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Actualizado de Segunda a Sexta

30 de September, 2025

Limpeza nos serviços de segurança encurrala redes de raptos

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Mudanças nas estruturas da polícia e dos serviços de informação, bem como uma campanha de “saneamento”, dentro e fora da lei, de “agentes infiltrados”, podem ser algumas das razões por detrás do declínio drástico nos raptos no país, consideram várias fontes. “Infelizmente, alguns agentes que aparecem mortos com uma saraivada de balas eram tão polícias quanto criminosos, envolvidos com o crime organizado, incluindo raptos”, disse à “Carta” uma alta patente da Polícia da República de Moçambique (PRM).

Declinando apontar possíveis ligações entre os agentes da polícia que foram executados este ano, por desconhecidos, com o crime organizado, a referida fonte avançou que não se pode descartar que esses casos sejam uma forma encontrada de a corporação se desembaraçar, informalmente, de quadros “contaminados por actividades delituosas”.

“Os brasileiros usam muito a máxima ‘bandido bom é bandido morto’, portanto, se um polícia é também bandido bom, ainda que dissimulado, é polícia morto”, comparou.

A fonte disse não acreditar que o topo das hierarquias da polícia e dos serviços de informação dê orientações expressas para a eliminação de polícias delinquentes, assinalando que “esse trabalho pode ser obra de escalões intermédios”.

Admitiu ainda a possibilidade de as mortes de agentes serem obra entre colegas, como resultado do encurralamento a que estão sujeitos e da “retracção do resultado do crime, para dividir”.

A referida alta patente apontou a morte, num tiroteio com a polícia sul-africana, de “dollar man”, um homem procurado pelo SERNIC por, alegadamente, ser “o chefe de raptos” em Moçambique e na África do Sul, como resultado de acções consertadas contra este tipo de criminalidade.

“A polícia sul-africana começou a procurar o ‘dollar man’ a pedido das autoridades moçambicanas”, frisou.

Uma outra fonte afirmou que a nomeação de Joaquim Sive como Comandante-geral da PRM também pode ter “produzido acutilância operativa” contra raptos, porque se trata de uma figura que conseguiu conter esse tipo de delitos na Beira, quando era Comandante provincial da polícia em Sofala.

“Sive colocou toda a força da lei possível contra os raptos em Sofala e travou esse tipo de delitos”, apontou.

Por outro lado, a indicação de José Pacheco, considerado “implacável”, a director do Serviço de Informação e Segurança do Estado (SISE) também gerou um novo “élan” (impulso) no combate aos raptos.

“Pelo que fez em Cabo Delgado, quando era governador, e na Agricultura, como ministro, José Pacheco entrou no SISE com essa fama de impenitente e esses traços podem estar a produzir efeito na actuação desta instituição contra a criminalidade”, declarou a fonte.

Há empresários que já voltaram ao país

Uma fonte da comunidade de famílias de origem asiática, a mais visada pela onda de raptos, disse à “Carta” que, apesar de o sentimento de insegurança preval__ecer, existe a percepção de que há seriedade no novo Governo no compromisso com o combate aos raptos.

“Há alguns empresários que tinham fugido do país e que já voltaram. Outros ainda não regressaram, mas estão com esses planos. Querem ver a consolidação dos resultados, para voltarem, porque essa melhoria pode não passar de ‘força de soda’”, afirmou.

Números de entidades empresariais indicam que mais de 100 homens de negócios abandonaram Moçambique, devido à assustadora vaga de raptos.

Outra fonte ligada a uma entidade que faz a monitoria dos crimes de raptos na comunidade muçulmana reconheceu que se está a instalar a percepção de uma restauração gradual da segurança.

“No início deste ano, logo após a tomada de posse do novo Governo, foram registados três raptos confirmados e mais dois em circunstâncias estranhas, que não consideramos raptos”, afirmou, sugerindo um cenário de melhoria.

Dados do SERNIC indicam que a cidade de Maputo registou quatro casos de rapto durante os primeiros cinco meses deste ano, contra oito de igual período de 2024.

“Sentimos que este ano houve uma redução, comparativamente ao ano passado. Os casos de raptos na cidade de Maputo tendem a reduzir e, como podemos notar, até este último caso foi imediatamente esclarecido”, disse o porta-voz interino do SERNIC, João Adriano.

Adriano avançou que o último rapto aconteceu no dia 27 de Maio e a vítima é uma criança de oito anos de idade, mas que já foi resgatada e encontra-se no seio familiar.

Dados da aludida entidade de monitoria do fenómeno de raptos no país referem que 19 pessoas foram raptadas em todo o ano passado no país, mais um caso em relação a 2023.

Desde o registo dos primeiros casos, em 2011, foram contabilizados 214 raptos em todo o país, ainda de acordo com aquelas estatísticas, cuja tabela é designada: “Mais de 13 anos de impunidade”.

Aquele tipo de crime resultou em mortes, tendo sido assassinadas 11 pessoas, e em oito feridos, dos quais um ficou paraplégico. Registaram-se ainda 16 tentativas frustradas de raptos.

 Criminalidade multi-sectorial

A ex-Procuradora Geral da República, Beatriz Buchili, apontou, em vários “informes”, o envolvimento de advogados, juízes, magistrados do Ministério Público e quadros do SERNIC nos crimes de raptos, apelando a uma coordenação multidisciplinar na luta contra este tipo de delitos.

“Alguns que deviam estar na linha da frente do combate aliam-se aos criminosos e comprometem as investigações, o que desvirtua o espírito da sua missão de proteger o cidadão, de garantir a ordem e segurança pública”, acusou Buchili, falando no parlamento, em Abril de 2022.

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