O Parque Industrial de Beluluane (PIB), no distrito de Boane, província de Maputo, assiste nos últimos dias ao despedimento de centenas de trabalhadores de diversas empresas, após a Mozal rescindir contratos com vários fornecedores.
A multinacional australiana South32, principal acionista da Mozal e o Governo continuam longe de chegar a um acordo sobre a nova taxa de energia, a aplicar a partir de Março de 2026, e a empresa reitera que vai fechar a indústria de alumínio, caso não se ultrapasse o diferendo.
Para reverter o cenário, as empresas e trabalhadores afastados, incluindo a gestão do PIB, apelam a uma negociação que traga benefícios justos para o Governo e a Mozal.
A 14 Agosto passado, a mineradora australiana South32 admitiu a possibilidade de encerramento da Mozal, por falta de consenso nas negociações com o Governo sobre a nova taxa de fornecimento de energia, depois do fim do actual contrato, em Março de 2026.
Uma semana depois, a Mozal começou a reduzir o investimento, rescindindo unilateralmente contratos com vários fornecedores, alegadamente porque não sabe se irá continuar a operar depois de Março de 2026.
Como consequência, as várias empresas subcontratadas estão também a despedir centenas de trabalhadores, atirando-os para o desemprego.
O “choro” dos trabalhadores despedidos
Uma das despedidas é a Felismina Mandlate, uma jovem de 26 anos. Formada em serralharia, Mandlate entrou na Nat Africa, uma das subcontratadas pela Mozal, como estagiária, em Junho de 2023, mas só em 2024 conseguiu um contrato efectivo. Entretanto, em Setembro último recebeu a triste notícia de que tinha que parar de trabalhar.
Mandlate contou à “Carta” que foi com muito susto que recebeu a notícia de que tinham de parar de trabalhar.
Disse que está desesperada, porque vive numa casa arrendada, é solteira e tem dois filhos, o que torna a vida mais difícil. “Estou muito para baixo. Estou numa situação em que não sei onde pedir novo emprego, porque no parque ninguém está a contratar, senão despedir por causa desta situação”, afirmou Felismina Mandlate.
Com essa paragem brusca, viu também os seus projectos pararem. “Estava a pagar um terreno em parcelas, mas desempregada já não sei quando terminar o pagamento, muito menos começar a obra, para sair da casa arrendada”, lamentou.
Fidel Mboa também recebeu a notícia do seu afastamento da Nat Africa, com susto e preocupação. Aos 26 anos, ainda vive em casa dos pais, com a sua mulher. Mboa disse igualmente que os próximos dias não serão os mesmos, porque o desemprego ruiu os seus planos.
“Trabalhava para terminar a faculdade. Com o dinheiro, investia nos estudos. Como qualquer jovem, gostaria também de ter uma casa e carro próprios, mas com o afastamento, esses sonhos ficaram lamentavelmente comprometidos”, queixou-se Mboa.
Antes dos trabalhadores foram as empresas que perderam negócio – Nat Africa
Com mais de 20 anos no ramo de Engenharia Mecânica e com sede em Maputo, no PIB, a Nat Africa é uma das empresas afectadas pela redução do investimento na Mozal.
A empresa oferece serviços de engenharia industrial, reparação e manutenção de equipamentos industriais e serralharia geral, incluindo o fabrico de estruturas metálicas, construção e reparação de tanques de transporte de óleos e outros produtos.
Em entrevista à “Carta”, o Director-geral da Nat Africa, Arlindo Duarte, disse que tem recebido com preocupação as notícias sobre a falta de consenso entre o Governo e a Mozal, facto que culminou com a redução de investimentos por parte da indústria de fundição, com a interrupção do trabalho de revestimento de potes e dos empreiteiros associados.
Duarte afirmou que a Nat Africa se encontrava em recuperação, após meses em que não conseguiu produzir por causa do impacto das manifestações pós-eleitorais. Entretanto, há dias, com a redução de negócio por parte da Mozal, assumiu que iria continuar a somar prejuízos.
“Desde Outubro do ano passado, não trabalhei bem, até este ano não consegui produzir conforme. Então foram remendos aqui, adaptações acolá, à espera de uma fase de recuperação, mas tivemos a notícia de que a Mozal vai fechar o que frustrou as espectativas”, lamentou a fonte.
