1.O enigma do discurso indirecto
Nyusi falou hoje com DHL em mais uma prospectiva para a paz e no seu testemunho sobre essa conversa, que acaba de passar na TVM, ele disse que os dois vão continuar conversando. Que não é de um dia para o outro; que é preciso ir criando confiança; que o Governo não descartou mediadores; e que ele, Nyusi, estava animado porque “Dhlakama falou comigo usando um discurso directo”.
O PR enfatizou que DHL não usou um “discurso indirecto”.
Minha interpretação é a de que Nyusi percebeu que, do lado da Renamo, tudo depende de DHL e que DHL alimenta uma forte convicção. E sobretudo remete para a ideia de que DHL é a autoridade máxima na Renamo; o dono do processo decisório do grupo.
Mas o recurso de Nyusi a essa caracterização da conversa com DHL alimenta um enigma. O de estabelecer a própria natureza do discurso de Nyusi na conversa com DHL, ou seja, se Nyusi também goza desse poder de autoridade, sobretudo porque o recurso àquela caracterização faz pensar que Nyusi admite que, entre os dois interlocutores, pode haver forças incontornáveis, cuja voz é decisiva no roteiro da paz. Estou certo?
2.Há na cobertura televisiva da passagem do ano um olhar oblíquo que faz tábua rasa do país real, como se o álcool tivesse engolido toda a crise. São manjares gordos e festanças quitais.
E no alinhamento a mesma conformidade da expectativa oficial: os bebés nascidos e as oferendas parcas. O reporte das incidências médicas e o relatório policial. O país pedinte, a plebe faminta passa ao lado. A narrativa é o lado solar da pátria. E depois esse turismo de massas, que também ja se firma na Macaneta…Se a Ponta de Ouro estivesse à mão de colher…Ok temos praia para todos, incluindo para aqueles cuja cultura de veraneio é despejar cacos na brancura da areia. Mas nem toda a praia é para todos…nem Bazaruto nem Quilalea.
Mas que dizer da passagem do ano em Mopeia….lá também ha fogos e paixões que a edilidade maputense não consegue iluminar?
3.Pois….todos os anos esperamos que o novo ano seja melhor mas muitos de nós acabamos não mexendo palha para que isso aconteça.
Podemos garantir nosso pão em casa mas fazemos pouco para melhorar a sociedade no geral.
Mantemos os mesmos hábitos ruins, atirando lixo ao chão, passando no vermelho, pagando subornos ao Polícia de Transito, furando na bicha de pão, minhando na esmola à velhota, deixando cacos de garrafas na praia, mijando nas árvores, roubando nos concursos públicos, subtraindo gasolina na serviço, oferecendo-se mais um carro de representação, desviando medicamentos, etc.
Nosso exercício de cidadania deve melhorar. Permitimos que nos roubem o bem colectivo e não protestamos. Continuamos um povo amorfo, domado, hipnotizado. Muito preferem a bajulação ao exercício da crítica e nessa empresa é ferrenha a disputa pelos lugares cimeiros de bajulador mais vistoso. De resto é isso que a classe política premeia. O mérito? Qual mérito?
2017 seria “mais melhor” se o Filipinho (veja como eles lhe chamam em privado…será que ele sabe?!!!) fosse mais pragmático nas suas tertúlias com o DHL. Esta treguazita mostra que se houver vontade eles podem calar as armas….afinal é possível. E resolver já…já com os doadores e o FMI. É um vexame esta dívida que nos sugou parte da auto-estima…
4. 2016 foi também marcado pela intolerância política
Bandos de assassinos a soldo tentaram marcar o compasso da livre expressão de ideias; e no plano puramente político os beligerantes jogaram abertamente a caça às bruxas, com assassinatos seletivos dos dois lados da barricada.
Foi um ano trágico, 2016, com tudo de sinistro e uma tentativa macabra de cercear a liberdade de expressão. Nesse plano, o acontecimento mais horroroso foi o assalto contra o Prof. José Jaime Macuane, como sempre promovido ao altar sanguinolento da impunidade.
Para além da vítima direta, aquele ataque foi também foi contra todos os que tem denunciado as derivas do poder público, muito embora essas opiniões estejam dentro dos estreitos limites da crítica inspirada pelo interesse público.
Nesse diapasão revanchista se insere também a remoção de uma placa que pretendia celebrar a memória e a obra do Prof. Giles Cistac, na Faculdade de Direito da UEM. Cistac foi também vitima da sua maneira de pensar diferente, da sua saturada busca para iluminar os caminhos da paz, que continua violentada.
Nos últimos três anos, o pensamento livre tem sofrido investidas de muitos lados, incluindo desse monstro tenebroso que dá pelo nome de auto-censura. Espero que 2017 seja diferente, pois uma sociedade só avança se ela permitir a crítica e a auto-crítica.
