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5 de November, 2026

Moçambique e a nova descoberta de gás no sul da Tanzânia: ameaça ou oportunidade? escreve Zeferino Martins

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No dia 27 de Outubro de 2026, a Tanzânia anunciou a sua primeira descoberta de gás natural em mais de dez anos. Foi no poço Kasa-1X ST2, na concessão de Mnazi Bay, em Mtwara, a poucos quilómetros da fronteira com Cabo Delgado. A descoberta foi feita pela estatal TPDC em parceria com a francesa Maurel & Prom e está avaliada em 223 mil milhões de pés cúbicos (6,3 mil milhões de m3).

À primeira vista parece um número grande, mas colocado no contexto regional é modesto. Antes desta descoberta, a Tanzânia já detinha cerca de 57,5 biliões de pés cúbicos (TCF). O novo achado representa um acréscimo de apenas 0,4%. Moçambique, por sua vez, detém cerca de 160 TCF na mesma bacia geológica – a Bacia do Rovuma/Ruvuma. Ou seja, mesmo depois desta boa notícia para Dar es Salaam, Moçambique continua a ter quase três vezes mais gás provado.

A importância, portanto, não é volumétrica. É estratégica, porque os dois países disputam os mesmos investidores, os mesmos compradores de Gás Natural Liquefeito (LNG) e a mesma reputação de país seguro para megaprojectos.

As três ameaças reais

Primeiro, a concorrência por investimento. Tanto Moçambique quanto a Tanzânia estão a tentar atrair as mesmas multinacionais para financiar os seus campos. Cada avanço de um lado dá poder negocial às empresas para exigir melhores condições fiscais do outro.

Segundo, a corrida ao LNG. A Tanzânia negoceia há anos um projecto de $42 mil milhões para construir um terminal de exportação em Lindi, com a Shell, a Equinor e a ExxonMobil. Se conseguir fechar a Decisão Final de Investimento (FID) em 2026/27, passará a exportar cerca de 15 milhões de toneladas por ano a partir de 2031-32, competindo directamente com o Mozambique LNG da TotalEnergies, que reiniciou obras no início do ano 2026, e com o Rovuma LNG.

Terceiro, a velocidade do small-scale. Ao contrário dos megaprojectos offshore de Cabo Delgado, Mnazi Bay é em terra, tem gasoduto e central eléctrica já instalados. O governo tanzaniano já negoceia com quatro investidores para projectos de GNL de pequena escala e fala em primeira produção já em Novembro de 2026.

As três oportunidades para Moçambique

Primeiro, a validação da bacia. Provar que ainda há gás comercial em áreas consideradas maduras no lado tanzaniano atrai mais sísmica e investimento para toda a margem do Rovuma, incluindo o lado moçambicano.

Segundo, a diferença de escala e de propósito. O gás de Mnazi Bay é para consumo interno. Moçambique já é exportador efectivo com o Coral Sul FLNG e prepara-se para ser um dos 5 maiores exportadores do mundo quando Mozambique LNG e Coral Norte estiverem operacionais. São negócios diferentes.

Terceiro, o efeito de _hub_ regional. Com a nova linha de alta tensão Tanzânia-Zâmbia para a ligação ao _Southern African Power Pool_ e com a procura global de LNG a crescer mais de 25% até 2030, a existência de dois países produtores cria um corredor industrial que reduz custos para ambos.

Dois cenários até 2030

No Cenário A, a Tanzânia fecha o FID de Lindi. Moçambique terá de ser mais competitivo em termos fiscais, mas beneficia da criação de uma base regional de fornecedores. Palma, Pemba e Mtwara passam a partilhar mão-de-obra qualificada, o que pode gerar entre 35 mil empregos de pico na Tanzânia e 50 mil em Moçambique na fase de construção.

No Cenário B, mais provável a curto prazo, a Tanzânia não fecha o FID e foca-se no mercado interno. Nesse caso, por um lado, Moçambique passa a único novo fornecedor de LNG da África Oriental e consegue fechar contratos a preços melhores. Por outro lado, aumenta a pressão narrativa: se a Tanzânia consegue produzir gás em terra de forma rápida e segura, os investidores vão perguntar por que Afungi continua a atrasar.

Em resumo, a descoberta de 223 BCF em Mnazi Bay não é uma ameaça existencial para Moçambique enquanto exportador. É um sinal político. O verdadeiro jogo para Moçambique não é quanto gás tem – que é muito – mas a capacidade de transformar reserva em obra, e obra em emprego e receita, antes que a narrativa de “Tanzânia estável” ganhe mais força que a geologia.

Zeferino Martins*l
30 de Outubro de 2026
_(Com recurso a IA)_

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