O Grupo Mahindra, cuja subsidiária em Moçambique vendeu os tractores que o Governo alocou para o transporte público de passageiros, nas “zonas recônditas”, é acusado de “cumplicidade” no crime de “genocídio” imputado por várias organizações internacionais às Forças Armadas do Israel, na Faixa de Gaza. Em Moçambique, a marca daquele conglomerado indiano, dirigido pelo bilionário Anand Mahindra, neto de um dos fundadores da multinacional, é representada pela empresa MHL Auto Lda., empresa que ganhou 650 milhões de meticais pela venda dos primeiros 100 tractores com atrelados, que vão transportar seres humanos. A MHL é detida pela Mozambique Holdings, que tem na sua estrutura accionista a SPI, “holding” e braço empresarial da Frelimo, partido no poder há mais de 50 anos.
Face ao que organizações pró-palestinianas e vozes independentes consideram “um genocídio” perpetrado por Israel na Faixa de Gaza, o escrutínio internacional aos negócios do Grupo Mahindra, criado em 1945, tem-se intensificado e o gigante do sector automóvel e tecnológico tem sido acusado de “cumplicidade” nos crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelo governo de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelita alvo de mandados de captura emitidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI).
Apelos ao boicote a Mahindra
O Indian People in Solidarity with Palestine (IPSP), um grupo cívico indiano pró-Palestina, organizou esta semana protestos em frente a um “stand” de automóveis da Mahindra, em Nacharam, Hyderabad, apelando ao boicote aos veículos e outros bens vendidos pela empresa. A acção de protesto junta-se às pressões exercidas pelo movimento Boycott, Divestement, Sanctions (BDS), uma campanha internacional que exige o fim da ocupação dos territórios palestinianos e o reconhecimento do Estado da Palestina. “A campanha realizada em Hyderabad visa expor a colaboração entre a Mahindra e Israel”, justificou o IPSP.
Com os contratos e negócios que têm firmado com Telavive, o Grupo Mahindra ajuda “a economia do Estado terrorista israelita e a legitimar a sua existência, nos territórios ocupados”, acusaram os activistas indianos.
Os amantes da paz não podem permitir a continuação das acções de ocupantes coloniais, prosseguem.
Um levantamento do IPSP refere que o estreitamento da cooperação entre o Grupo Mahindra e Israel remonta a Julho de 2017. Nesse ano, a Mahindra Telephonics assinou com a companhia israelita Shacaf Engineering um memorando de entendimento, para a construção de uma unidade industrial de montagem de componentes e sistemas do sector aeroespacial, marítimo e automóvel.
O acordo foi estabelecido no âmbito de uma visita que o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, realizou a Israel.
Em Janeiro de 2018, o presidente do Grupo Mahindra, Anand Mahindra, fez parte de uma delegação de “grandes capitalistas indianos” que se encontraram com o “genocida” Benjamin Netanyahu, em Mumbai. Nessa reunião, Netanyahu apelou aos empresários dos dois países para apostarem na inovação, como motor de fortalecimento e futuro da cooperação.
Na essência, o primeiro-ministro estava a fazer um apelo para um contributo à economia do Estado terrorista e ao financiamento à ocupação israelita da Palestina”, acusa o BDS Índia.
Nesse mesmo ano, a Tech Mahindra assinou um acordo com a Israel Aerospace Industries, para a montagem conjunta de serviços de ciber-segurança e a Mahindra Defence rubricou um entendimento com Aeronautics Ltd, uma empresa líder no fabrico de drones em Israel.
Em 2019, a Tech Mahindra entrou numa parceria com Atidot, uma “start up” israelita da área de Inteligência Artifical (IA), para o desenvolvimento de plataformas de previsão analítica ligadas ao sector de seguros.
Desde 2020, a Mahindra & Mahindra tem trabalhado em parceria com a “start up” REE Automotive, para o desenvolvimento e fabrico de veículos eléctricos destinados a fins civis.
Em Agosto do ano passado, 11 meses após o início dos ataques à Faixa de Gaza, que já mataram mais de 60 mil pessoas e o deslocamento forçado de milhares de palestinianos, o Grupo Mahindra assinou um acordo com a companhia israelita Sentrycs Ltd, empresa da área de equipamentos de defesa. “A lista e extensão até onde o Grupo Mahindra lucra vergonhosamente é enorme”, enfatiza o BDS Índia.
