Empresário, político, analista de geopolítica, líder religioso, Amade Chemane Camal Júnior era um homem que preenchia qualquer sala onde estivesse. A ninguém passava indiferente a presença de espírito, alma, vitalidade e energia que Amade Camal exuberava. Quanta vitalidade irradiava, que a notícia da sua morte não somente chocou por constituir uma perda irreparável para família, comunidade religiosa e Moçambique, mas também deixou a todos incrédulos a trágica notícia de que um acidente vascular cerebral (AVC) o fulminara na manhã de quinta-feira, 18 de Setembro, porque a vivacidade e vigor eram marca identitária de Amade Camal. Para citar Tom Wolfe, Amade Camal, ou French para os mais chegados, era “um homem em cheio”.
Nascido a 4 de Janeiro de 1956, Amade Chemane Camal Jr. era o terceiro de uma família de cinco irmãos, filhos de Amade Chemane Camal e de Zainabo Mogne, ora falecidos. “Junto comigo, fazia parte da segunda geração dos Mognes, meus irmãos e primos”, conta seu primo do lado materno Issufo Mogne, empresário e primo dos craques do basquetebol e irmãos Amade Mogne e Naimo Mogne. “Desde crianças que sempre nos tratamos por manos entre todos conforme os ensinamentos dos nossos pais, partilhando o mesmo prato e brincando quando nos juntávamos todos na casa da nossa saudosa avó Matriarca da família em Ressano Garcia, terra dos Mognes”, revela Issufo Mogne.
Seu pai Amade Camal iniciou a actividade empresarial em 1949 instalando uma oficina de reparação mecânica de automóveis na Rua Irmãos Roby, que inicia no cruzamento entre os bairros de Alto-Maé e Chamanculo, atravessa Minkadjuine e desagua no bairro de Xipamanine, na periferia de Maputo, hoje distrito municipal Nhlamankulu. Do lado contrário da via, Amade Camal pai iniciou uma serração de madeiras, a que denominou “Serração Irmãos Roby”, donde deriva o acrónimo SIR. Durante algum período, Amade Camal (filho) emigrou, tendo fixado residência em Portugal, donde regressa nos anos 80 e inicia novo ciclo no negócio fundado pelo pai.
Como “French” montou a SIR Motors
Revelador do pesquisador nato e estudioso inveterado de história, filosofia política e geopolítica que se tornaria num dos analistas políticos de referência no país, Camal chegou a viajar durante mais de 30 dias de carro da Bélgica a Portugal visitando parques automóveis dos países do Benelux (Bélgica; Netherlands ou Países Baixos; e Luxemburgo) e da Península Ibérica. Fazia parte do seu plano: montar a futura SIR Motors e fazer um shift tanto disruptivo quanto um salto quântico no negócio familiar.
“Desde cedo mostrou os seus dotes para o empreendedorismo com uma grande visão para os negócios e capacidade de realização, tendo virado um exemplo a seguir para os mais novos na família”, destaca o primo Issufo Mogne sobre “o nosso French, nos últimos tempos, tratávamo-nos por TiFrench e Tissufo, entre nós dois”.
Foi precisamente uma das suas paixões da juventude, os carros velozes e as corridas, que desencadeou sua veia empresarial voltada para os motores, para a mobilidade.
Ao tomar as rédeas do negócio, imprimiu-lhe nova dinâmica com a sua velocidade no pensamento e agilidade na acção. Amade Camal praticamente deixou a sua marca d’água impressa no negócio, que adoptou aquela que virou sua imagem de marca e deu por décadas uma nova identidade corporativa à empresa: Sir Motors.
Enquanto imprimia sangue novo no negócio familiar, como representante e vendedor de marcas internacionais de viaturas, Camal dava azo à sua veia de marketing e inovação, exercendo uma de suas paixões: a velocidade. Em finais dos anos 80 e princípios dos anos 90 do século XX, Camal animava as tardes do automobilismo na pista do Automóvel Touring Clube de Moçambique (ATCM), em despiques interessantes com nomes sonantes da modalidade, como Nito Khan, Amir Aly, Papillon, Mansur Waly. Camal pilotava seu Ford Sierra, representado precisamente pela sua firma, Sir Motors, usando também as pistas do ATCM como força de promoção e vendas sem colocar preço nem publicitar com um gramofone, pois as qualidades do carro falavam por si, quando Camal se sentava ao volante e exibia tanto seus dotes de condutor quanto os atributos de seus automóveis.
