Não sou jornalista nem especialista em finanças. Sou empreendedor que sobreviveu 16 anos a criar empresas em Moçambique, quase sempre com crédito dos bancos locais.
Escolho a palavra sobreviver de propósito. O que vivi não é uma evolução normal de mercado. É o estrangulamento lento e deliberado do nosso sector privado, sobretudo das PME, enquanto o sistema bancário se mantém ultra-líquido e altamente rentável.
Nos últimos 18 meses, por exemplo, o Banco de Moçambique cortou a taxa MIMO de forma agressiva, estando agora nos 9,5%, e a Prime Rate desceu para 16,00% este mês. São medidas positivas no papel. Mas experimente entrar, como PME, numa agência bancária a pedir fundo de maneio e diga-me se alguma coisa mudou. Nada mudou de facto!
Por isso hoje digo isto em voz alta, porque o silêncio está a matar o ecossistema de que todos dependemos:
1.Muitos Bancos… Pouca Banca a Sério
Temos 19 bancos licenciados, representando uma taxa por habitante superior a de muitos países vizinhos. Contudo, quatro instituições de capitais maioritariamente estrangeiros controlam mais de 70% dos depósitos, dos créditos e dos lucros.
Parece concorrência. Comporta-se como um oligopólio. E num oligopólio o cliente perde sempre.
2. Como os Bancos Continuam a Ganhar Enquanto a Economia Perde
De fora parece um mistério. De dentro é dolorosamente simples.
Resultado? Os bancos não precisam do crescimento do sector privado para serem rentáveis. Em 2024 o sector ainda registou centenas de milhões de meticais de lucro enquanto milhares de PME fechavam definitivamente as portas.
3. A Morte Lenta das PME: É Isto que Não Me Deixa Dormir
Tenho assistido a isto, em câmara lenta, há mais de uma década:
Matem o sector das PME e matam o emprego, as cadeias locais de abastecimento e qualquer esperança de uma classe média real. Ficam apenas os mega-projectos, importações e dependência.
4. Até o Governo Sente o Aperto
Quero ser justo. O actual Governo herdou um caos, dívidas ocultas, confiança destruída, cofres vazios. Hoje até o Estado tem dificuldade em obter crédito interno atempado e a preços razoáveis.
Se o próprio Governo está a ser sufocado, imaginem o que acontece ao resto de nós.
5. O Que Tem de Mudar, Da Boca de Quem Pagou Todas as Comissões
Não estou a pedir esmolas.
Estou a exigir um sistema que finalmente coloque o desenvolvimento nacional acima do conforto dos balanços:
Palavra Final, E Um Apelo Directo
Sobrevivi 16 anos, mas sobreviver não é o sonho com que comecei, e não devia ser o sonho de nenhum empreendedor aqui.
Os cortes de taxas são bem-vindos. Mas sem cirurgia estrutural são apenas analgésicos num doente com cancro.
Se ficarmos calados, nada muda. Se aceitarmos a morte das PMEs, aceitamos a morte da nossa independência económica.
Então, vamos deixar de falar em surdina pelos corredores. Vamos trazer esta conversa para a rua, para os jornais, Parlamento, redes sociais, onde for preciso.
Exigimos um sistema financeiro que sirva os moçambicanos em vez de se alimentar deles.
Isto não é barulho. É a voz de quem ainda está na luta.
A luta continua!
Nuno Lima
Empreendedor
CEO da DALIMA