5.CIP, Carlos Serra Júnior e Bolsa de Mercadorias de Moçambique: Actores marcantes em 2016
a) CIP
Fundado em 2005 num contexto em que a corrupção já era um problema profundo no Estado e na sociedade, o Centro de Integridade Pública afirma-se como uma organização vanguardista na denúncia da corrupção e na promoção da integridade. Com uma produção profícua, entre estudos e ações de advocacia, a organização se tornou uma incontornável ferramenta de interesse público.
Sua intervenção abrange sectores relevantes como a industria extractiva e as finanças públicas, e temáticas fulcrais como o procurement público e o conflito de interesses, tendo como eixo comum a anticorrupção e a probidade pública, elevando a consciência cívica nessas matérias e estimulando a transparência e a reação penal onde elas são necessárias, como foi em 2016 no caso da dívida oculta. Sua atuação nesta matéria foi incisiva e decisiva para a criação de uma consciência social de rejeição da corrupção, um fenómeno que atrasa o desenvolvimento e perpetua a pobreza, com custos tremendos para o bem público, como o próprio CIP demonstrou este ano com um estudo seminal em parceria com o Christian Michelson Institute.
b) Carlos Serra Júnior:
O jurista ambientalista já dava cartas quando era um dos esteios da sociedade civil na defesa da boa governação ambiental. Sua marca de água assenta na perspicácia e na persistência sem limite. Seu mote é fazer as coisas acontecer. E levar as pessoas a tomarem acção em prol da causa ambiental.
Há poucos anos, deixou a sociedade civil onde era mal compreendido e estava se embrenhando no sector privado quando foi convidado para colaborar no MITADER. Não abandonou sua operação contra o lixo e contra os cacos, uma façanha que arrastou aderentes e suscitou réplicas em muitos lugares deste país. No Mitader ele é a face mais visível de uma equipa que se tem destacado por suas acções incisivas contra a depredação ambiental, com a caça furtiva e chacina florestal como os principais alvos.
A aprovação de uma Lei que desincentiva a exportação de madeira processada, através de uma sobretaxa, foi um grande feito em 2016. Não foi um feito isolado do Carlos mas é difícil fazer vista grossa ao seu papel dinamizador.
Há pessoas especiais, mobilizadoras, cativantes e empenhadas na justiça ambiental e ninguém pode retirar estes atributos ao Carlos.
c) Bolsa de Mercadorias de Moçambique
Muitos não a conhecem mas a criação de uma Bolsa de Mercadorias foi uma decisão acertada do Governo, sobretudo porque ela tem o potencial de dinamizar a comercialização agrícola. E é isto que vem acontecendo, em poucos anos, sob a batuta do jurista António Grispos, que abandonou uma carreira já firmada de gestor sénior na banca comercial. Em pouco tempo, a BMM tem ajudado no aumento dos rendimentos de produtores (como no caso doa arroz em Gaza).
Em 2016, a BMM introduziu um produto novo: o Sistema de Certificado de Depósito, que permite que o depositante de cereais pode, após o depósito em unidades de armazenamento geridas pela BMM, ter acesso a um crédito bonificado de até 70% do valor depositado, resolvendo o grande problema financiamento à agricultura neste país. Ou seja, agricultura e comercialização passam a ser financiáveis, com taxas de juros bonificadas. E os camponeses podem agora esperar por melhor altura para vender o seu produto e não apenas na época da colheita onde o preço é mais baixo.
O aumento dos preços aos produtores e aos comerciantes locais, nalgumas regiões de Moçambique, é um dos resultados da atuação da BMM, efeito directo da reduçao da assimetria de informação, pondo diretamente produtores em linha com compradores, eliminando alguns monopsónios locais. O grande desafio é fazer a ligação entre nossos mercados de cereais com os do estrangeiro. Isso seria ouro sobre azul.
Uma experiência que está ser testada é com a Índia. A BMM é de grande utilidade para o futuro de Moçambique.
PS: Declaração de interesse: Sou membro fundador do CIP, pertenço aos seus órgãos sociais mas não exerço lá nenhuma função deste que deixei o cargo de Diretor Executivo.
6.Manuel de Araujo
Já o Prof. António Francisco se referiu à ligeireza com que você tratou dos salários de quem presta serviço na câmara de Quelimane, sobretudo quando você diz que o atraso foi um “ligeiro atraso”. Obviamente que não é ligeiro, não senhor! Agora seus argumentos para esse tamanho atraso teriam algum peso se tivessem sido dados em antecipação à denuncia dos trabalhadores e dos militantes da Frelimo. Depois da denúncia feita tornaram-se argumentos ligeiros.