Yashwanth, uma activista da IPSP, não tem dúvidas de que a Mahindra está a agir como “cúmplice” do “genocídio” que está a ocorrer na Faixa de Gaza.
Avançou que o “patrão” do gigante empresarial indiano se encontrou com Benjamin Netanyahu, em 2018, tendo os dois realçado o objectivo de promoção de laços económicos mais fortes.
Em Junho de 2017, a Mahindra Aerostructures começou a co-produzir peças de aeroestrutura com a Cyclone, uma subsidiária da Elbit Systems, descrita como “um dos maiores fabricantes de armas de Israel”.
Para Yashwanth, esses laços ajudam a “normalizar o carácter colonial de Israel e as brutalidades cometidas contra o povo palestiniano”, pedindo que Mahindra seja “responsabilizado e boicotado por sua cumplicidade”.
Geetha, um activista e membro da Organização de Estudantes de Disha da Índia, comparou as políticas de Israel com o monstruoso sistema de “apartheid” que vigorou na África do Sul, assinalando que o movimento BDS visa o desmantelamento do “terrorismo sionista”.
“Empresas israelitas estão a sofrer perdas pesadas em várias partes do mundo devido à sua cumplicidade no genocídio”, vincou.
Tentáculos da Mahindra em Moçambique
A MHL Auto é uma empresa subsidiária do grupo Mozambique Holdings, fundada em 1994 pelo indiano José Parayanken. A Mozambique Holdings é controlada por José Parayanken, Deepak Joseph Parayanken, Dolly Merita José e Sheila Mary Phelan.
A Mozambique Holdings, Lda. tem ligações empresariais históricas com o partido Frelimo, através da empresa Afrodrill, Lda., da qual é accionista juntamente com a SPI – Gestão & Investimentos S.A.R.L, a holding do partido no poder.
Detentora da marca Mahindra em Moçambique, a MHL Auto alicerçou a sua penetração nos negócios com o Estado moçambicano e com a “holding” da Frelimo durante a presidência de Filipe Nyusi, tendo saltado à ribalta com o negócio de tractores para o transporte de passageiros.
O polémico negócio rendeu 650 milhões de meticais, para o fornecimento do primeiro lote de 100 tractores, de um total de mais de 390, com os respectivos atrelados.
A MHL Auto consegue um acesso privilegiado aos concursos para a aquisição de carros para o Estado moçambicano. Vendeu viaturas de marca Mahindra à Polícia da República de Moçambique (PRM), Autoridade Tributária (AT), Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), Ministério da Saúde e outras instituições públicas.
No âmbito da consolidação da aposta em Moçambique, em Novembro de 2022, foi anunciado em Maputo o lançamento de uma linha de montagem de tractores Mahindra, num investimento orçado em 200 milhões de meticais.
O empreendimento inclui instalações com tecnologia de ponta preparadas para montar novos modelos de tractores e prestar assistência técnica aos seus clientes.
Neutralidade dúbia de Maputo
A posição do Estado moçambicano em relação ao conflito entre Israel e Palestina tem oscilado numa esfera de ambiguidade. O Governo da Frelimo reconheceu o Estado da Palestina em 1988 e esta entidade tem embaixada e embaixador em Moçambique.
Este impulso foi o corolário do reconhecimento que a Frelimo sempre manifestou à aspiração legítima do povo palestiniano pela sua independência. Como consequência, Maputo cortou relações diplomáticas com Israel, mas voltou a reatar esses laços, antes da morte de Yasser Arafat, líder histórico da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), em 2004.
Na altura, o então Presidente moçambicano, Joaquim Chissano, justificou o restabelecimento das relações diplomáticas com Israel com o facto de Arafat ter reconhecido a “inevitabilidade” da solução de “dois estados”.
O Estado de Israel tem um embaixador acreditado em Moçambique, Shimon Solom, que também representa o país em Angola, RDCongo e São Tomé e Príncipe e vive em Luanda.
A “neutralidade” dúbia da Frelimo nota-se também no silêncio das autoridades moçambicanas em relação à queixa que a África do Sul apresentou no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) contra Israel, pelo “genocídio” em Gaza.
A acção do Governo do ANC é vista como resultado de uma dívida de gratidão pelo apoio que a OLP manifestou ao povo sul-africano na luta contra o “apartheid”, um sistema contra o qual Moçambique também se bateu, pagando um elevado preço.





