À guisa de introito: crítica, autocrítica e memória.
Um texto recentemente publicado pelo incontornável Gilberto Mendes — apresentado como um “manual de sobrevivência para dirigentes” — contém observações pertinentes sobre humildade no exercício do poder, responsabilidade pública e a necessidade de os governantes prepararem a vida para além dos cargos que ocupam.
Em muitos aspectos, trata-se de um exercício saudável de reflexão cívica sobre os riscos da arrogância e da embriaguez do poder. Contudo, é precisamente quando tais princípios são invocados que se torna difícil ignorar um fenômeno recorrente na vida pública: a facilidade com que certos discursos morais surgem apenas depois de abandonado o poder.
Quando a crítica aparece desacompanhada de um exercício equivalente de autocrítica, corre o risco de resvalar para aquilo que, infelizmente, se tornou cada vez mais visível no espaço público: a hipocrisia política.
O espaço público democrático vive de crítica, debate e contraditório. Contudo, quando determinadas figuras públicas que ontem ocuparam lugares de poder passam subitamente a assumir o papel de juízes morais da sociedade, a pergunta impõe-se: trata-se de consciência cívica ou de memória seletiva?
Nos últimos tempos, Gilberto Mendes tem surgido com frequência nas redes sociais e em diferentes plataformas digitais comentando a governação, aconselhando titulares de cargos públicos e dirigindo críticas ao Governo e ao partido FRELIMO. A formação política na qual construiu uma parte significativa da sua trajetória institucional.
Nada há de errado, em princípio, com a crítica. Pelo contrário: numa democracia madura, a crítica é saudável e necessária. O problema começa quando essa crítica parece ignorar um elemento essencial do debate público: a coerência entre o discurso presente e o percurso passado.
Gilberto Mendes fala hoje com frequência sobre ética pública, responsabilidade dos dirigentes e comportamento de quem exerce funções no Estado. São princípios que ninguém contesta. Pelo contrário, são exigências básicas de qualquer sociedade que pretenda fortalecer as suas instituições. A questão que muitos colocam é outra: por que razão esse fervor moral surge agora com tanta intensidade, depois de anos em que o próprio integrou o aparelho do Estado?
Quem ocupou cargos públicos não é um comentador externo. É parte da história recente da governação. Por isso, quando surge a tentação de distribuir conselhos e lições de moral, o mínimo que a opinião pública espera é um exercício sincero de autocrítica. Sem esse gesto, o discurso corre o risco de parecer mais reposicionamento político do que verdadeira consciência cívica.
Outro aspecto que tem marcado as intervenções públicas de Gilberto Mendes é o tom frequentemente irônico ou provocatório utilizado em relação a determinadas figuras e decisões do Estado. Num episódio amplamente comentado, declarações feitas sobre a nomeação de Alberto Chipande para o Conselho de Estado suscitaram desconforto em vários sectores da sociedade. Independentemente das divergências políticas, Chipande é uma figura histórica da luta de libertação nacional. Em Moçambique, as referências ligadas a esse período carregam um simbolismo profundo. Quando o debate político descamba para a ironia pessoal ou para comentários considerados desrespeitosos, deixa de elevar o debate público e passa a alimentar ruído e polarização. A crítica política exige firmeza, mas também sentido de responsabilidade histórica.
Outro ponto que inevitavelmente regressa ao debate público diz respeito ao período em que Gilberto Mendes exerceu funções governativas no sector do desporto. Sempre que surgem discussões sobre a gestão de instituições ligadas ao desporto ou eventuais irregularidades administrativas neste sector, a pergunta reaparece com naturalidade: que responsabilidades cabem aos dirigentes que estavam no comando naquele momento? Numa democracia moderna, a prestação de contas não termina quando termina o mandato. O escrutínio público acompanha o percurso dos dirigentes mesmo depois de deixarem as funções. Por isso, qualquer discurso moralizante vindo de antigos responsáveis públicos será inevitavelmente analisado à luz do seu próprio legado.
A política tem um defeito curioso: raramente esquece. A opinião pública pode ser paciente, mas não costuma ser ingénua. Quem ontem foi parte do sistema dificilmente consegue convencer a sociedade de que sempre esteve acima dele. Não se trata de negar o direito à crítica. Trata-se de exigir algo simples e fundamental: coerência.
Num país que enfrenta desafios sérios — económicos, sociais e institucionais — o debate público precisa de menos teatralidade e mais responsabilidade. Precisa de menos performances individuais e mais compromisso com a verdade e com a memória coletiva. Se o objetivo for realmente contribuir para melhorar a governação, então o caminho passa por uma postura clara: reconhecer o passado, assumir responsabilidades e falar com a mesma exigência que se aplica aos outros. Sem isso, o risco é que a crítica se transforme apenas em espetáculo político. E que o moralismo de ocasião acabe por perder credibilidade junto da própria sociedade que pretende convencer.
Vivemos um tempo curioso em que o ser humano, apesar de dotado de cérebro, experiência e até alguma teimosia criativa, decidiu terceirizar o pensamento para um algoritmo. Esse manifesto aí… tem muito pano pra manga. Mais não digo. Como diria o outro, Colisensa!





