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18 de March, 2026

Cabo Delgado e as incertezas de uma segurança terceirizada

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O recente aviso do Ruanda sobre uma possível retirada das suas tropas de Cabo Delgado não pode ser analisado isoladamente. Ele surge num momento em que Kigali enfrenta também acusações de intensificar o seu apoio ao grupo rebelde M23 no leste da República Democrática do Congo (RDC), revelando um duplo papel que levanta questões profundas sobre a segurança na região.

Por um lado, o Ruanda tem sido um parceiro fundamental para Moçambique. Desde 2021, as suas forças ajudaram a conter a insurgência em Cabo Delgado, criando condições para o regresso de populações deslocadas e a retoma de investimentos estratégicos, sobretudo no setor do gás. No entanto, Kigali deixa agora claro que esta presença depende de financiamento externo previsível, algo que parece estar longe de ser garantido…

Por outro lado, no leste da RDC, o país é acusado de desempenhar um papel oposto: não como estabilizador, mas como fator de agravamento do conflito. Relatórios apontam para apoio ao M23, incluindo fornecimento de meios militares sofisticados, num cenário já marcado por dezenas de grupos armados e uma violência persistente.

A aproximação dos rebeldes a cidades estratégicas como Goma evidencia o risco de uma escalada ainda maior.

É neste cruzamento de realidades que surge uma pergunta inevitável, ainda que incómoda: se um Estado pode ser acusado de apoiar, ainda que de forma indireta, um grupo armado num teatro de conflito, até que ponto se pode excluir completamente a possibilidade de comportamentos ambíguos noutros contextos?

Em Cabo Delgado, não existem provas que apontem para qualquer apoio ruandês aos insurgentes. Pelo contrário, a sua intervenção tem sido decisiva no combate ao terrorismo. Ainda assim, a simples existência dessa dúvida revela um problema mais profundo: a fragilidade da confiança quando a segurança regional depende fortemente de atores externos com agendas próprias.

Este contraste expõe uma realidade complexa. O Ruanda tornou-se simultaneamente parte da solução e objeto de suspeitas na arquitectura de segurança africana. Em Cabo Delgado, é visto como um aliado eficaz; no Congo, como um ator controverso. Esta dualidade não só fragiliza a confiança internacional, como complica os esforços diplomáticos e de cooperação.

Para Moçambique, o risco imediato é claro. A eventual retirada das forças ruandesas poderá abrir espaço para o ressurgimento da insurgência em Cabo Delgado. Mas o desafio é mais amplo: a dependência de soluções externas, por mais eficazes que sejam no curto prazo, não substitui a necessidade de construir uma capacidade de segurança sustentável e autônoma.

A segurança não pode ser fragmentada nem assente em equilíbrios frágeis. Exige coerência, compromisso e responsabilidade partilhada. Sem isso, a região continuará vulnerável. Não apenas à violência dos grupos armados, mas também às incertezas das alianças que hoje a sustentam.

 

 

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