Para quem tem sua formação e dirige uma autarquia que a Frelimo pretende recuperar a todo o custo, era de esperar uma atitude proactiva relativamente à comunicação sobre os problemas. Vir aparecendo sempre na reacção (como também se viu no caso do lixo) é igualmente de uma ligeireza gritante.
7.Trégua… ou para os militares isso que se lixe!
Parece que há mesmo quem teima em desobedecer as instruções do PR Filipe Nyusi. Ou isto é mesmo trégua ou é apenas mais um episódio burlesco do nosso teatro de marionetas.
Se há trégua total, então as colunas militares devem parar de circular. Será mesmo que os militares conseguem desobedecer assim tao levianamente? Insistindo em gastar combustíveis e usando todos os meios disponíveis quando eles (os homens e os meios) deviam estar acantonados? Quem conhece bem diz-me que há naquelas colunas um submundo de cobranças ilícitas e parece que ninguém quer perder esse modo zairense de vida.
O que a guerra faz….mundos paralelos, submundos de extorsão e todo o tipo de violência. Há em dimensão micro e macro. Este é apenas um indicador de como a economia da guerra teima em funcionar onde todos querem paz…estar acantonados? Quem conhece bem diz-me que há naquelas colunas um submundo de cobranças ilícitas e parece que ninguém quer perder esse modo zairense de vida.
O que a guerra faz….mundos paralelos, submundos de extorsão e todo o tipo de violência. Há em dimensão micro e macro. Este é apenas um indicador de como a economia da guerra teima em funcionar onde todos querem paz.
8.O acordo de leniencia conseguido pela Odebrecht ainda vai causar danos necessários cá em casa.
Como isto envolve americanos, os detalhes serão revelados mais dia menos dia. Pelo que ja foi publicado, parece ficar claro que nossas elites se deixam corromper por pouco. A Odebrecht pagou cerca de 1 bilhão de USD em subornos em 12 países mas apenas menos de 1 milhão entrou em bolsos locais. Tal como no caso da Embraer…uns 800 mil USD para uma encomenda de mais de 50 milhões de USD. Entretanto ela ganhou obras e obras e assentou arraiais cá no burgo.
Um acordo de leniencia envolve o reconhecimento por parte de uma empresa de que fez pagamentos por baixo da mesa, distorcendo o mercado. Então, como ela pretende continuar a operar, paga uma multa pesada. Mas isso, no caso vertente, vai acontecer apenas no Brasil, nos EUA e na Suíça.
Não sei se no nosso ordenamento jurídico existe a figura do acordo de leniencia. Se eu fosse Estado já estaria a buscar um subterfúgio legal para uma multa ser aplicada nestes casos. Embora estivesse também a comprar guerra com nossas eminências pardas que preferem ver a mola nos seus bolsos a não nos do Tesouro. À propósito da taxa da corrupção de nossas elite, tou curioso para ver o que a auditoria da Kroll vai revelar sobre as comissões pagas.
Pois foi muita fruta.
9.O anti racismo Samora
Num ano em que se celebrou Samora, sua memoria foi venerada com justeza e ultrajada com leveza.
Creio que a homenagem feita foi um dos grandes acontecimentos do ano. O colóquio na UEM serviu para singularizar seu lado humanista, seu sentido de justiça, sua postura incorruptível, entre muitos outros valores.
Uma vertente temática não pensada foi o seu anti-racismo profundo. Eventualmente será urgente um colóquio para denunciar um certo abuso de interpretação que pretende fazer tábua rasa de uma definição de cidadania e um cacho de relações que não tinha a raça como factor de relevo, empurrando sua personalidade para o lugar submisso do lacaio. Lacaio dos brancos!. Ora, está visão encerra um revisionismo bacoco, uma tentativa de macular um personagem justamente numa dimensão onde ele demonstrou sua grandeza: ele era um anti-racista. Tal como a Frelimo, aliás. A definição de inimigo na luta armada nao tinha cor. Assim como a definição da nossa cidadania.
Samora era de uma personalidade forte para estar subjugado por um grupo racial.
Uma das virtudes da Frelimo foi cultivar uma sociedade multirracial, fazendo de Moçambique um interessante mosaico cultural. Os brancos? Os brancos estiveram desde o início da luta. E participaram activamente nas suas várias etapas e na fase pós-independência.Seria de um doentio racismo se Samora optasse por rejeitar o seu contributo e fizesse uma purga racial. Para quê? Mas que debate é este? Aonde é que querem chegar com este truncar sem paralelo da História?
10.Um teleprompter para o Presidente
Foi penoso ver o PR ler ontem aquele discurso sem a firmeza de Samora, a argúcia de Chissano e a ratice de Guebuza. Nyusy não é um político de gema. Um político nato cresce fazendo discursos nos seus sonhos, gritando comícios na casa de banho. E quando chega ao poder é só decalcar da prática.
