apurou que as autoridades montaram um acampamento na Escola Primária de Chikonje em Mlolo e outros centros em Tengani e em Chazuka.
 
Por sua vez, o Comissário para Assuntos de Gestão de Desastres, Charles Kalemba, disse que os preparativos estavam em curso para fornecer alimentos e suprimentos essenciais às famílias deslocadas.
 
‘Esforços estão em curso para avaliar as necessidades das famílias afectadas e fornecer a elas suporte adequado”, disse Kalemba. A tensão em Moçambique também afectou a rota de importação de combustível para Malawi. No passado dia 10 de Dezembro, a Companhia Nacional de Petróleo do Malawi (NOCMA) disse que o problema de escassez de combustível no país foi agravado pelas manifestações em curso em Moçambique.
 
De acordo com o porta-voz da NOCMA, Raymond Kambale, a crise em Mocambique afectou o fornecimento de produtos petrolíferos ao Malawi. “Actualmente, estamos a contar apenas com uma rota, a rota da Tanzânia. Estamos, no entanto, gerindo a situação”, disse Likambale.
 
De forma recorrente, Malawi tem sido ao longo dos anos, abrigo seguro dos moçambicanos que procuram refúgio naquele país, em caso de conflitos ou desastres naturais em Moçambique.
 
Durante a guerra dos dezasseis anos em Moçambique, cerca de um milhão de moçambicanos, maioritariamente das províncias de Tete, Zambezia e Niassa refugiou-se no Malawi, e com o fim do conflito foram repatriados pela Organização Internacional para as Migrações (OIM).
 
Actualmente, mais de cinquenta mil moçambicanos vivem e trabalham no Malawi, quase todos em condições precárias. De acordo com o Banco Mundial e outras organizações internacionais, Malawi é dos países mais pobres do mundo e encravado dentro do território moçambicano. Por essa razão, é sujeito a suportar o fardo de uma eventual crise política ou humanitária em Moçambique, situação agravada pelo facto de não ter acesso directo ao mar. (Daily Times/Carta)

Sir Motors

Ler 4552 vezes