O gestor sublinhou, no entanto, que diferentemente de outras empresas, a Nat Africa não recebeu uma carta de rescisão de contrato por parte da Mozal, mas, mesmo assim, diz que no dia-a-dia, nota o impacto das decisões daquela indústria de fundição de alumínio.
“A empresa tem duas componentes, uma focada à área de projectos, com duração de três anos, e a outra de manutenção. Essa componente é que ficou afectada e é a maior da empresa. Tínhamos uma verba cativa para reinvestir, mas é esse valor que estamos a usar para manter a empresa até pelo menos Março do próximo ano”, disse Duarte.
Entretanto, o gestor disse que não está a manter a empresa com todos os trabalhadores. Empregava cerca de 80, mas teve que cortar a massa laboral para cerca de 15 colaboradores. Precisou que até esta semana, 50 trabalhadores já tinham recebido cartas de rescisão de contrato, mas adiantou que o número poderá atingir os 60.
Duys Moçambique
Empresa 100% nacional, a Duys Moçambique é das empresas que oficialmente recebeu a carta de rescisão de contrato com a Mozal, volvidos 23 anos de parceria, ao longo dos quais, a indústria de fundição desempenhou um papel fundamental na transferência de tecnologia para moçambicanos, que possibilitou à empresa expandir a sua actuação, para outros sectores estratégicos, como o petróleo e gás.
Em entrevista à “Carta”, Marco Correia, um dos Administradores da Duys, lamentou a rescisão contratual. Disse que “infelizmente, a decisão representa um desafio significativo para a empresa”. O nosso interlocutor não precisou em que medida a empresa foi lesada financeiramente, mas disse que os danos foram inevitáveis, para todos os fornecedores e parceiros, como os bancos.
“Esta decisão afecta não apenas a empresa, mas também toda a sua cadeia de valor, incluindo fornecedores e parceiros, como a banca comercial. Sendo a Mozal um cliente de grande relevância e dinamizador da indústria nacional, o impacto nas operações financeiras é inevitável. É importante referir que o investimento realizado foi fundamentalmente para responder às exigências dos contractos que a empresa tinha com a Mozal”, disse Correia.
Contudo, no que toca à mão-de-obra, a fonte precisou que “aproximadamente 160 trabalhadores nacionais, altamente qualificados, foram directamente afetados”. Sublinhou, porém, que a empresa que gere mantém relações sólidas com outros clientes estratégicos e prossegue com as suas operações nesses mercados.
A decisão da Mozal não afectaou apenas a Nat Africa e a Duys Moçambique e seus trabalhadores. Dados da Confederação das Associações Económicas de Moçambique (CTA) indicam que cerca de 20 empresas foram afastadas pelo consórcio que gere a indústria. Em termos de massa laboral, a CTA contabilizou cerca de 1000 trabalhadores atirados ao desemprego.
PIB abalado, mas diz ter “almofadas”
Em entrevista à “Carta da Semana”, o director-geral do MozPark, entidade que gere o PIB, Onório Boane, disse que o empreendimento está a ser afectado pela possível suspensão de operações da Mozal, da rescisão de contratos com subcontratadas e estas com os seus trabalhadores.
Entretanto, Boane assegurou que o PIB tem “almofadas” que lhe permitem continuar operacional, pois grande parte das empresas instaladas já não dependem da indústria de fundição do alumínio. A fonte precisou que operam naquela zona 70 empresas, das quais 40% (28) dependem da Mozal, mas a maioria (42) desenvolve as suas actividades em outros sectores.
“O Parque Industrial de Beluluane continua estável. O anúncio da Mozal sobre o possível encerramento de operações afecta de facto o parque, em grande medida, mas ao longo de 25 anos de existência, desenvolvemos a zona com empresas diversificadas”, disse a fonte. Segundo o gestor, o anúncio da Mozal deixa uma lição sobre a necessidade de diversificar a economia no geral.
Em termos de impacto, o nosso entrevistado explicou que, em caso da retirada da Mozal, as 28 empresas que dependem diractamente da indústria podem perder o negócio, afectando quatro mil trabalhadores imediatamente. Assinalou que a Mozal é uma indústria que exporta 90% da sua produção, contribuindo para a atração de divisas para o país. A saída da Mozal pode provocar um grande défice na balança comercial do país, caracterizada maioritariamente por importações.