Com Amade Camal Jr. ao leme, de carros turismo, o negócio evolui para vendedor de camiões-cavalo ou camiões de transporte de carga pesada de longo curso, comprando e representando camiões de origem Americana. Sua veia política, de religioso e frontalidade custar-lhe-iam o negócio dos camiões americanos, quando este deputado na primeira legislatura multipartidária pela bancada do seu partido de sempre (Frelimo) liderou marchas mormente de membros de sua comunidade religiosa em protesto contra o governo americano, por desencadear guerras e desestabilizar países da península árabe de credo muçulmano.
Sonhador, inovador e obstinado
Inovador e sempre pioneiro, quando a mineradora brasileira Vale (do Rio Doce) ganhou enormes concessões de carvão mineral em Tete, nos princípios dos anos 2000, Camal levou seu SIR Grupo a instalar-se em Tete para prover transporte aos trabalhadores da mineradora e de empresas por esta subcontratadas. Camal passou a viver mais em Tete, que em Maputo.
Sob liderança de Camal, nos últimos cinco anos, o Grupo SIR arrisca em dois sub-sectores de logística e transportes. Em 2021, comprou a metalomecânica Cometal, que chegou a ser a quinta maior do continente.
Sempre em mobilidade e arrepiando novos caminhos, para além da linha de carros de luxo Executive Cars, lideraria um negócio disruptivo, ao introduzir um sistema de transporte de interesse público intermodal: o MetroBus, combinando sistemas rodoviário, ferroviário e de auto-motoras para assegurar a linha de fornecimentos de transporte de pessoas na Área Metropolitana do Grande Maputo.
Aos 69 anos, a morte na manhã de quinta-feira (18) no Hospital Eduardo Santos Silva, cidade do Porto, em Portugal, vítima de acidente vascular cerebral (AVC), tirou a vida àquele que uma amiga diz ter sido “um homem bom, inteiro no corpo e na alma, leal e fiel a Moçambique como poucos. Foi um homem de ideias e de projectos, sempre a olhar em frente, com a coragem de sonhar para todos os moçambicanos. A sua ausência far-se-á sentir por muitos, mas de forma particular por aqueles que todos os dias chegam à cidade com tão poucos recursos, encontrando nele um exemplo de esperança e dignidade”, enfatiza esta amiga de Camal.
“De trato fino, elegante, curioso e visionário, reconhecível com o ascot de seda, guardava também um grande amor pelos cavalos. Continuou a cuidar de um deles, já velho e doente, até ao fim, com uma dedicação rara, oferecendo atenção especial até ao cavalo manco, como se em cada gesto de cuidado revelasse a nobreza da sua própria alma”, revela a amiga de “French”.
A última batalha de Amade Camal
A doença que o levou cedo para a morte em Portugal impediu o empresário Amade Camal de levar até à vitória uma batalha pela transição energética, contra uma aberrante “gaffe” da Autoridade Tributária que, na última revisão da pauta aduaneira, colocou um enorme fardo tarifário sobre a importação de autocarros eléctricos, 40% sobre o preço de compra. Ele recebera a indicação de que a taxa seria estabelecida sob os preceitos da transição energética, baixando radicalmente como um cometimento pro-ambientalista do Governo.
Nesse quesito no sector dos transportes, Camal estava na dianteira. Ele importou 40 autocarros eléctricos, que ainda não foram desalfandegados por causa dessa absurda barreira aduaneira, fruto de uma desatenção gravosa dos responsáveis da Autoridade Tributária, que mantiveram os poluentes autocarros a diesel pagando apenas 5%. Camal morreu com essa preocupação na agenda, comprometido com a redução da poluição automóvel no grande Maputo. É esperado que o Governo mande rever esse absurdo e isso até seria uma grande homenagem a um homem que vivia no sangue os problemas da nossa economia, produzia, servia e empregava centenas de trabalhadores através do seu Grupo SIR (Serrações Irmãos Roby).





