Esta semana, não sem surpresa, fomos brindados com mais um episódio do folclore e regabofe frelimista, de eriçar os cabelos qual Einstein em estado de Eureka.
Ou, mais moçambicanamente, de sentir a violência e virilidade daquilo que um dia Jeremias Ngoenha cantou: “estão a pentear-nos a careca”.
Desta vez, o protagonista do bacoco espectáculo degradante foi Júlio Parruque, Presidente do Conselho Municipal da Cidade da Matola, que pegou no microfone e defecou a ópera bufa do servilismo e endeusamento ao Chefe de Estado e Presidente da Frelimo, seu partido, como cartão de boas-vindas da Matola na visita do Presidente Daniel Francisco Chapo à Província de Maputo. Ufano e lambão, como aluno brilhante da escola frelimista do culambismo, lambebotismo e sim-chefismo camarada, escada rolante de ascensão na carreira política, Parruque subiu no palanque, pegou no microfone e procedeu à leitura do relatório:
“Em nome da maravilhosa e laboriosa cidade da Matola, os munícipes e agentes económicos locais oferecem 50 quilos de hortícolas, com alface, couve e cebolinha, 100 caixas de frango fresco, 50 sacos de farinha de milho, 150 caixas de bolacha e 25 caixas de massa esparguete, 50 caixas de refrigerantes, um casal de ovelhas, 500 sacos de cimento de construção…”
Porque não sou especialista em lei de probidade pública e não trabalho no Centro de Integridade Pública, não vou falar sobre a reacção diplomática, bonacheirona, cívica e pedagógica do Presidente Daniel Francisco Chapo. Deixo que o CIP arrole mais este caso, no seu mapeamento da sem-vergonhice governista, e nos eduque sobre como a economia política do político-feudalismo, para uns neopatrimonialismo e para outros machambismo da maçaroca, se reproduz, em jornada perene.
Interessa-me apenas expelir o meu asco e nojo pela forma como o Protocolo do (Chefe de) Estado se banaliza, ao permitir que este espectáculo de jaez rastejante e degradante continue e campeie, qual campeonato nacional da bajulação ao chefe e insulto ao (at)estado de pobreza, fome e crise humanitária que grassa Moçambique há pelo menos 11 anos.
Todavia, conferir dimensão maior a um “fait-divers” destes equivaleria a me fazer de Houdini e converter a árvore em floresta, ao tomar a parte pelo todo. Paro por aqui, não sem antes partilhar convosco dois dedos de pensamento meus, permitidos e limitados pela ditadura editorial de espaço no microblogue X de Elon Musk:
Um) às vezes, chego a pensar que dirigentes da Frelimo sofrem de paralisia infantil…que lhes inibe de raciocinar, racionalizar, razoabilizar e racionar. Acho que funcionam por estímulos e instintos, como animais. Uma Farma Animal…de jumentos, aos cogumelos!
Dois) diria Leite de Vasconcelos que “o pendor asinino (dos dirigentes da Frelimo) não é genético, é self-made”.
Avancemos, não há recua!
No seu discurso de marco dos 100 primeiros dias de governação, o Presidente Daniel Chapo exibiu bravado. Imponente, no pico dos seus dois metros de altura sobre um púlpito à medida, o Chefe de Estado disse e passo a citar: “antes dos 100 dias, descobrimos que dentro da LAM fomos entregar raposas para cuidar de um galinheiro ou gatos para cuidarem de ratos (…) é importante que se cuide dos interesses do povo e não interesse de pessoas ou de grupos, que dentro da nossa empresa LAM esta’ implantado um antro de corruptos, nhonguistas e boladores (…) quero aproveitar esta ocasião, para dizer ao povo moçambicano do Rovuma ao Maputo que esta é uma fase que estamos a passar, mas depois da tempestade vem a bonança. É uma fase que dói, nós como Governo reconhecemos; mas, depois da dor, nasce uma nova vida, e temos certeza absoluta que vai doer, está a doer, estamos a ouvir o povo moçambicano a lamentar; mas nós vamos até as últimas consequências para que a LAM tenha aviões próprios e possa voar neste país com orgulho da nossa companhia de bandeira” – fechar citação. Mais que uma declaração de força, parecia-me a chapa de Chapo, a marca d’água indelével como um marco de intransigência, intolerância, aversão e alergia ao reino da bolada, das vivas à nhonga e o cambalacho – traço este identitário do Nyussismo, homenageando o legado mais perverso do Guebuzismo arrivista e bizneiro, e do fundacional cabritismo Chissanista.
Desde então, o pelouro com mais protagonismo e estruturante para que as promessas de Daniel Chapo se realizem, Ministério dos Transportes e Logística (MTL), tem-se desdobrado em acções, atitudes, avanços e recuos à esquerda, centro e direita. Em busca de soluções para o que parece não ter solução: a companhia de bandeira, Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). Os trabalhos do Ministro João Jorge Matlombe e sua equipa têm se revelado de uma expedição e expediência de aplaudir, hercúleos que têm sido os seus esforços.
O problema, caros patrícios e leitores da “Carta”, é que a novela da LAM, quanto mais se descasca o novelo do alho, mais nos demonstra estarmos em presença de uma dramaticidade de fazer Sófocles, Shakespeare, Gil Vicente, Charlie Chaplin, Molière combalirem… Há um novo género de teatro político-governamental em Moçambique. Não é Tragédia, nem pode ser Comédia; definitivamente não se trata de Drama, não tem nada que ver com Tragicomédia; não tem paralelo com o Auto, o Monólogo, a Farsa, o Melodrama; não tem verossimilhança com uma Ópera, Teatro de Fantoches/Marionetes, Teatro de Sombras, Teatro de revista, Teatro do absurdo; e de modo algum se confunde com Teatro épico, Teatro experimental e Teatro musical.
Os episódios de pornografia barata do nosso descaso, na contratação do gestor Dane Kondic, e agora esta cara de pau do porta-voz do Governo, o competente e nada ingénuo ministro Inocêncio Impissa, somente desvelam uma coisa, sobre o género de teatro com que a classe político-governamental brinda o povo-plateia: Sambrowera Fandanga. Aquilo que o autor da famosa canção, o saudoso músico e actor moçambicano Salimo Muhamad, o eterno Simião Mazuze, qualificou como a descrição de uma confusão que quer dizer tudo e nada é nada, que não significa coisa alguma, mas quer dizer algo. Em resumo: uma salada russa.
Então o diligente e porta-voz Impissa vem nos impingir a ideia segundo a qual o INSS pretende ser accionista da LAM. Da falida LAM! Daquela na qual lucrativas e sustentáveis empresas públicas HCB, CFM e EMOSE já foram obrigadas a injectar dinheiro fresco. Para tentar salvar a honra da sucataria que ainda resta da companhia aérea de bandeira. No mínimo, se realmente o INSS, fundo de pensões do povo, quer investir na LAM, quem assim pensou, em nome do povo e do Estado, só pode ter sido visitado por um espírito de cabritismo ou sido picado pelo bicho chupacabra. Sim, em mais esta brincadeira à cabra-cega com o “saco azul” do regime, só pode ser mesmo por cabritismo. Para se continuar a comer, como o cabrito, onde se está amarrado. Caros patrícios, La Famba bicha!
versão reeditada da ‘’Carta Ao Leitor’’ na edição 44 de Carta da Semana