“Vamos ter impactos também no que toca à contribuição da indústria transformadora no Produto Interno Bruto, que é de 10% no total, ora a Mozal contribui com metade dessa cifra. Isso significa que a Mozal é um mega-projecto. Mas mais do que dados estatísticos, a Mozal é uma identidade industrial para Moçambique. Chegou numa altura em que o país não era atractivo para aquele tipo de investimento, porque acabava de sair da guerra de desestabilização. Contudo, instalou-se, inspirou outras indústrias e hoje continua a maior indústria transformadora do país”, acrescentou Boane.
Todos esperam por um acordo justo para Governo e Mozal
Tanto os trabalhadores quanto os gestores das empresas e do PIB mostram-se optimistas no alcance de um acordo entre o Governo e Mozal. Apesar de terem certeza da aproximação de dias difíceis, Felismina Mandlate e Fidel Mboa disseram ter esperança de que o Governo e a Mozal cheguem a um acordo de benefício mútuo e, com isso, retomem os seus postos de trabalho.
“A expectativa é de que as actividades normais sejam retomadas. Acredito que não é desejo do Governo de se livrar de uma Mozal e nem é intenção da Mozal de se desfazer do negócio em Moçambique. Nesse contexto, espero que se chegue a um acordo em que quer o Governo, quer a Mozal saiam a ganhar”, afirmou o director-geral da Nat Africa
A Duys Moçambique mantém-se serena, acompanhando a evolução do processo e concentrando esforços no desenvolvimento contínuo da empresa.
“Existem oportunidades concretas no mercado, que exigem soluções inovadoras e de qualidade, as quais a Duys Moçambique está preparada para oferecer, continuando assim a gerar valor para a indústria nacional”, afirmou o Administrador naquela empresa.
Para o director-geral do MozPark, o fundamental é que haja uma negociação franca, em que tanto o Governo, quanto a Mozal tenham benefícios justos.
Boane sublinhou que a questão do ajustamento do preço de energia é bastante justa, pelo que a Mozal não pode comprar energia ao mesmo preço de há 25 anos. Segundo o gestor, a Mozal concorda, mas não aos níveis pretendidos pela Hidroelétrica de Cahora Bassa.
Num outro desenvolvimento, Boane defende que a forma mais estratégica para resolver o diferendo entre o Governo e a Mozal seria a redução das exportações do alumínio bruto.
Segundo o director-geral adjunto do PIB, a Mozal produz acima de 550 mil toneladas por ano, mas só deixa no país cerca de 50 mil a 60 mil toneladas por ano, para a produção de cabos eléctricos que também são exportados.
“Mas imagine se deixasse 40% a 50% do alumínio no mercado nacional, o país teria matéria-prima para um leque de produtos, como latas de refrigerantes, jantes para viaturas, panelas, portas entre outros. A partir dessa cadeia de valor de processamento local do alumínio, nós poderíamos criar entre cinco mil a 10 mil postos de trabalho para moçambicanos e, com base nesses postos, o Governo iria colectar impostos”, defendeu Boane.
Braço-de-ferro entre Governo e Mozal persiste
Enquanto os trabalhadores, empresas e o PIB “choram”, o Governo e Mozal continuam longe de alcançar acordo sobre a nova tarifa de energia para 2026. Face a isso, a multinacional de fundição não para de ameaçar fechar a indústria em Moçambique.
“Embora continuemos a nos envolver activamente com as principais partes interessadas, as negociações para garantir o fornecimento de eletricidade suficiente e acessível além de Março de 2026 não progrediram significativamente”, afirma o CEO da South32, Graham Kerr, num relatório trimestral, datado de 21 de Outubro.
“Sem o fornecimento de eletricidade necessário, esperamos que a Mozal seja colocada em cuidados e manutenção no final do contrato atual, mas continuamos a fazer tudo o que podemos para encontrar uma solução”, declarou Kerr, num relatório em que sublinha que Mozal Aluminium aumentou a produção trimestral em 3%.
A estrutura acionista da Mozal tem a multinacional australiana South32 como seu maior acionista, e a participação inclui também a Industrial Development Corp da África do Sul e o Governo Moçambicano.