Em quase dois anos de consulado, as leituras públicas do PR são muito criticadas. Ele se engasga muito. A Zenaida Machado diz que ele devia treinar antes de uma leitura pública. É uma saída. Mas mesmo que treine, o problema é que seus discursos são escritos de forma macuda, sem aquela leveza que permitiria uma leitura fluída e descompassada. Depois são uma esteira lamacenta de cortes e colas, com algumas frases desconexas.
O facto de serem tão longos tambem não ajuda. Um discurso de duas horas pode levar a impressão de que isso reflecte muito trabalho mas não é bem assim. Os seus discursos tem muito de repetido como de trivial, como essa de, ontem, ter incluído, um comunicado de imprensa da Galp Energia quando isso podia ser repassado à Ministra Deusina. Pois o PR não merece isto. Duas horas dá muita parra.
A redacção dos discursos do PR devia evoluir, estudando as conjugações e formulações onde ele mais encalha (isto não é um problema exclusivo dele). E ir escrevendo linhas mais compatíveis como a sua dicção. A língua é flexível…uma ideia poder ser comunicada de várias maneiras. Por favor, poupem o Presidente. Por exemplo, agora com a Mensagem de Fim do Ano, seria ideal que lhe escrevessem um texto mais curto e lhe colocassem a frente um teleprompter.
Queremos gostar de ouvir o Presidente a ler.
11. No firmamento de uma inóspita falta de humildade, a Nação parece escapar a um Estado que caminha para derrocada, mesmo que seus generais aludam à firmeza e moral das tropas.
Firmeza não tem a ver uma certa forma de ser ou com o bem estar geral mas com uma certa forma de estar castrense. Uma Nação só está firme em contraposição aos seus inimigos . E os combates mais visíveis são os dessa guerra que persiste e os dessa tentativa de contornar maquiavelicamente o dilema da transparencia no caso da dívida.
Dir se ia que estamos firmes contra a Renamo e contra os doadores. Mas é uma firmeza de retórica. Pois se o PR promete aliviar o custo de vida, elementar seria resólve os dilemas com ap Renamo e os doadores. Esses seriam os maiores subsídios para o alívio do custo de vida. Porque já não sobram margens para termos água, luz e pão mais baratos. Não tem como! Nem aludindo a uma firmeza geral quando todos sentimos esta desastrofe desabando nas várias nações que cabem neste Estado.
12. A reação pública ao assassinato de VG mostrou um país dividido , com ódios recalcados e uma sede torpe de vingança.
Como é de Homem, todo o mundo partilhou seu sentimento de pesar mas meio mundo celebrou usando o anonimato acovardado das redes sociais. Outros celebraram em privado. Mas uma morte não se celebra. Celebra se o que ela pode representar.
Em Miami, ninguém celebrou a partida de El Comandante; os exilados cubanos celebraram o que a sua morte representou: o início do fim de um regime que atraiu ódios e paixões. Ninguém vai contestar que em Moz o antigo PR AEG cultivou ódios e repulsa. Recordam-se da senhora da bomba atomica das Mahotas?
Mesmo dentro da Frelimo AEG cimentou relações hostis. Depois a percepção de um certo enriquecimento ilicito no contexto de um consulado durante o qual o pais foi conduzido como um negocio familar. Quer se queira quer nao, AEG tem um percurso politico cuja etapa final remete para uma encruziIlhada onde poucos lhe reconhecem méritos e muitos lhe apontam accoes graves de lesa pátria, com a guerra e a crise da duvida como pano de fundo. No campo das representações sociais, a celebração do crime contra Valentina significou para muitos não uma falta de compaixão e sentimento para com ela mas uma certa morte metafórica de AEG.
Quem morreu foi uma parte de AEG. É assim como alguns interpretam nas ruas. Podem ser sentimentos perversos mas eles representam as fissuras de uma sociedade sem justiça social, precarizada, empobrecida e muitos acreditam que AEG teve uma quota parte de responsabilidades neste percurso errático.
13. Do balanço do ano dirão que ele pende para o norte quando fornicamos todos os sóis da nossa esperança…com sangue a tiracolo e um desfile de escondidas onde o coito é um apeadeiro desabando.
Que balanço mesmo? Do sangue que nos suga o arfar vital?…e no palco um trapezista taciturno acenando com seu discurso de paz quando o enredo é uma tragédia fervilhante em sua sanha assassina. Paz falada?
Deixem-no ir sucumbindo lentamente, envolto em sua mortalha belica. Mas que balanço dum ano aos ziguezagues nos “my loves” dessa malfadada dívida que desnudou esta ganância fedorenta? E uma teimosia debitada a cada um dos nossos pobres. Pois ao Estado da Nação só a poesia pode safar.