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19 de November, 2025

O Paradoxo Bancário de Moçambique: Por que é as Nossas PME Continuam a Morrer Enquanto os Bancos Continuam Fortes, escreve Nuno Lima

Escrito por

Não sou jornalista nem especialista em finanças. Sou empreendedor que sobreviveu 16 anos a criar empresas em Moçambique, quase sempre com crédito dos bancos locais.

Escolho a palavra sobreviver de propósito. O que vivi não é uma evolução normal de mercado. É o estrangulamento lento e deliberado do nosso sector privado, sobretudo das PME, enquanto o sistema bancário se mantém ultra-líquido e altamente rentável.

Nos últimos 18 meses, por exemplo, o Banco de Moçambique cortou a taxa MIMO de forma agressiva, estando agora nos 9,5%, e a Prime Rate desceu para 16,00% este mês. São medidas positivas no papel. Mas experimente entrar, como PME, numa agência bancária a pedir fundo de maneio e diga-me se alguma coisa mudou. Nada mudou de facto!

Por isso hoje digo isto em voz alta, porque o silêncio está a matar o ecossistema de que todos dependemos:

1.Muitos Bancos… Pouca Banca a Sério

Temos 19 bancos licenciados, representando uma taxa por habitante superior a de muitos países vizinhos. Contudo, quatro instituições de capitais maioritariamente estrangeiros controlam mais de 70% dos depósitos, dos créditos e dos lucros.

Parece concorrência. Comporta-se como um oligopólio. E num oligopólio o cliente perde sempre.

2. Como os Bancos Continuam a Ganhar Enquanto a Economia Perde

De fora parece um mistério. De dentro é dolorosamente simples.

O Estado continua a ser o cliente mais seguro, mais fácil e melhor remunerado. Bilhetes e Obrigações do Tesouro continuam a oferecer rendibilidades de dois dígitos sem risco.
Os spreads mantêm-se brutais. Deposita-se a 6–10%. A maioria dos empreendedores ainda paga taxas efectivas de 22–28% depois das margens de risco e comissões, mesmo com a Prime nos 16%.
As comissões e o câmbio nunca dormem. A “economia das taxas” continua a gerar dinheiro mesmo quando o volume de negócios desaba.

Resultado? Os bancos não precisam do crescimento do sector privado para serem rentáveis. Em 2024 o sector ainda registou centenas de milhões de meticais de lucro enquanto milhares de PME fechavam definitivamente as portas.

3. A Morte Lenta das PME: É Isto que Não Me Deixa Dormir

Tenho assistido a isto, em câmara lenta, há mais de uma década:

Juros efectivos de 22–28% devoram toda a margem antes de se poder reinvestir.
Regras de garantias (quase exclusivamente imóvel) excluem 90% dos empreendedores.
O cash-flow desaparece em comissões, oscilações cambiais e pagamentos atrasados.
Empresas que sobreviveram à Covid e ao escândalo das dívidas ocultas não sobreviveram à violência pós-eleitoral e à seca de liquidez de 2024–2025.
Novas empresas raramente chegam ao segundo aniversário.

Matem o sector das PME e matam o emprego, as cadeias locais de abastecimento e qualquer esperança de uma classe média real. Ficam apenas os mega-projectos, importações e dependência.

4. Até o Governo Sente o Aperto

Quero ser justo. O actual Governo herdou um caos, dívidas ocultas, confiança destruída, cofres vazios. Hoje até o Estado tem dificuldade em obter crédito interno atempado e a preços razoáveis.

Se o próprio Governo está a ser sufocado, imaginem o que acontece ao resto de nós.

5. O Que Tem de Mudar, Da Boca de Quem Pagou Todas as Comissões

Não estou a pedir esmolas.

Estou a exigir um sistema que finalmente coloque o desenvolvimento nacional acima do conforto dos balanços:

Incentivos reais e obrigatórios para creditar PMEsprodutivas
Regras de garantias que aceitem equipamentos, stock, contratos e facturas a receber
Spreads transparentes e verdadeiramente competitivos
Tribunais comerciais rápidos e fiáveis para que os bancos deixem de se esconder atrás do “risco”
Um Fundo de Garantia de Crédito capitalizado e a funcionar de verdade (basta de conversa)
Redução forte no rácio de reservas obrigatórias, continua dos mais altos de África
Um sector bancário avaliado não só pelo lucro, mas por quantos empregos e empresas moçambicanas ajuda a criar
Porque um país construído na extracção não tem futuro. Um país construído na criação tem.

Palavra Final, E Um Apelo Directo

Sobrevivi 16 anos, mas sobreviver não é o sonho com que comecei, e não devia ser o sonho de nenhum empreendedor aqui.

Os cortes de taxas são bem-vindos. Mas sem cirurgia estrutural são apenas analgésicos num doente com cancro.

Se ficarmos calados, nada muda. Se aceitarmos a morte das PMEs, aceitamos a morte da nossa independência económica.

Então, vamos deixar de falar em surdina pelos corredores. Vamos trazer esta conversa para a rua, para os jornais, Parlamento, redes sociais, onde for preciso.

Exigimos um sistema financeiro que sirva os moçambicanos em vez de se alimentar deles.

Isto não é barulho. É a voz de quem ainda está na luta.

A luta continua!

Nuno Lima

Empreendedor

CEO da DALIMA

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