A decisão do Grupo Sir de apostar numa frota de autocarros totalmente eléctricos para o transporte de passageiros no Grande Maputo é um passo ousado e visionário. Num país onde a crise de mobilidade urbana castiga diariamente trabalhadores e estudantes, ter veículos com capacidade para 140 lugares, silenciosos e sem emissão de dióxido de carbono, representa uma oportunidade rara de unir desenvolvimento urbano, sustentabilidade ambiental e inovação empresarial.
Do lado do Governo, a revisão da pauta aduaneira para viaturas eléctricas é igualmente um gesto a louvar. Corrigir o absurdo de uma tarifa de 45% — muito superior à aplicada para autocarros a diesel — não é apenas uma medida de justiça fiscal, mas um sinal político de alinhamento com a transição energética global. Sem isso, o país arrisca-se a punir quem inova e a premiar quem polui.
O paradoxo do gás natural
Mas aqui surge uma questão inevitável: sendo Moçambique um dos grandes exportadores de gás natural liquefeito (LNG), como transformar essa riqueza num catalisador de uma economia verde e moderna?
Por um lado, o gás é muitas vezes apresentado como “combustível de transição”, menos poluente que o carvão e o petróleo. Por outro, o país não pode ficar refém apenas da exportação bruta do recurso, sem criar cadeias de valor internas.
Eis onde reside a oportunidade: usar o LNG como alavanca para financiar e estimular a mobilidade eléctrica, as energias renováveis e a industrialização limpa. Em vez de termos o gás como um fim em si mesmo — apenas mais uma matéria-prima que sai pelos portos —, deveríamos pensar no gás como meio para acelerar a diversificação económica, apoiando políticas de transporte colectivo sustentável, produção de energia híbrida e incentivos à indústria automóvel eléctrica.
Mobilidade urbana como política de Estado
O caso dos autocarros do Grupo Sir mostra que a transição energética não é uma abstracção: é um tema concreto de mobilidade, de ar limpo, de qualidade de vida nas cidades. Quando o sector privado dá o primeiro passo, o Governo deve criar as condições — fiscais, regulatórias e de planeamento — para que a inovação não morra no papel nem fique parqueada em contentores alfandegários.
Se a pauta aduaneira for corrigida e se o Estado alinhar as suas políticas fiscais com a transição energética, Moçambique poderá abrir um ciclo virtuoso:
Menos custos para quem investe em soluções limpas.
Mais empregos em sectores inovadores.
Menos pressão sobre o transporte urbano.
Mais coerência entre o que exportamos (gás) e o futuro energético que queremos construir.
Conclusão
O gesto do Grupo Sir e a esperada correcção do Governo devem ser vistos não como excepções, mas como precedentes. Moçambique precisa de políticas que integrem a riqueza do gás natural numa visão estratégica de transição energética, em que carros eléctricos, transporte público sustentável e energias renováveis sejam parte de um mesmo plano de desenvolvimento.
Afinal, se exportamos LNG para iluminar e mover outras economias, porque não usá-lo para acelerar a modernização da nossa própria economia?
*Leitor devidamente identificado





